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Alterações climáticas acentuam desigualdade económica

Alterações climáticas acentuam desigualdade económica

AFP Beatriz Dias Coelho 29/04/2019 18:51

Investigadores da Universidade Stanford, na Califórnia, cruzaram as temperaturas e o PIB de vários países ao longo de 50 anos com projeções climáticas e concluíram que o aquecimento global tem favorecido os países mais ricos, enquanto empobrece os mais pobres. 

As consequências das alterações climáticas não são coisa do futuro e já se fazem sentir nos dias que correm. O ciclone Idai, que atingiu Moçambique, é um dos mais recentes fenómenos que demonstra essa realidade. Ao mesmo tempo, os cientistas já têm vindo a avisar que os fenómenos extremos trazidos pelas alterações climáticas vão fazer mais estragos nos países mais pobres. A explicação é simples: tendo menos infraestruturas e menos recursos económicos terão uma tarefa bem mais complicada do que os ricos para lidar com os problemas suscitados pelo agravamento do clima.

Contudo, se essa previsão dizia respeito ao futuro, parece que o futuro já chegou há algum tempo. Um estudo publicado na última semana na revista científica “Proceedings of the National Academy of Science” concluiu que o aquecimento global terá muito provavelmente - uma probabilidade de 90% - exacerbado a desigualdade económica global nos últimos 50 anos entre os países ricos e os países pobres. É certo que as desigualdades económicas entre uns e outros diminuíram nos últimos anos, mas teriam diminuído mais rapidamente sem o aquecimento global.

Noah S. Diffenbaugh (especialista em alterações climáticas) e Marshall Burke (economista), investigadores da Universidade Stanford, na Califórnia, serviram-se de investigações anteriores de Burke que analisaram temperaturas anuais a partir de 1961 e o Produto Interno Bruto (PIB) de 165 países, cruzando essa informação com modelos de projeções climáticas para comparar o desempenho de cada país em dias mais quentes e mais frios. A partir daí, estudaram o que seria um mundo sem aquecimento global e o mundo tal como ele é hoje.

A principal conclusão dá conta de que a desigualdade é aproximadamente 25% superior do que seria num planeta com temperaturas mais baixas, sem o aquecimento global provocado pela atividade humana. À revista norte-americana “Time”, Noah S. Diffenbaugh disse que o artigo “não defende que o aquecimento global criou a desigualdade”, mas “pôs um entrave no melhoramento” das diferenças.

Outra das conclusões do artigo sugere que os países mais prejudicados economicamente pelo aumento das temperaturas são os que tiveram menor responsabilidade no problema, enquanto alguns países ricos - que têm vindo a contribuir mais ativamente para as alterações climáticas - têm mesmo vindo a beneficiar de temperaturas mais altas. É o caso, de acordo com o artigo, da Islândia, cujos resultados económicos são hoje quase o dobro do que seriam sem o aumento das temperaturas. Mas a Finlândia, a Noruega ou o Canadá também ganharam com o aquecimento global: as estimativas dos investigadores apontam para um crescimento de um quarto a metade do PIB per capita à conta do aumento das temperaturas entre 1961 e 2010. “Em países mais frios como a Noruega, o aquecimento aproxima a média da temperatura do ideal empírico, resultando em benefícios económicos cumulativos”, lê-se no artigo.

Ao mesmo tempo, o PIB per capita da Índia foi 31% inferior em 2010 do que teria sido sem o aumento das temperaturas. “Os dados históricos mostram claramente que as culturas são mais produtivas, as pessoas são mais saudáveis e somos mais produtivos no trabalho quando as temperaturas não são nem muito quentes nem muito frias. Isso significa que em países frios um pouco de aquecimento pode ajudar. O contrário é verdadeiro em países que já são quentes”, disse Marshall Burke na apresentação da artigo. 

Entre 1961 e 2010, nos países mais pobres, o aquecimento global diminuiu a riqueza por pessoa entre 17% a 30%. Já as três maiores economias do mundo também sofreram um impacto negativo com o aumento da temperatura, mas os valores são pouco significativos: 0,2% nos Estados Unidos da América, 1,4% na China e 1,1% no Japão.

Mas os investigadores vão mais longe: dos 19 países com maiores emissões totais de CO2 entre 1961 e 2010, 14 beneficiaram em cerca de 13% do aquecimento global. Por outro lado, os 18 países com emissões de CO2 mais baixas por pessoa no total durante o mesmo período, verificaram um impacto negativo de 27%.

As previsões dão conta de que Portugal vai ser um dos países europeus que mais vai sofrer os efeitos das alterações climáticas - ao i, o especialista em alterações climáticas Filipe Duarte Santos já disse mesmo que o país “já está a sofrer” as consequências, apontando, por exemplo, a agricultura como um dos setores mais vulneráveis. E de acordo com os autores do estudo agora publicado, nos países nas latitudes médias, como Portugal, as alterações climáticas têm um impacto negativo na economia avaliado em 10%. 

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