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Cazaquistão. Com uma ajuda do homem acusado de querer matar Estaline

Cazaquistão. Com uma ajuda do homem acusado de querer matar Estaline

Afonso de Melo 25/04/2019 16:03

O Kairat (Poder) foi o único clube cazaque capaz de entrar (quase) no topo do futebol nos tempos da União Soviética.

É fácil encontrar especificidades nos vários países que surgiram após a dissolução da URSS, sobretudo na língua e na religião, mas impossível não esbarrar diariamente no que foi um trabalho contínuo e duradouro de sovietização que perdura até aos dias de hoje. Almaty pode ter o charme especial de uma cidade asiática, com as suas omnipresentes macieiras e os minaretes das suas mesquitas, mas não há maneira de esconder as cicatrizes de uma industrialização iniciada na década de 1940, quando ainda era Alma-Ata, o Pai das Maçãs, e se tornou um dos centros produtivos mais importantes do país, longe da frente de guerra.

Curiosamente, foi pouco antes disso, mais precisamente em 1936, que o futebol da União Soviética entrou num período revolucionário. Até então houve vários campeonatos soviéticos, mas disputados por seleções de cidades, cabendo aos clubes a participação em torneios regionais. Surgiu depois a ideia peregrina de criar uma competição nacional na qual só couberam sete clubes: quatro de Moscovo – Dínamo, Spartak, CDKA e Lokomotiv –; dois de Leninegrado – Dínamo e Krasnaya Zarya –; e o Dínamo de Kiev. A bizantinice chegou ao ponto de ser disputada numa única volta, cabendo três pontos à vitória, dois ao empate e um à derrota. O zero ficou guardado para as faltas de comparência, que eram frequentes. A fórmula não se mostrou convincente, nem outra coisa seria de esperar, pelo que outras experiências foram sendo feitas nos anos subsequentes, tantas que se tornaria fastidioso trazê-las a estas páginas, pese embora valer a pena ler o livro Football in Former Soviet Union Republics para se perceber como a mecânica do Estado revelava uma desastrosa incapacidade para estabelecer um programa organizativo que abarcasse o gigantismo do país.

Os cazaques nunca foram muito atraídos pelo futebol, embora ele exista no território desde 1913, por influência dos ingleses que se instalaram em Semipalatinsk no início da construção do caminho-de-ferro que ligaria o Turquestão à Sibéria. Esse desinteresse levou a que só em 1928 surgisse uma representação da república, uma seleção de operários cazaques que participou no Campeonato Nacional de Trabalhadores – com sucesso, aliás, já que conseguiram o segundo lugar final.

Longe do topo

Da reforma posta em marcha em 1936 surgiu o Campeonato da República Socialista Soviética Cazaque, dominado inicialmente por duas equipas de Almaty, o Sbornaya e o Dínamo, mas que nunca atingiram patamares de qualidade a nível nacional. O Dínamo, que seria uma potência no hóquei sobre o gelo, tirou proveito do exílio no Cazaquistão de uma das maiores figuras do desporto soviético, Nicolai Starostin, um dos fundadores do Spartak Moscovo, vítima da Grande Purga de 1930 sob a acusação de participação numa tentativa de assassinato do camarada Joseph Vissarionovich Stalin, o que lhe valeu uma tão dolorosa como inesquecível passagem pela Lubyanka, sede da polícia secreta do insaciável Beria.

Nem a sabedoria de Nicolai foi capaz de tirar os clubes cazaques dos baixios do futebol soviético e ele, que também tinha sido um hoquista de mérito na juventude, dedicou-se bem mais a essa modalidade durante a sua estada no Cazaquistão. Foi por isso necessário esperar pelo ano de 1960 para que o FCKairat fizesse, finalmente, história.

Fundado em 1954 com o nome de Lokomotiv Alma-Ata, mudou logo no ano seguinte para Urozhai, não esperando sequer mais 12 meses para se tornar definitivamente Kairat. Mas chegar até aí não foi fácil. Reuniões intensivas dos responsáveis pelo desporto cazaque debruçaram-se sobre dezenas de possibilidades: Yeginshi (Cultivador), Tulpar (Fénix), Onim (Colheita), Altyn Dan (Milho Dourado), Kuresshi (Lutador), Dala Burkiti (Águia das Estepes), Zhastar (Juventude). Ficou Kairat (Poder) e ficou o clube do poder. Por isso, quando a Federação Soviética de Futebol resolveu abrir a iDivisão a mais dez clubes do que os 12 que tinha, não havia quem pudesse contrariar essa vontade coletiva de eleger o Kairat como representante da república.

A grande aventura do Kairat, que ganhou a alcunha deClube da Nação, durou três anos. O estilo de jogo supinamente defensivo não lhe valeu elogios nem a simpatia dos espetadores em geral. A imprensa não tardou a batizá-lo como Kairat de Concreto, mas o clube aguentou estoicamente até onde pôde. E foi mais longe ainda: em 1963 atingiu as meias-finais da Taça da URSS. A eliminação frente ao Shaktar Stalino foi difícil de engolir pelos seus adeptos, mas mantém-se até hoje como a maior façanha do futebol do Cazaquistão na era soviética.

Após a independência, Almaty foi ficando cada vez mais na sombra da nova capital, Astana. O futebol não é exceção.

OAstana, nascido recentemente, em 2009, tornou-se o clube do regime e venceu os último cinco campeonatos consecutivos, aparecendo na Liga dos Campeões – uma realidade que, esta sim, se vai distanciando dos tempos da que foi União Soviética.

Afonso de Melo, em Almaty

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