18/6/19
 
 
Marta F. Reis 26/04/2019
Marta F. Reis
Sociedade

marta.reis@newsplex.pt

Era um carioca de limão

Coisas da Lisboa de 2019.

A dona Celeste queria um carioca de limão. Na zona de restauração do shopping em plena Avenida da Liberdade há vários balcões, mas achar o carioca é uma espécie de missão impossível. Logo no primeiro, a rapariga chama o colega: “Carioca de limão?” Não está a ver e, seja como for, não vem no menu.

Tudo bem, sigo para o do lado. O mesmo esgar de curiosidade. Bem sei que não é uma cafetaria, mas aponto a máquina de café e digo que é só água e uma raspa de limão, em chávena pequena. Também há cariocas de limão em chávena grande. Que pedido insólito, de qualquer forma. E não há cascas de limão. E limões?, ainda pergunto. Levo outras duas negas e começo a temer que tenhamos mesmo de mudar o pedido para algo mais moderno. É preciso ir ao outro lado, a uma cafetaria de marca nacional, para lá sair o carioca sem perguntas. Dois cariocas entretanto, fiquei nostálgica. É que em alternativa, pede a dona Celeste, era um carioca de café fraquinho – duvido que o tivessem tirado à primeira e não quis arriscar.

Não tem mal, cada casa tem a sua especialidade e ninguém é obrigado a saber tudo. Mas não deixa de ser curiosa esta Lisboa de 2019 onde a massificação e a franchização vão levando coisas que sempre demos por garantidas em qualquer casa que tivesse a porta aberta e um bocado de água quente. Pobre carioca de limão. O que vale é que, qualquer dia, alguém inventa o “conceito” e fica de novo na moda, como quando houve o revivalismo do mazagrã, do capilé e da groselha. Ou da limonada, que passou a vir cheia de verdes. Ou esta febre cíclica dos pastéis de nata – deviam era descobrir o bolo de arroz.

Sempre gostei do mazagrã feito com o café da cafeteira pela minha avó, não sei se era um clássico. E o carioca de limão era o café das crianças quando íamos à noite ao central da terra nas férias grandes. O café central também fechou e hoje vende chouriços e queijos da Serra aos turistas, ou, pelo menos, uns tempos assim foi, que agora o sítio da moda é uma chocolataria e esta Páscoa nem passei lá no largo. O certo é que a chocolataria está cheia.

Também houve a moda das chocolatarias – tive até a pancada de ter uma, coisas da adolescência inspiradas por aquele best-seller de Joanne Harris e por uma visita a Genebra. Cá não era a mesma coisa e agora, felizmente, há de tudo, de especialidades do outro lado do mundo a gelatarias daquelas que nos fazem salivar por Itália, dos bolinhos da Alcôa sem ter de ir a Alcobaça aos ovos moles de Aveiro.

Há uns anos que a vida portuguesa se tornou um conceito em si e já não são só as lojas da Catarina Portas, são outras do género espalhadas pelo país com os pratos mimosos, as andorinhas de loiça, os alfinetes-de-dama. Vamo-nos reinventando assim, recuperando o que podia ter desaparecido para sempre e que não tem bem razão de existir a não ser esse tal fio condutor da identidade coletiva. Dá-se uma corzinha e até parece que gostamos mais de nós. De repente, achar um simples carioca de limão dá o mesmo conforto.

 

Jornalista

Escreve à sexta-feira

 

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