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O hálito pestilento sobre o aroma dos cravos

O hálito pestilento sobre o aroma dos cravos

Antônio Moura 03/05/2019 15:28

O governo de Bolsonaro tem levado a cabo políticas que primam por uma clara imposição de hierarquias que vão desde a questão identitária, passando pelo projeto econômico com a reforma da previdência, que visa miserabilizar os pobres e enriquecer ainda mais banqueiros e investidores

 

Abril é o mais cruel dos meses, germina

lilases da terra morta, mistura

memória e desejo, aviva

agônicas raízes com a chuva da primavera(...).

 

Sem a força telúrica dos versos que abrem o célebre poema A terra desolada, de T. S. Eliot, em tradução de Ivan Junqueira – já que atualmente pode-se dizer tudo do Brasil, menos que ele passa por uma primavera, a  não ser que consideremos cogumelos venenosos e fétidos as flores mais formosas do nosso particular jardim de inverno ou inferno – o mês de abril para o nosso país, contudo, conteve a crueldade entrevista no poema.

Não que para o Brasil de 2019 abril seja o mais cruel dos meses, dado que seria muito, mas muito difícil mesmo, fazer este tipo de escolha desde que o atual governo tomou posse em janeiro deste ano, já que a cada dia este se supera em termos de crueldade por meio de medidas que visam atingir diretamente os mais pobres e as minorias, seja através de pautas econômicas de caricatura neoliberal como a reforma da previdência ou de medidas francamente neofascistas em que o próprio presidente, Jair Bolsonaro, se deu ao trabalho de ele mesmo vetar diretamente um comercial de TV do Banco do Brasil porque mostrava a diversidade, a pluralidade da população brasileira, incluindo negros, mulheres, transexuais... o que para este mal combinado aglomerado de células que enverga a faixa presidencial é insuportável, já que tal criatura ignora o termo respeito e representa o desejo demente de implantação de um processo anticivilivizatório. Um defeito perfeito, para citar Tristan Corbière em seu poema Sabedoria das nações, em tradução de Marcos Antônio Siscar.

Ato como este de censura e intolerância às diferenças tira indubitavelmente o neofascismo à brasileira do campo da especulação e o coloca no campo da ação. Uma clara imposição de hierarquias que vai desde a questão identitária, passando pelo projeto econômico com a reforma da previdência, que visa miserabilizar os pobres e enriquecer ainda mais banqueiros e investidores, aumentando ainda mais o já gigantesco abismo da desigualdade, numa posição claramente subserviente ao mercado financeiro. Aliás, subserviência é a tônica de Bolsonaro e seus pares.

Para completar a receita deste bolo assado nos fornos do inferno temos um ingrediente fatal – fatal mesmo, no sentido de letal, fisicamente mortal, para, em sua maioria pretos e pobres, evidentemente: o pacote relativo à segurança do ministro da justiça Sérgio Moro. Um amontoado de medidas totalitárias que, entre outras coisas transforma a polícia em milícia – uma espécie de máfia que controla grandes áreas das grandes cidades, com um agravante, incrustada no próprio Estado. Este projeto de segurança do Ministro da Era Conje – pois, leitores portugueses, pasmen, o nosso ministro fala “conje” ao invés de cônjuge – por meio de um dispositivo chamado “excludente de ilicitude”, que, em sua própria nomenclatura, ou seja, através da linguagem já entrega o que pretende fazer, proteger da ilegalidade algo totalmente ilegal como, por exemplo, o ato de matar. Na verdade, uma autorização para o extermínio. O tal “excludente de ilicitude”, em poucas palavras, é simplesmente um pequeno conjunto de itens que resulta em uma forma escancarada de tornar facilmente legítima defesa qualquer assassinato por parte da polícia. Ou milícia?

Também é muito difícil para nós atualmente escolher qual seria o mês mais vergonhoso desde que o governo Bolsonaro assumiu o mandato, pois toda a sua principal equipe se esmera em se superar e nos surpreender em tal quesito ao longo dos meses. A ministra Damares disse que viu Jesus numa goiabeira, o chanceler afirma que o nazismo é de esquerda e, por falar em nazismo, o próprio Bolsonaro desculpou o holocausto em pleno Museu do Holocausto. Um quadro manicomial, sem querer ofender as pessoas que já passaram por manicômios. E é dentro deste quadro vergonhoso que surge o bafo podre do Ministro da Justiça sobre os cravos de abril.

Ao cumprir a vocação deste governo em deixar um rastro de vergonha mundial por onde passa, o ministro Sérgio Moro, em visita a Portugal cobriu o Brasil de constrangimento no dia 24 de abril, véspera da data comemorativa da Revolução dos  Cravos. Ao ser confrontado pelo ex primeiro ministro de Portugal, José Sócrates, sobre o  roteiro de seu papel cada vez mais evidentemente político e eleitoral, respondeu da forma mais chucra que “não debate com criminosos”, ao aludir à certas suspeitas que pairam sobre o ex primeiro ministro português. Ao responder isso ele só confirmou, em poucas palavras, a narrativa que define a sua atuação em busca de cada vez mais se esgueirar por um caminho antidemocrático, totalitário e avesso ao estado de direito. Pois com esta resposta, não a resposta de um Ministro da Justiça, não a de alguém que no posto que ocupa teria a obrigação de pensar a justiça, mas a de um delegado de esquina, pois com tal resposta ele ignorou a presunção de inocência, dado que em relação ao ex primeiro ministro não há nada além de suspeitas, nenhuma prova ou mesmo um processo em curso. Os cravos de abril murcharam quando ele abriu a boca. Uma clara demonstração de despreparo para o alto cargo que ocupa e a incrível capacidade de ofender os anfitriões em sua própria casa. Foi uma maneira e uma oportunidade que ele encontrou de dizer o que na verdade ele tem vontade de gritar “Eu sou um fascistóide, eu não considero o estado de direito, muito menos tenho a intenção de respeitar direitos humanos e estou pronto para condenar pessoas sem provas”. Em poucas palavras, ao ofender a democracia portuguesa, ele corroborou a narrativa de que o açodamento do processo que levou à prisão do ex presidente Lula foi a forma eficaz de usar o judiciário para fins de um projeto político de um grupo de ultradireita no qual ele foi guindado ao cargo de super ministro, conclusão lógica de tal narrativa.

O ministro que, para mais uma vergonha nossa, bafejou seu veneno sobre os cravos de abril, é o mesmo que ao ser questionado sobre o fuzilamento de uma família negra dentro de um carro no Brasil, com oitenta tiros – sim, oitenta tiros – disparados pelo exército brasileiro, “por engano” só conseguiu dizer: pode acontecer...

Pois eu digo que é por causa de respostas como essa que é preciso escrever poemas como esse:

 

País

Transformado em porão, sua carga

                           – cor, sangue, dor, perseguição

 

Navio

                           fantasma há séculos à deriva

 

          Negreiro

                                      O uivo do mar que envolta vibra

 

(Joaquim Nabuco, A outra voz, Antônio Moura, Editora Patuá, 2018)

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