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Juan de la Rubia. “Sinto-me muito afortunado”

Juan de la Rubia. “Sinto-me muito afortunado”

Mafalda Gomes Mariana Madrinha 29/04/2019 20:07

Este sábado, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção, em Elvas, recebeu o organista para um concerto único.

É considerado um dos melhores organistas da Europa e tinha apenas 28 anos quando foi chamado a cumprir a missão de se tornar o organista principal da Basílica da Sagrada Família, em Barcelona - o primeiro músico a ocupar este cargo desde que o Papa fez a dedicação da igreja de Gaudí, em 2010, que assim começou a funcionar como templo. Este sábado foi o artista convidado do Festival Terras sem Sombra, na “etapa” dedicada a Elvas, para acordar um gigante: o Grande Oldovino, o órgão da antiga sé da cidade, um convite que aceitou face à importância do instrumento a que deu vida diante de uma igreja repleta. Após o concerto, fez uma festa no órgão - afinal, Juan de la Rubia não esquece a fortuna imensa de “poder tocar em património”. Descobriu esta vocação aos seis anos, numa idade em que as aspirações infantis falam normalmente de outros caminhos. Juan entrou numa igreja, ouviu o órgão e disse aos pais que queria ser organista. Sonho cumprido: para lá do trabalho na Sagrada Família - onde é também uma espécie de embaixador do instrumento -, hoje corre o mundo a dar concertos. 

É preciso um certo recolhimento do público para assistir a um concerto de órgão. Quando está lá em cima ouve como as pessoas estão a comportar-se?

Normalmente, sinto tudo. A relação entre o público e o intérprete existe sempre, mesmo quando o organista está lá para cima perdido e as pessoas não o veem cá em baixo - há sempre uma conexão. Às vezes não só escuto o que se passa cá em baixo como também sinto a energia das pessoas. Às vezes, com o silêncio: há muitos tipos de silêncio. Há um silêncio só de quem está à espera, outro de expetativa. E isso, muitas vezes, também condiciona a maneira de tocar do músico.

O que sentiu hoje?

Houve momentos de tudo. É verdade que quando há muita gente [dentro da igreja cabem 600 pessoas], isso sente-se mais vezes. Há pessoas que vão assistir por causa do organista, outros pelo órgão, outros porque é um ato social, outros porque não há muitos concertos e, já que está a ser feito um, então vão. Hoje, em geral, quando se fez silêncio, penso que conseguimos um belo ambiente, e a iluminação ajudava. O órgão é muito bonito. No início dos concertos há sempre um pequeno momento estranho, porque as igrejas não são auditórios, não são salas de concerto. 

Tem 36 anos e é o organista titular da Basílica da Sagrada Família desde os 28. Como chegou a este cargo e porque acha que foi escolhido?

Tenho de começar por dizer que me sinto muito afortunado. Comecei na Sagrada Família por uma série de casualidades. Por um lado, quando eu tinha 28 anos, a Basílica começava a funcionar como uma igreja. Continua em construção mas, naquele momento, a nave não estava fechada, então não se podia celebrar. O Papa Bento xvi foi a Barcelona fazer a dedicação do templo e, a partir desse momento, era preciso um organista. 

É então o primeiro organista da basílica, vai ficar para a História!

Pois, nunca tinha pensado nisso assim. (risos) Nessa altura, já era professor na Escola Superior de Música da Catalunha e já estava a dar muitos concertos no estrangeiro. Bem, fixaram-se em mim, talvez também pela minha experiência e formação, que ampliei depois a nível litúrgico, porque há uma relação não só do órgão com o intérprete, mas também com a liturgia. A pouco e pouco foi acontecendo uma aprendizagem mútua. 

Está a crescer com a basílica, então.

É verdade. Creio que todos crescemos. O grupo musical da Sagrada Família compõe-se de várias pessoas - há o organista, o organista assistente, o coro da basílica e o diretor. Crescemos juntos a nível profissional, quer em termos musicais quer em termos de como se organiza uma celebração musical, como se escolhem as obras do repertório.

Quais são as suas obrigações como organista titular da Sagrada Família?

Neste momento tenho de tocar todos os domingos às 9h00 da manhã. Entro às 7h45, ensaio meia hora, às 8h15 chega o coro, que terá já ensaiado por conta própria noutro dia, fazemos toda a música juntos. Às 8h30 entram as pessoas e às 8h55 começamos sempre com uma obra para órgão e coro. Às 9h00 começamos pontualmente a celebração, que é muito musical. Não se entoam só cânticos de missas mas, sobretudo, canta-se muita polifonia antiga do Renascimento, música contemporânea também para órgão e coro. 

O repertório é sempre diferente?

Sim, muda todas as semanas. Estamos sempre à procura de música boa, adequada ao momento litúrgico, e isso também é muito enriquecedor porque aprendes muito. 

Quando escolhem o repertório, na semana anterior?

Preparamos tudo com muito mais antecedência com o diretor do coro. É verdade que o meu trabalho se centra sobretudo nos domingos, mas quando há atividades culturais participo tocando ou dando o meu ponto de vista quando mo solicitam. A Sagrada Família é um sítio onde há concertos muito importantes; não há muitos, mas os que há são muito importantes. Para o ano teremos a Orquestra Filarmónica de Viena, por exemplo. Temos sempre muitas reuniões com as orquestras, quer sobre o repertório quer sobre as condições acústicas. E assim vou conhecendo muita gente, até porque uma das minhas funções é estar disponível até para mostrar o órgão a organistas que vêm de fora.

É uma espécie de relações públicas do órgão da Sagrada Família, então!

(Risos) Sim, um embaixador que representa a Sagrada Família e que tem de saber receber. E, sobretudo, zelar pelo trabalho de manutenção: como todos os instrumentos, este necessita de ser afinado de vez em quando.

Qual foi a primeira vez na sua vida em que escutou um órgão e sentiu: “É isto que quero fazer?” É uma profissão muito atípica.

Sim, é verdade que esta profissão não é frequente. Ainda mais para uma criança: tinha seis anos quando ouvi um órgão pela primeira vez, numa viagem de família a Itália. Entrámos na Catedral de Peruggia e estava um organista a tocar. E fiquei extasiado. A minha mãe aproximou-se do organista e perguntou-lhe se podia tocar Prelúdio e Fuga em Lá Menor, de Bach.

Mas o seu pai também tocava, certo?

Era um músico amador que me ajudou na minha primeira etapa, em criança, e sobretudo esteve ao meu lado, preocupado com os meus estudos. Comecei pelo piano, dos oito aos 12. Aí pude começar a estudar órgão no Conservatório de Valência, enquanto prosseguia os estudos de piano. 

Quando conseguiu tornar-se só organista?

Sabia que o meu instrumento era o órgão mas, enquanto estudante, não sabia se ia ser fácil ganhar assim a vida. Então, os meus pais disseram: “Bem, estuda também piano - que eu também gostava muito -, e o tempo logo dirá”. Quando terminei a formação em piano estava quase a terminar a formação de órgão e decidi ir viver para Barcelona para lá terminar os estudos.

Que idade tinha?

Vinte anos. Fui então para Barcelona e isso coincidiu com a etapa em que decidi apresentar-me a um concurso muito importante, o Concurso Nacional de Órgão das Juventudes Musicais de Espanha. Dediquei então quatro meses ao estudo intensivo do órgão, e não do piano. Ganhei o concurso e comecei logo com alguns concertos de órgão importantes que requeriam que eu estivesse já centrado nesse trabalho.

Tinha de ir às igrejas para praticar?

Sim, sempre. É difícil, porque o melhor sítio para estudar é na nossa casa, no silêncio que nos dão as quatro paredes. Estudar numa igreja é estudar praticamente num sítio aberto, onde há sempre ruído. Há pessoas, distrações, não é fácil. Acabamos por habituar-nos e aprender que estamos a trabalhar e que o que se passa ao nosso lado não importa. 

Quando começou a receber convites para tocar em órgãos históricos espalhados pelo mundo?

Foi uma coisa muito progressiva, na realidade. Creio que com 20 anos comecei logo mais seriamente a dar concertos.

Lembra-se de qual foi o primeiro?

Lembro: foi na Catedral de Barcelona e depois na de Santiago de Compostela. Antes, já tinha dado concertos em sítios mais pequenos, mas esses dois foram os primeiros grandes que tive. E a partir daí foram-me chamando. Às vezes perguntam-me: mas como é que as pessoas te conhecem? Não sei. Suponho que seja boca a boca, ou que falem bem de mim. Tenho muita sorte.

Imagino que hoje receba muitos convites. Aceita todos?

Gostaria de aceitá-los a todos mas, infelizmente, não consigo.

Qual é o seu critério? Por exemplo, porque veio tocar em Elvas?

O mais importante para mim é o instrumento. Os organistas têm a sorte de poder tocar instrumentos maravilhosos que são património. E o sonho de qualquer organista é encontrar aquele instrumento com que realmente se conecta. 

Conhecia a história deste órgão?

Quando me convidam para dar um concerto, o mais importante é ter acesso aos registos, às caraterísticas técnicas. A história de ter estado 30 anos num armazém, da ordem judicial, essas peripécias não conhecia. Não é importante para definir o repertório, apesar de o ser para valorizar o instrumento, para podermos dizer: “Depois de muitos problemas, o órgão está aqui”. 

De forma geral, os órgãos são similares?

Não, nunca. Se há um pianista a quem pedem um concerto em Elvas, basta enviar o programa. No caso do organista é muito diferente, porque a primeira coisa que fazemos é pedir para nos enviarem as caraterísticas técnicas, o número de tubos, os nomes dos registos, que são sempre diferentes. Um órgão português do séc. xviii não é a mesma coisa que um órgão francês do séc. xviii. E, portanto, o repertório é diferente. Num órgão português do séc. xviii podes tocar música espanhola dos séculos xviii, xvii e xvi, e vais aprendendo com essas características, com o tempo.

Interpreta músicas que remontam até ao séc. XVI. Também tem o trabalho de redescobrir essas pautas?

Felizmente há muita música dessas épocas que já está editada e impressa, que se encontra com facilidade. Nunca fui um rato de biblioteca e não tenho o fetiche de procurar obras perdidas. Não sou muito historiador nesse sentido, sou mais intérprete daquela música que realmente me chega ao coração. 

Qual foi a situação mais difícil - ou bizarra - que lhe aconteceu?

Tive uma que foi ao mesmo tempo divertida, difícil, curiosa e estranha. Em 2004 concorri a um concurso no Palau de la Musica, em Barcelona, que tem um órgão muito importante. Era um concurso de jovens músicos em que o júri estava misturado com o público. Há vários concertos distribuídos em vários dias e há dois músicos para cada concerto, cada um faz uma parte. Por exemplo, um violonista iria fazer a primeira parte do concerto, e eu seria segundo. Tinha preparado muito tempo essa segunda parte, que teria uma duração de 40 minutos, quando, na manhã do concerto, já pelo meio-dia, me ligam do Paulau a dizer que o violinista estava doente, que a lotação estava esgotada mas que um concerto de 40 minutos não seria o suficiente, pelo que queriam que tocasse também a primeira parte. Estava há três meses a estudar a segunda parte e queriam que, em três horas, tocasse o dobro do tempo! Disse-lhes que não tinha uma resposta mas que, se dentro de uma hora tivesse a sala disponível e se pudesse ensaiar até meia hora antes do concerto, lhes diria - mas só nessa altura. Revi o repertório que já tinha tocado, à procura do que poderia interessar, acabei por fazê--lo e, ainda por cima, funcionou: ganhei o concurso. Acabou por ser um desafio que me ajudou a perder o medo, a confiar em mim mesmo a nível profissional.

Que música ouve no seu dia-a-dia?

Para mim, cada tipo de música tem o seu espaço. Ouço muita música clássica, desde a mais antiga à mais contemporânea. Gosto muito de Wagner e de Mahler. Gosto muito do impressionismo francês, do romantismo alemão, coisas muito diferentes. Noutros momentos mais sociais, nas saídas com amigos, gosto de música pop e gosto da salsa para dançar.

E qual é o artista que ouve com um guilty pleasure?

(Pausa) Bem, tenho muitos, como a Shakira. E o Salvador Sobral emociona-me muito - não só o Salvador Sobral da Eurovisão, mas também outras coisas que tem feito. É um artista de que gosto e, como pessoa, também acho que é muito interessante. 

A ressurreição do Grande Oldovino

É uma espécie de Rolls Royce dos órgãos históricos portugueses, define José António Falcão, diretor-geral do Terras Sem Sombra. O chamado Grande Oldovino, o órgão da Igreja de Nossa Senhora da Assunção, data aproximadamente de 1777-1782. A sua história começa a desenhar-se pela mão do então bispo, D. Lourenço de Lencastre, que o encomendou ao “grande mestre organeiro italiano que estava estabelecido em Évora, D. Pascoal Caetano Oldovino”. “Custou uma pequena fortuna” - mais de 200 mil contos de réis, cerca de 1,5 milhões de euros. E a marca do bispo, um homem “muito orgulhoso dos seus feitos artísticos” e aparentado com a família real, é facilmente encontrada no órgão: o seu chapéu encima as armas da família Lencastre esculpidas na parte frontal. Em termos musicais, o Grande Oldovino tem outra caraterística interessante. “Construíamos órgãos para o repertório ibérico, os chamados órgãos ibéricos. Este tem a particularidade de conjugar o repertório ibérico com o internacional, juntando no fundo as duas tradições. Isto permite que o órgão tenha uma riqueza de sonoridade e de timbres verdadeiramente única - por exemplo, mete-se água e o órgão imita os sons de aves. Mas pode imitar também batalhas, usando uns tubos específicos para isso”, explica José António Falcão.

Saltemos para o séc. XX para assistir a uma “história rocambolesca”, nota a historiadora de arte Ana Cristina Pais, da Direção Regional de Cultura do Alentejo (DRCA). “No final dos anos 70, início dos anos 80 havia muitos órgãos com problemas em Portugal e a Direção Regional dos Edifícios e Monumentos Nacionais lançou uma campanha de restauro de órgãos históricos. Houve um processo, um concurso, mas eram muitos órgãos entregues apenas a uma entidade. Ficaram imensos órgãos por conservar e deram entrada vários processos em tribunal”, conta. O Grande Oldovino foi um dos órgãos que ficaram por restaurar e, durante anos, esteve não só degradado como desmantelado. “Aqui em Elvas, aliás, a única coisa que estava era só a caixa, que é a talha”. O organeiro que detinha o processo arrendou um armazém no Norte à espera que o caso se resolvesse. Só quando o tribunal obrigou ao despejo do dito armazém , no final de 2014, é que a DRCA pôde ir buscar as peças. “Houve algumas peças que desapareceram, mas o essencial estava lá”, recorda. O processo de restauro da “máquina” do órgão ficou a cargo da empresa de Pedro Guimarães, especialista na recuperação dos Oldovinos, e desde 2015 que voltou à sua casa-mãe, onde pode hoje ser visto e ouvido em todo o seu esplendor.

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