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A marca portuguesa da Kraft-Heinz

A marca portuguesa da Kraft-Heinz

Beatriz Dias Coelho 24/04/2019 23:15

Miguel Patrício é o nome escolhido pelo império Kraft-Heinz para salvar o grupo dos maus resultados registados ultimamente. Mas o homem do marketing não é o primeiro português a ficar para a história do grupo.

A notícia tem feito correr muita tinta nos últimos dias: a partir de 1 de julho, o novo CEO do grupo Kraft-Heinz, uma das maiores empresas do setor da alimentação, será o português Miguel Patrício. O nome pode não dizer muito a quem não está por dentro do setor, mas o currículo do ainda responsável máximo do marketing da InBev, uma das rainhas do setor da cerveja – que detém a Corona Extra ou a Budweiser, por exemplo –, fala por si e justifica a missão pela qual foi contratado: pôr à superfície o grupo que apresentou prejuízos de 10,3 mil milhões de dólares (9,1 mil milhões de euros) em 2018.

Nasceu em Lisboa, em 1966, mas foi no Brasil que fez a formação académica. Porquê? É o próprio que o conta: “Nasci em Lisboa, em 1966, os meus pais são da Beira Baixa e, na época do famoso 25 de Abril, foram para o Brasil.

Regressaram depois, mas eu já estava na faculdade e acabei por não voltar”, disse ao Observador. Ficou então em São Paulo, a terminar a licenciatura em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas, enquanto os pais, oriundos de Mação, regressaram para a Beira Baixa.

A decisão parece ter sido certeira: à faculdade seguiu-se um percurso internacional, que nunca passou por Portugal. Começou na Johnson & Johnson no Brasil, EUA e América Central, passou para a Coca-Cola em Atlanta e, antes de regressar ao Brasil, esteve ainda na Philip Morris. De volta a terras de Vera Cruz, integrou a Brahma – atual InBev –, onde ocupou vários cargos ao longo de 20 anos, como se lê num comunicado divulgado na página da Kraft-Heinz.

Durante esse tempo, trabalhou inserido numa cultura tão diferente da ocidental como a chinesa – viveu na China durante cinco anos e elege essa como a melhor altura da sua vida profissional e pessoal. Passou, ainda, pela Bélgica e pelo Canadá. Hoje, aos 52 anos, é o responsável máximo do marketing da InBev e está a pouco mais de três meses de substituir o atual CEO da Kraft-Heinz, o brasileiro Bernardo Hees, mas o anúncio da sua escolha para o cargo já motivou reações: as ações valorizaram um máximo de 2,5%.

O homem por trás do profissional

Miguel Patrício tem um percurso invejável, mas quem é o homem por trás do profissional? Patrício deu algumas pistas ao Observador. Apesar do sangue português que lhe corre nas veias, fala português do Brasil e vive em Nova Iorque. Descreve-se, contudo, como “cada vez mais português” e diz-se um apaixonado pelo seu país de origem, do qual não esquece a música nem o Benfica. “Cada dia sou mais português.

Amo a música portuguesa, adoro perceves, acompanho o Benfica todos os dias, sou fã do João Félix que acho que é um jogador incrível, o melhor jogador do mundo”, afirmou ao mesmo jornal digital. Casado com uma panamiana, tem três filhas – duas nascidas no Brasil e outra no Canadá.

Nas entrelinhas, dá ideia de que vem recorrentemente a Portugal: não só tem uma casa na Beira Baixa, como está a construir outra em Caxias. E tece um rol de elogios ao país: “Cada dia sou mais fã de Portugal, eu amo o país, adoro a evolução que tem tido, um país que está na moda. Lisboa cada vez mais bonita”. Além disso, cá tem também a irmã e todos os tios e primos. Não fala do pai, mas sobre a mãe diz que morreu há já quatro anos. E por cá, continua a ter um amigo que é cara conhecida na praça pública: o juiz Carlos Alexandre, cujo nome é indissociável de diversos casos que marcaram a justiça portuguesa – do Monte Branco, ao Face Oculta, ao BPN, culminando na Operação Marquês. “Os meus pais eram de Mação. Quando eu era miúdo, tinha um clube com alguns amigos de Mação que era o ‘clube dos sete’. E o meu companheiro-mor chamava-se Carlos Alexandre! O mesmo que é hoje célebre em Portugal. Os dois, meninos em Portugal, a brincar às escondidas e à apanhada, no ‘clube dos sete’. Eu tratava-o por Carlitos”, recorda ao Observador.

A kraft-heinz e o sangue português 
Miguel Patrício pode estar, agora, a fazer história, mas há muito que o rótulo Heinz tem ADN português. Desde 1966, mais precisamente, ano em que Maria Teresa Thierstein Simões-Ferreira se casou com John Heinz III, o herdeiro do grupo H. J. Heinz Company. Ganhou o apelido Heinz, e passou a ser conhecida como Teresa Heinz.

Nascida em Maputo, na antiga colónia portuguesa de Moçambique, Teresa Heinz, que completou 80 anos em 2018, tinha pai português e mãe com ascendência alemã. Aos 18 anos, decidiu-se a ir para outras paragens: em específico, para a Universidade de Witwatersrand, em Joanesburgo, onde estudou línguas.

Mas quis ir mais longe e daí partiu para a Suíça, para estudar tradução em Genebra. O percurso valeu-lhe uma posição na ONU, em 1963, o que a obrigou a mudar-se para Nova Iorque. Foi lá que conheceu o homem que viria a ser o pai dos seus três filhos e acabou por deixar-lhe o império Heinz: Henry John Heinz III. Desde cedo assumiu o papel de filantropa, pelo qual ainda hoje é reconhecida. Entre as suas causas favoritas, estão a saúde e o ambiente.

Henry John Heinz III viria a morrer em 1991, num acidente de avião. No ano seguinte, Teresa Heinz conheceu aquele que viria a ser o seu segundo marido: John Forbes Kerry, secretário de Estado dos Estados Unidos da América entre 2013-2017 e candidato a Presidente da República nas eleições de 2004, nas quais foi derrotado por George W. Bush.

Coincidência ou não, Teresa Heinz Kerry e o português recém-chegado à Kraft-Heinz partilham uma característica: não esquecem as origens e a herança portuguesa. Teresa Heinz Kerry continua a falar português fluentemente – foi uma das línguas que falou em 2004, num discurso na cerimónia de designação do marido como candidato presidencial do Partido Democrata. “O meu pai, um homem maravilhoso que foi médico 43 anos, e que me ensinou a perceber a doença e a pobreza, só teve direito a votar pela primeira vez aos 71 anos”, recordou durante a convenção do partido, para enfatizar a importância da democracia.

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