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Moçambique. Uma desgraça nunca vem só num planeta mais quente

Moçambique. Uma desgraça nunca vem só num planeta mais quente

AFP João Campos Rodrigues 30/04/2019 18:26

Teme-se que as cheias o Kenneth causem mais mortos, à semelhança do Idai. A frequência de ciclones está relacionada com o aquecimento global.

A província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, foi atingida pelo ciclone Kenneth enquanto as populações e as autoridades ainda tentavam reagir aos estragos devastadores do ciclone Idai no centro do país. O balanço de mortos no Kenneth, vai em pelo menos 38 mortos e 39 feridos, um valor que poderá subir muito rapidamente, tendo em conta a experiência do ciclone Idai, que reclamou mais de 762 vítimas.

“Estamos preocupados com as cheias”, afirmou ao i Corrie Butler, porta-voz da Cruz Vermelha Internacional para a África Subsaariana. “O ciclone em si foi um fenómeno climático muito poderoso, mas as cheias são como um segundo desastre”, considera Corrie, que relembrou: “Como vimos no Idai, o que matou e afetou mais gente, foi a subida das águas”. A porta-voz da Cruz Vermelha notou que a chuva intensa deverá continuar nos próximos dias, prevendo-se que a precipitação seja mais de um quarto da água que costuma cair em toda uma estação.

Por agora, além da perda de vidas, o ciclone Kenneth já resultou em grandes perdas materiais, destruindo quase 35 mil casas, em particular na capital da província, Pemba. Além disso, mais de 31 mil hectares de culturas foram destruídos, numa região muito pobre, dependente da agricultura de subsistência e que estava em plena época de colheitas – ainda por cima após a destruição causada pelo Idai em Sofala, uma das regiões mais produtivas do país.

“As estradas estão danificadas, as pessoas desalojadas, perderam as suas casas, os seus bens, os seus carros, houve mortos”, lamentou ao i Erculino Fernandes, um motoristas morador de Pemba. “Soube de pessoas cujas as casas caíram com elas lá dentro”, relata Erculino, que acrescentou: “Nem consigo explicar a dimensão da tragédia”.

Entre o barulho constante dos pingos de chuva Erculino conta que a “situação alimentar está difícil” em Pemba, com parte da população sem apoio e muitos supermercados fechados. “Estão cheios de água lá dentro, destruiu todos os produtos”, explica o motorista, que tem vivido do stock alimentar que acumulou em casa, quando foi anunciada a tempestade. Uma prática recomendada pela Cruz Vermelha Internacional, que já está no terreno desde que o Kenneth foi previsto.

“Ajudámos as pessoas a prepararem-se para este ciclone, treinámos voluntários locais para ajudar na evacuação”, diz Butler, que conta como entre as práticas ensinadas estão coisas básicas, como técnicas para salvaguardar bens essenciais durante as cheias e como manter os cuidados de higiene adequados durante uma crise. Uma formação mais urgente dado que “a província de Cabo Delgado nunca teve um ciclone desta magnitude na história registada”, ainda para mais tão pouco tempo depois do ciclone Idai.

Este aumento da frequência de ciclones pode ser explicado dado que “a temperatura superficial do oceano está a aumentar”, devido às alterações climáticas, causadas por gases de efeito de estufa, explicou ao i Filipe Duarte Santos, presidente do Conselho do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.

Uma coisa relaciona-se com a outra dado que “os ciclones tropicais são animais oceânicos”, ou seja, “formam-se no oceano e crescem no oceano, a sua energia vem do calor lá acumulado”, conta Duarte Santos. Abaixo de 25 graus, os ciclones nem se formam. O que explica que regiões que não costumam sofrer com ciclones tropicais acabem por sofrer – como é o caso de Cabo Delgado e até de Portugal. O aumento destes fenómenos afeta sobretudo países em desenvolvimento, sendo causado sobretudo por emissões vindas de países desenvolvidos. O presidente do Conselho do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável não tem dúvidas que isso aumenta a responsabilidade destes países ajudarem. Se não houver esse “primado da ética”, “é o salve-se quem puder”, remata.

 

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