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Estenógrafos e operadores de telefone? Eram milhares

Estenógrafos e operadores de telefone? Eram milhares

DR Marta F. Reis 01/05/2019 15:26

A OCDE alertou na semana passada que 14% dos atuais empregos poderão desaparecer nos próximos 15 a 20 anos à conta da automação. Outros 32% vão alterar-se radicalmente. As perspetivas são incertas, mas muitos empregos do passado também já passaram à história. O i foi aos Censos da altura do primeiro Dia do Trabalhador em democracia à procura das diferenças.

“É uma era de transformação. A disrupção é o novo normal”. O alerta surge no último relatório da OCDE sobre emprego, que tornou enfatizar o quanto a tecnologia poderá mudar o panorama do trabalho nos próximos anos. Os números falam por si: 14% dos atuais empregos nos países da OCDE vão ser “altamente automatizados” e outros 32% serão “radicalmente transformados pelo progresso tecnológico”. O que é que isto significa para si?, pergunta a organização, para logo dar a resposta: “Se trabalha na indústria ou na agricultura e não tem um curso superior, o risco de o seu emprego ser automatizado é muito maior do que se trabalha no setor da educação, saúde ou serviço social”. Nestes últimos, aliás, os receios são até de que venha a faltar mão de obra para responder às necessidades de uma população cada vez mais envelhecida. A preocupação foi sublinhada por exemplo no último congresso da Associação Médica Mundial, que teve lugar na semana passada no Chile. Estima-se uma escassez de 18 milhões de profissionais de saúde nos próximos anos.

Se o futuro é incerto, muitas foram as alterações no passado. E se alguns ofícios têm vindo a ser recuperados, estão longe de empregar como dantes. Os Censos de 1970, ano em que pela primeira vez se realizaram em simultâneo os recenseamentos da população e da habitação – daí a expressão ser hoje “censos” no plural – permitem ver como algumas áreas mudaram. Ao ponto de hoje já nem aparecerem categorizadas nos relatórios do Instituto Nacional de Estatísticas.

Estenógrafo e afins

Segundo os registos de população residente com atividade económica a exercer uma profissão, em 1970 contabilizavam-se no país 6695 estenógrafos e afins – a esmagadora maioria (5735) mulheres. Eram especialistas em tomar notas ao ponto de reproduzir na íntegra discursos, reuniões, atos em tribunal ou a redação de cartas nas empresas, já de si uma evolução no secretariado tradicional. Hoje, os símbolos que usavam para abreviar a escrita parecem autênticos hieróglifos, mas para dominar a arte tirava-se o curso de estenografia, muitas vezes acompanhado da formação em datilografia para aprimorar a escrita à máquina. A generalização dos computadores e gravadores tornou-os uma relíquia. Nos Censos de 2011 não há registo de estenógrafos. Em contrapartida, contabilizam-se 26 265 analistas e programadores de software, web e aplicações e outros 7328 especialistas em bases de dados e redes, funções que não existiam quando se celebrou o primeiro Dia do Trabalhador em democracia. Há registo ainda de 2732 operadores de processamento de texto e dados.

Carteiro e boletineiro

O boletineiro era o distribuidor de telegramas. Ainda há cartas e telegramas, mas já não têm o peso do passado – o email “automatizou” grande parte da comunicação, para não falar de todos os programas de conversação que se seguiram. Os Censos de 2011 já não discriminam estas funções, mas em 1970 contabilizavam-se 7390 homens e 420 mulheres neste ofício. Os Censos de 1980 falam já de 10 021 carteiros, estafetas e similares. Entrariam nesta categoria os novos distribuidores de comida ao domicílio que passaram a povoar as maiores cidades?

Operador de telefone e telégrafo

Tal como a estenografia, estas eram ocupações dominadas pelas mulheres. Registavam-se, em 1970, 4145 homens e 9550 mulheres nesta profissão.

Caixeiro e afins

Continua a haver registo de vendedores ambulantes: nos Censos de 2011 eram 8784, excluindo-se a venda de alimentos. Em 1970 esta profissão tinha 109 955 pessoas registadas, a maioria homens.

Cozinheiro e empregado de mesa

São profissões que continuam a existir, mas o tempo trouxe outras mudanças curiosas. Em 1970 contabilizavam-se 28 315 portugueses nestas profissões. Nos últimos anos, tornaram-se categorias separadas. E em 2011 havia mais cozinheiros (81 991) do que empregados de mesa (64 009). “Aquilo que se fez com o chefe de cozinha, e hoje em dia é tão sexy ser cozinheiro que não há falta de pessoas que queiram seguir essa carreira, também teremos de fazer com os empregados de mesa”, disse esta semana ao i a secretária-geral da AHRESP, Ana Jacinto, representante do setor da restauração.

Porteiro de prédio

Ainda há prédios com porteiro, mas muitas das casas foram até aproveitadas no ímpeto de remodelações dos últimos anos. Nos Censos de 1970 contabilizavam-se 34 915 pessoas nestas funções, a grande maioria mulheres (25 750).

Lavadeiro, engomador e afins

Engomadorias continuam a existir e as lavandarias self-service multiplicaram-se como cogumelos – neste caso venceu a automação, desde logo quando os tanques foram substituídos pela lavagem à máquina em casa. A profissão, de qualquer forma, não surge na lista dos Censos de 2011. Em 1970 ocupava 3490 pessoas no país, a maioria mulheres.

Alfaiate, modista e afins

Nos últimos anos, a costura também tornou a ganhar protagonismo, mas ir ao alfaiate ou à modista, como ainda se fazia nos anos 80 e 90, tornou-se muito menos comum. Os números impressionam: em 1970, estas eram as profissões de 114 370 portugueses, na maioria das vezes mulheres (96 575). Havia ainda 39 165 sapateiros e 1495 curtidores de peles. Nos Censos de 2011 as profissões já não eram discriminadas desta forma. Naquele ano, contavam-se 90 936 “trabalhadores da confeção de vestuário, curtidores de peles, sapateiros e similares”.

 

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