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Extinção. Ainda vamos a tempo de salvar um milhão de espécies?

Extinção. Ainda vamos a tempo de salvar um milhão de espécies?

Dreamstime Joana Marques Alves 07/05/2019 09:29

Relatório apresentado ontem em Paris mostra que os animais estão a desaparecer a uma velocidade nunca antes vista.

Existem oito milhões de espécies no Planeta Terra. Destas, um milhão está em vias de extinção devido à pegada humana deixada nos últimos séculos. Este é o principal alerta do relatório lançado ontem pela IPBES – Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas para a Biodiversidade e Ecossistemas, um comité das Nações Unidas.

O documento, escrito por 145 especialistas de 50 países, é o maior relatório sobre as perdas na Natureza feito até hoje. E as conclusões não são nada animadoras: o ritmo a que se está a perder espécies selvagens é já “dez milhares de vezes superior ao que tem sido identificado, em média, nos últimos dez milhões de anos”, refere o relatório, apresentado ontem em Paris.

O pior é que nada disto é novo: Robert Watson, químico britânico que chegou a ser presidente da IPBES, diz que o relatório apenas acrescenta alguns detalhes à mensagem que os cientistas têm tentado passar nos últimos 30 anos. “A biodiversidade não é apenas uma questão ligada à natureza. É um tema ligado a questões económicas, morais, políticas e de segurança. Estamos a percorrer o caminho que irá destruir o bem-estar das próximas gerações de seres humanos”, afirmou ontem, durante a apresentação do documento.

Watson diz que, para travar este problema, é necessário eliminar todos os subsídios que não têm em vista uma política ‘verde’ e ecológica. “Algumas empresas são até incentivadas a destruir o meio ambiente”, denuncia. “As pessoas com interesses económicos em determinadas áreas irão opor-se a esta ideia, mas os governos têm de se manter motivados e focados neste objetivo”, apela Robert Watson.

Durante a conferência, os especialistas expressaram a sua preocupação em relação a vários ecossistemas, como a grande barreira de coral, as tundras e o Ártico. Mas nem tudo está perdido: os autores do estudo dizem que os estragos ainda não são permanentes, mas temos de agir rapidamente para os reverter. “Ainda há tempo para o planeta recuperar se as nossas ações de recuperação forem drásticas”, afirma Kate Braman, membro do painel de especialistas da IPBES.

E para aqueles que acham que não têm nada a ver com este problema e que não serão afetados pelo que se está a passar no outro lado do mundo, a especialista deixa um aviso: “Este relatório mostra que existirá um impacto nas cidades – desde os parques urbanos até à gestão de problemas como sistemas de prevenção de cheias, passando pela poluição urbana. O que acontece do outro lado do mundo volta até nós para afetar a nossa vida, seja de que forma for”.

Pegada humana Os primeiros dados do relatório revelados ontem pela IPBES mostram os cinco principais fatores que provocam a perda de espécies: mudanças no uso da terra e do mar – desde a era pré-industrial, o Homem alterou 75% do ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho; exploração direta dos organismos – a pesca, por exemplo, está a ser praticada a ritmos insustentáveis; alterações climáticas – o aquecimento global está a ter impacto em quase metade dos mamíferos ameaçados; poluição; crescimento do número de espécies invasivas – desde a década de 70 que este problema cresceu 70%.

“Ecossistemas, espécies, populações selvagens, variedades locais e raças de animais e plantas domésticas estão a diminuir, a deteriorar-se ou a desaparecer. A rede de vida essencial ao Planeta Terra está a tornar-se cada vez mais pequena. Esta perda é resultado direto da atividade humana e constitui uma ameaça direta ao bem-estar dos seres humanos de todas as regiões do mundo”, lê-se na apresentação do relatório, disponibilizada ontem no site da IPBES.

Plantações e poluição Outra das questões abordadas no relatório é o uso (e abuso) das terras para consumo do Homem. Segundo os dados já disponibilizados, “o valor das colheitas agrícolas aumentou cerca de 300% desde 1970”.

Além disso, o documento refere que, todos os anos, são extraídos do planeta cerca de 60 mil milhões de toneladas de recursos renováveis e não renováveis – valor que duplicou desde 1980.

Mas se por um lado andamos a ‘tirar’ cada vez mais da Terra, por outro pouco fazemos pelos terrenos: a degradação das áreas de cultivo reduziu a produção em 23%. Além disso, as áreas urbanas aumentaram para o dobro desde 1992.

O uso do plástico é outro tema que preocupa os especialistas. De acordo com o novo relatório, a poluição associada a este material é dez vezes superior à registada na década de 80. Anualmente, são deitadas ao mar entre 300 e 400 milhões de toneladas de metais pesados, solventes, materiais tóxicos e outros tipos de lixo associados à indústria do plástico.

Além disso, os fertilizantes usados nos ecossistemas costeiros já criar mais de 400 ‘zonas mortas’ nos oceanos – ao todo, estas zonas ocupam uma área maior do que o Reino Unido.

 

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