21/10/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 08/05/2019
Eduardo Oliveira e Silva

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A golpada

António Costa fez o habitual nele: artificializou uma situação para procurar ganhos imediatos e de oportunidade. A pantomina ainda não acabou e o Presidente Marcelo mantém-se tranquilo.

Não vale a pena perder muito tempo a analisar a crise política artificial que está em curso. Foi uma reincidência da parte de António Costa (fez a mesma ameaça há uns anos na Câmara de Lisboa por causa do orçamento e recuou), que se tornou um protagonista habitual de uma forma de fazer política baseada em truques. Percebeu-se, logo que Costa anunciou reuniões do seu grupo mais próximo na sexta-feira, que estava montada uma encenação circense destinada ao combate mediático e eleitoral. Horas depois, o seu discurso confirmava isso mesmo, sem surpresa. Foi Costa (que é bom esquecer que tinha prometido duas vezes aos professores repor--lhes o tempo de carreira) no seu habitual registo de falsidade e deturpação, como no dia em que emergiu para apunhalar António José Seguro, esse sim, um político sóbrio, coerente e de convicções que tinha acabado de vencer eleições. No caso vertente, António Costa sabia perfeitamente que em nenhuma circunstância o PSD e o próprio CDS iriam abdicar de colocar uma cláusula de controlo orçamental na reposição das carreiras dos professores em termos de tempo. Seria uma atitude contranatura. António Costa optou, assim, por surfar a onda, beneficiando do desconhecimento dos comentadores, e atiçou simultaneamente os seus agitadores das redes sociais para criar uma situação artificial de cataclismo político que insiste em manter. Se fosse verdadeiramente um estadista, o primeiro-ministro teria pegado no telefone e falado com Rui Rio e Assunção Cristas. Mas não. Correu para Belém a fazer chantagem com o próprio Presidente Marcelo, que tinha regressado meia hora antes da China. Valeu que Marcelo (que até foi para a praia em Cascais logo a seguir) percebeu que a coisa está no domínio da pantomina e ainda da pura ameaça tática. Ao contrário do que lhe é habitual, o chefe de Estado fechou-se em copas, esperando que o balão esvazie, o que ainda não ocorreu totalmente.

Ao empolar a crise, Costa quis também ofuscar a campanha para as europeias, que lhe estava a correr mal, não só pela nulidade que é o cabeça-de-lista, mas pela fragilidade total do elenco, que mais parece um centro de tratamento de resíduos do socratismo. Que António Costa é um político engenhoso, ninguém duvida. A forma como ele reagiu foi apenas taticista e demagógica. Não está ali um homem de Estado como o foram, entre outros, Soares, Almeida Santos ou Guterres. Está um jotinha especialista em manobras de bastidores e de política de secretaria. Contou e jogou com tudo, nomeadamente com a impreparação de comentadores e comunicadores que não sabem como funciona uma comissão parlamentar, em que nunca aquilo que é votado para ir a plenário é redigido na hora.

Obviamente, há sempre um desfasamento temporal entre o fim dos trabalhos e a redação final de matérias altamente complexas que sobem a plenário. Mas Costa não desiste facilmente quando se lhe mete uma coisa na cabeça. Prova disso foi a sua ida à TVI, na segunda-feira, onde manteve a corda esticada. À hora de enviar esta crónica, a hipótese de demissão, por mais surrealista que seja, ainda está no domínio do possível. Mas se Costa levar a dele avante é bem possível que o país acorde, tome consciência da realidade e o feitiço se volte contra o feiticeiro.

Escreve à quarta-feira

 

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