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Sem greve, sobra espaço para desfrutar de Shakespeare

Sem greve, sobra espaço para desfrutar de Shakespeare

Bruno Venâncio 25/04/2019 15:29

O fantasma que pairou sobre o CCB desapareceu, para gáudio dos amantes da obra do dramaturgo inglês, que a poderão ver e ouvir até dia 28 no festival Dias da Música.

Suspensa a greve marcada pelos trabalhadores do Centro Cultural de Belém (CCB) para sábado e domingo, após ter sido firmado um acordo para uma negociação com o conselho de administração do recinto, abrem-se oficialmente as portas para a realização do festival Dias da Música. Ao todo, serão 50 concertos, para ouvir de manhã à noite, entre os dias 25 e 28, com um tema muito específico: William Shakespeare.

“Para Shakespeare, a música tinha um poder transformador único. É pois este poder que esperamos reavivar em mais uma edição dos Dias da Música em Belém. Desde obras inspiradas no dramaturgo, à música criada no seu tempo, este ano todos os caminhos vão dar a Shakespeare”, pode ler-se na apresentação do festival no site do CCB. Ao i, André Cunha Leal, o programador do evento, justifica a escolha. “Shakespeare, contemporâneo dos senhores que na corte do Duque de Mântua inventaram a ópera, tinha a noção do poder da música: as próprias peças têm indicações de cena precisas para pontos onde deveria entrar música”, ressalva, realçando a componente “verdadeira humana” de todas as personagens que compõem a obra do poeta, dramaturgo e ator inglês.

A linha de programação seguida por André Cunha Leal teve em conta a necessidade de apresentar “agrupamentos que fazem música do tempo de Shakespeare, como The Talis Scholars, a Academia Del Piacere ou Marco Beasley”, e por outro lado trazer obras inspiradas nas suas peças: “a chamada música de cena, como The Fairy Queen, interpretado pela soprano Ana Quintans e o agrupamento La Paix du Parnasse, ou provavelmente a mais conhecida Sonho de uma Noite de Verão, de Felix Mendelssohn – mais que não seja pela Marcha Nupcial”.

Aposta maior

No canto Ópera barroca – “excertos de óperas de Giuseppe Verdi, do Hamlet” –, sinfonias e poemas sinfónicos – “Romeu e Julieta do Hector Berlioz” – ou música de câmara – “como a Korngold, interpretada pela Schostakovich Ensemble, ou os dois pianos de Artur Pizarro e António Rosado” – são alguns dos pratos fortes de um cartaz que conta ainda com novidades como as encomendas a Alexandre Delgado, Tiago Derriça e Nuno Corte-Real. Mas também a aposta em renomados cantores portugueses, como Elisabete Matos, Paulo Ferreira, Luís Gomes, Susana Gaspar ou Ana Quintans.
“Este ano há mais canto porque Shakespeare é um homem da palavra. É um festival marcadamente mais de cantores e atores, como Pedro Penim e André Gago, entre outros, e que terminará com 16 solistas portugueses a interpretar uma obra de Ralph Vaughan Williams tendo como base o Mercador de Veneza. É uma maneira perfeita de terminar: o texto da crença de Shakespeare de que a música tem o poder de transformar o homem, transformar as almas. Revela a sua obsessão com a música”, frisa André Cunha Leal, lembrando que este ano o festival integrou ainda outra novidade: começou no Porto, no dia 18, e passou ainda por Coimbra antes de chegar a Lisboa.

“Conseguimos dar uma dimensão muito mais nacional, com músicos de todo o país. Queremos chegar mais longe, não queremos que as coisas nasçam e morram no CCB”, salienta, manifestando algum alívio pelo fim do diferendo que pôs em risco a realização do evento: “Foi uma preocupação. Os Dias da Música são uma das marcas principais do CCB, acolhem várias centenas de artistas e milhares de pessoas e seria um grande abalo na credibilidade da instituição e dos artistas. Mas este é um problema político muito profundo, que urge resolver e que tem a ver com o que nós, sociedade no seu todo, queremos da cultura: é preciso perceber que oferecer um serviço de qualidade custa dinheiro! O orçamento da antiga Festa da Música rondava meio milhão de euros; neste momento, nem a um terço disso chega. E para fazer uma coisa que pretende assemelhar-se, com o objetivo de reconquistar a posição que o CCB já teve a nível internacional. E a cultura gera riqueza, multiplica o investimento”, sentencia.

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