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Leonardo da Vinci. A vida e a morte de um génio total

Leonardo da Vinci. A vida e a morte de um génio total

DR José Cabrita Saraiva 02/05/2019 11:32

Há precisamente 500 anos, o mundo perdia aquele que foi possivelmente o maior génio de todos os tempos. Pintor, escultor, arquiteto, engenheiro, cientista, filósofo, Leonardo da Vinci era, acima de tudo, um homem ávido de conhecimento cujos feitos ainda hoje nos deixam boquiabertos.

Em 1516, ao que tudo indica após a morte do seu patrono em Roma, Giulano de’ Medici, Leonardo da Vinci partiu para França a convite do Rei Francisco I. Tinha 64 anos e levou consigo a súmula da aprendizagem e do trabalho de uma vida excecional: milhares de páginas de apontamentos e manuscritos e três pinturas, uma das quais a Mona Lisa.

A sua fama era já tão grande na altura que Francisco pôs ao seu dispor a antiga residência de verão dos reis de França, a Mansão de Cloux, perto de Amboise. Segundo o historiador Kenneth Clark, o soberano “nada pediu em troca excetuando o prazer de conversar com ele, de que gozou quase todos os dias”. Segundo a crença popular, existia mesmo uma passagem secreta do palácio do Rei para a casa de Leonardo.

Durante os anos em França, e gozando da generosidade real, o artista pouco terá trabalhado. A 23 de abril de 1519, vendo a morte a aproximar-se, fez o seu testamento, deixando manuscritos e outros bens a Francesco Melzi, seu discípulo. Morreu na cama a 2 de maio.

Precisamente 300 anos depois dos acontecimentos, em 1818, o mais clássico dos pintores franceses do seu tempo, Dominique Ingres, representaria o último suspiro de Leonardo da Vinci nos braços de Francisco I. A cena que o quadro mostrava era certamente uma invenção. Mas tinha um fundo de verdade: ao saber da morte do velho amigo, a quem chamava “pai”, o Rei terá chorado. E alguns anos mais tarde diria a outro artista, o escultor Benvenutto Cellini, que acreditava que nunca tinha vivido um homem “que soubesse tanto como Leonardo, tanto em escultura, pintura e arquitetura, como em filosofia. Era um grande filósofo”.

Por alturas da sua morte, diz-nos o historiador da arte Martin Kemp, um dos grandes especialistas mundiais na obra e pensamento de Leonardo, este “já estava em vias de adquirir um estatuto lendário. E depois, no final século XVIII e no século XIX, ascende muito rapidamente”.

Freud e a caverna As palavras com que Vasari - que em 1550 escreveu sobre “as vidas dos mais excelentes arquitetos, pintores e escultores italianos” (entre os quais Leonardo) - abre a sua biografia não podiam ser mais elogiosas: “Grandes dons se vê chover das influências celestiais sobre corpos humanos [...], às vezes sobrepondo-se num corpo só beleza, graça e virtude, de uma maneira que, onde quer que essa pessoa se volte, cada uma das suas ações é muito divina, que deixa para trás todos os outros homens [...]. Foi o que viram os homens em Lionardo da Vinci, em que, além da beleza do corpo, nunca elogiada o suficiente, era a graça mais que infinita em qualquer de suas ações; e a virtude era tão grande que tornava fáceis as coisas difíceis. A força nele era grande e combinava-se com destreza, alma e valor, sempre real e magnânimo”.

Nascido a 15 de abril de 1452, perto de Vinci, Leonardo foi registado como “filho não legítimo” de um notário, Ser Piero. Segundo Martin Kemp, talvez por influência do pai, toda a vida Leonardo escreveu numa letra tardo-medieval dificílima de decifrar. Além disso, tornou-se célebre a sua escrita em espelho (uma vez que era canhoto, como demonstram os sombreados dos seus desenhos, desta forma não borrava a tinta ainda fresca com a mão).

Da Vinci não teve uma educação livresca formal. Mas desde cedo mostrou um grande amor pela natureza, um talento inato para desenhar e uma curiosidade insaciável. Da primeira infância, só chegaram até nós dois episódios. Um diz respeito a um milhafre que lhe terá roçado o rosto quando estava deitado na alcova. Freud fez uma elaborada teoria acerca da homossexualidade do artista a esse propósito. O outro resultou de uma visita aos Montes Ceceri, em que o pequeno sentiu um misto de terror e de fascínio pela entrada de uma gruta.

Vasari conta também que, quando era criança, pintou um dragão no escudo de um camponês. “Para o efeito, levou para o seu quarto lagartos grandes e pequenos, grilos, serpentes, borboletas, gafanhotos, e animais desse tipo, a partir dos quais [...] fez uma grande e feia criatura”. Mais tarde, haveria de fazer peregrinações ao Mercado de San Lorenzo, em Florença, pelo prazer de comprar pássaros, abrir as gaiolas e vê-los voar em liberdade.

Os aperitivos da vida Aos 14 anos, Leonardo foi para Florença para entrar como aprendiz na oficina de Andrea del Verrochio, um dos mais proeminentes artistas de então. Rapidamente mostrou o seu talento, e o mestre confiou-lhe tarefas de cada vez maior responsabilidade. Quando tinha cerca de vinte anos, ficou encarregue de pintar os anjos numa representação do batismo de Cristo. Verrocchio ficou tão assombrado com o resultado que terá deixado de pegar nos pincéis, por achar indigno que um principiante soubesse mais do que ele.

“Presumivelmente Leonardo, como outros jovens dotados, passou grande parte da sua juventude no que conhecemos como não fazer nada: a aperaltar-se, a conversar, a domar cavalos, a aprender a tocar alaúde, a aprender a tocar flauta, a saborear os hors d’oeuvres [aperitivos] da vida, até o seu génio encontrar a sua verdadeira direção”, escreveu Clark. Não por acaso, é em 1476, enquanto está na oficina florentina, que sofre uma acusação de sodomia.

Leonardo é hoje visto como o expoente máximo do Renascimento, o movimento que recuperou os valores clássicos da Antiguidade. Mas não tinha um especial respeito pela autoridade dos autores antigos. Preferia a observação direta. E recorria a métodos muito pouco convencionais, como perseguir pessoas cuja fisionomia considerasse curiosa para lhes recordar as feições (assim nasceram algumas das suas famosas caricaturas). Ou este, que propunha no seu tratado sobre pintura: “Deves olhar para certas paredes manchadas com bolor ou para pedras de cor irregular. Conseguirás ver nelas imagens de paisagens divinas, adornadas com montanhas, ruínas, rochedos, florestas, grandes planícies, colinas e vales de grande variedade”.

Em Florença, instalado no hospital de Santa Maria Nuova, teve oportunidade de assistir e participar na dissecação de cadáveres com Marcantonio della Torre, o maior anatomista da época. Os especialistas não estão certos se o terá feito para melhorar a representação da figura humana, se pelo prazer puro e duro do conhecimento. 

A corte de Florença e a fortaleza de Milão Leonardo tomou um lugar entre os cortesãos que gravitavam no círculo de Lourenço de Médicis, o Magnífico. Mas o neoplatonismo, que era a corrente filosófica dominante naquela corte, não apelava à sua sensibilidade. “Embora um mecenas esclarecido da literatura, Lourenço interessava-se pouco por arte”, escreveu Clarke. Além disso, continua o autor, “os modos misteriosos e reservados [do artista] não encaixavam na vida cívica de Florença”. E Leonardo tinha ainda uma consciência acentuada da sua superioridade.

Quando, em 1482, Lourenço de Médicis o envia numa missão diplomática para selar a paz com o duque Ludovico Sforza de Milão (levando de presente uma lira de prata concebida pelo artista), Leonardo escreve uma carta a propor os seus serviços a Ludovico. “A vida luxuosa e requintada da corte dos Sforza também deve ter exercido um forte poder de atração”, considera Clark. “Na corte de Ludovico havia homens engenhosos em grandes quantidades, médicos, cientistas, estrategas, matemáticos, engenheiros militares, homens da experiência e dos factos, que podiam alimentar a ânsia de Leonardo por informação”.

Permanece em Milão até 1499, desempenhando as funções de engenheiro, arquiteto e até responsável por festas e receções. Elabora planos para um sistema de canais que permitam navegar entre Milão e o lago Como e encarrega-se de melhorar a fortaleza do duque. Segundo Clark, durante este período, “estava permanentemente ocupado com o grande castelo dos Sforza em Milão, do qual dependia, em grande medida, o poder deles”.

Rivalidade de morte Em 1503 Leonardo recebe uma encomenda para a Batalha de Anghiari, um enorme fresco na Sala do Grande Conselho do Palazzo Vecchio, em Florença. Na parede em frente ficaria um outro fresco, de Miguel Ângelo. O frente-a-frente era considerado uma espécie de competição para determinar qual dos dois artistas era mais digno de louvor.

A rivalidade entre os dois gigantes do Renascimento era proporcional à sua fama e estatuto. Vasari escreveu que sentiam um “sdegno grandisimo” (um enorme desdém), um pelo outro. Leonardo, que se bateu toda a vida para elevar a dignidade da pintura (até ao Renascimento considerada um mero ofício), considerava a escultura a mais mecânica das artes, porque implicava o uso da força braçal. “E isto é feito pelo exercício mais mecânico, geralmente acompanhado por muito suor, que se mistura com o pó do mármore e forma uma espécie de lama que lhe suja o rosto”, escreveu o artista florentino, numa alusão clara ao seu rival. “O pó de mármore cobre-o de maneira a fazê-lo parecer um padeiro. O exato oposto é verdadeiro para o pintor [...]; pois o pintor senta-se perante a sua obra, perfeitamente à vontade e bem vestido [...]; a sua casa está limpa e cheia de quadros encantadores; e muitas vezes é acompanhado por música ou pela leitura de belas e variadas obras que, uma vez que não estão misturadas com o som do martelo ou outros barulhos, se ouvem com o maior dos prazeres”.

A batalha de Anghiari não sobreviveu à voragem do tempo, em grande parte devido à técnica pioneira usada pelo seu criador. Quando, 60 anos depois, o palácio foi remodelado, Giorgio Vasari, justamente o biógrafo de Leonardo, cobriu a parede com um nova pintura. O fresco de Miguel Ângelo não teve melhor sorte. Hoje, o que conhecemos da obra de Leonardo é um desenho feito por outro artista, o flamengo Peter Paul Rubens... mas já cerca de meio século depois de o original ter desaparecido.

A forma suprema de conhecimento visual Leonardo é um pintor que hoje associamos de imediato a retratos de figuras tranquilas, um pouco lânguidas e quase sem forças. Mas na verdade era obcecado com o movimento e a sua representação - quedas de água, remoinhos, corpos torcidos, aves em pleno voo, etc. Para Bill Gates, um admirador de Leonardo, e proprietário de um manuscrito do mestre, di-lo com clareza: “Ele estudou tudo o que podia ver: o fluxo da água, a forma como o fumo sobe através do ar, como um picapau usa a sua língua. Ele tinha intuições que estavam à frente do seu tempo. Desenvolveu uma teoria acerca do funcionamento de uma certa válvula cardíaca que os investigadores só há poucas décadas confirmaram”. O mesmo se pode dizer do voo dos pássaros: Leonardo descreveu-o de uma forma que só as imagens de câmara lenta nos puderam mostrar.

Kenneth Clark resume: “Qual é a sua conclusão? Que a Terra, como o homem, as plantas e a luz, se encontra num estado de mudança contínuo. [...] Isto explica a imensa [...] e desencorajadora quantidade de espaço ocupada nos seus blocos de notas por descrições e diagramas do movimento da água. São estudos, e símbolos, dessa energia contínua que as observações de Leonardo o levaram a colocar no centro do seu sistema cósmico”.

Todo este conhecimento - anatomia, geologia, astronomia, física, mecânica, óptica, biologia, história natural, etc., além das técnicas oficinais propriamente ditas - Leonardo tentou condensar nas suas pinturas. “Ele quer que a pintura seja ciência, quer que seja fantasia, quer que seja filosofia, quer que seja tudo!”, exclama Martin Kemp. “Pede à pintura que seja a forma suprema de conhecimento visual”.

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