16/6/19
 
 
Advogado de amigo de Sócrates também fazia de tradutor

Advogado de amigo de Sócrates também fazia de tradutor

Ouvido pelo juiz Ivo Rosa, Gonçalo Trindade Ferreira frisou que sempre agiu sob as ordens de Carlos Santos Silva.

A ignorância da língua francesa de Carlos Santos Silva, o homem que o Ministério Público (MP) suspeita ser o testa-de-ferro de José Sócrates, foi a justificação que Gonçalo Trindade Ferreira arranjou para o facto de ter acompanhado o empresário a Paris, quando Sócrates decidiu vender o luxuoso apartamento onde vivera. Este foi um dos argumentos que o advogado de Santos Silva e arguido na Operação Marquês encontrou, ao ser confrontado no debate instrutório pelo juiz Ivo Rosa, para contrapor algumas das teorias da acusação do Ministério Público.

Recorde-se que poucos dias antes das detenções realizadas no âmbito desta investigação, o trio constituído por José Sócrates, Carlos Santos Silva e o seu advogado deslocou-se a Paris com o objetivo de, por um lado, vender o apartamento na avenida Président Wilson, que o MP acredita ser pertença do ex-líder socialista, e por outro o de constituir um fundo imobiliário onde colocaria todos os imóveis que se encontravam em nome de Santos Silva. O projeto de ocultação do património, foi engendrado pelos arguidos ao longo do ano de 2014 quando estes já teriam conhecimento da investigação judicial e pretendiam retirar-se de cena com o intuito de a baralhar.

 Questionado pelo juiz Ivo Rosa sobre o porquê de ter viajado com o seu cliente até à capital francesa, Trindade Ferreira justificou o périplo com o facto de Santos Silva não saber falar francês. Ivo Rosa não ficou convencido com a resposta e quis saber se Trindade Ferreira também tinha estado presente no momento da compra, ao que o advogado respondeu negativamente. Então, como é que Santos Silva teria pulado a fronteira linguística na altura da aquisição do imóvel? Gonçalo Trindade Ferreira baralhou-se e tirou da cartola uma solução: Se calhar fora a agência imobiliária que resolvera as dificuldades. Ivo Rosa, olhou demoradamente para a documentação e exclamou: “Mas a agência como aqui está referido é francesa!”.

Santos Silva era um homem de negócios viajado, alguma outra língua ele haveria de falar. Aí o causídico meteu os pés entre as mãos: “Deve ter sido alguém da imobiliária quem traduziu as conversas.”

O e-mail que tramou Trindade Ferreira Outro ponto que mereceu a atenção do juiz foi a discrepância nas datas do contrato de arrendamento na casa de Paris. Como o SOL noticiou na altura, o MP suspeita que José Sócrates e Carlos Santos Silva, após terem conhecimento da investigação, celebraram um contrato de arrendamento fictício, com data falsificada, para dar convicção à tese de que seria Santos Silva o verdadeiro proprietário do imóvel. A ideia surgiu depois de o Correio da Manhã, antes da detenção, ter publicado uma notícia sobre os negócios imobiliários da mãe do antigo primeiro-ministro com o seu amigo.

 A Gonçalo Trindade Ferreira coube a tarefa de, em janeiro de 2014, forjar um documento, com a ajuda de um escritório parisiense de advogados peritos em direito fiscal, Gozlan & Parlanti Associés – o escritório francês terá dado a garantia ao advogado de Santos Silva de que o contrato de arrendamento seria feito com caráter retroativo. E assim foi. O documento que acabaria por ser  apanhado nas buscas realizadas no âmbito da investigação tinha início a 1 de janeiro de 2013 e fim a 30 de junho desse ano.

Mas um e-mail de Trindade Ferreira para Frank Gozlan, em fevereiro de 2014, acabou por desmascarar o estratagema: “Bom dia caro colega, infelizmente não tive a oportunidade de passar no seu escritório. Envio em anexo os documentos para o contrato de arrendamento. Falta apenas o nome do inquilino. O arrendamento terá início no dia 1 de janeiro de 2013 e o seu termo em 31 de julho de 2013, apartamento mobilado”.

Confrontado por Ivo Rosa com esta discrepância, o advogado disse que se limitou a cumprir ordens de Carlos Santos Silva.

Houve outra questão que o juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal não quis deixar passar: durante as buscas domiciliárias, em 2015, os investigadores descobriram 200 mil euros guardados num cofre em casa de Gonçalo Trindade Ferreira. A quem pertencia aquele dinheiro? 

O advogado garantiu que a maquia pertencia a Carlos Santos Silva. Ora não se entrega tanto capital nas mãos de outrem sem uma garantia, pensou alto o magistrado. O que Gonçalo Trindade tentou contrariar: era com base na confiança. O juiz seguiu a linha da lógica: E se o advogasse morresse? A pergunta caiu num imenso silêncio.
Recorde-se que Gonçalo Trindade Ferreira está acusado de três crimes de branqueamento de capitais e um de falsificação de documento.

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