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Memorial presta homenagem aos presos e perseguidos da Ditadura

Memorial presta homenagem aos presos e perseguidos da Ditadura

Mariana Madrinha 25/04/2019 10:43

O número impressiona: são quase 30 mil. 30 mil nomes os que constam do ‘Memorial Aos Presos e Perseguidos Políticos’, hoje inaugurado na estação de metro da Baixa-Chiado, a uma distância praticamente equidistante de dois pontos quentes da história da Ditadura: a sede da PIDE na António Maria Cardoso, palco de torturas, e o quartel do largo do Carmo, ponto de partida da Liberdade. A iniciativa partiu de um grupo de cidadãos.

Aarão Agnelo de Oliveira. Data da primeira prisão: 26 de Maio de 1937. Aarne Olavi Aalto. Data aproximada da primeira prisão: 1935/1936. Aba Haikevitch. Data da primeira prisão: 16 de julho de 1936. Abatino da Luz Rocha. Data aproximada da primeira prisão: 1933/1934. São estes os primeiros quatro nomes de uma lista de 29.500 presos políticos do Estado Novo e que fazem também parte do Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos, hoje inaugurado na estação de metro da Baixa-Chiado, em Lisboa. 

Há muitos mais, que não estão contabilizados nos registos da PIDE, que só começaram a contar a partir de 1933. Alguns nomes estarão provavelmente repetidos, outros foram perdidos, pelo que urge fazer uma investigação ampla sobre o tema. O primeiro passo é hoje dado por um grupo de cidadãos que se uniu para dar vida a uma ideia que, para lá de prestar homenagem, encapsula a memória da luta contra o regime. 

“Uma das coisas bonitas deste memorial é que saiu de homens e mulheres de diferentes colorações políticas”, conta Alfredo Caldeira, 73 anos, jurista e um dos mentores do projeto. “Mas a ideia partiu de um conjunto de cidadãos preocupados com a ausência de memória e que entenderam então prestar esta homenagem”.

O esboço do Memorial que hoje se destapa começou a desenhar-se no ano passado, logo em julho, e em outubro a comissão organizadora – Alfredo Caldeira, Artur Pinto, Diana Andringa, Gaspar Barreira, Helena Pato, Joana Lopes, João Esteves, Luís Farinha, Margarida Tengarrinha, Pedro Adão e Silva, Rita Veloso e Sara Amâncio – sentou-se para a primeira reunião com a Câmara de Lisboa que acolheu logo de início a ideia. Em janeiro, a proposta foi oficialmente entregue e imediatamente aceite. 

Veio então a questão: onde instalar semelhante projeto? Pôs-se a hipótese da estação da Baixa-Chiado, sugestão acolhida pelo Metropolitano de Lisboa, e que também pareceu bem à comissão organizadora, diz Helena Pato, 80 anos, antiga professora e que tem passado os últimos anos a escrever e falar sobre a luta pela Liberdade. “A estação está a uma distância equidistante tanto da sede da PIDE, na António Maria Cardoso, do largo do Carmo, onde Marcello Caetano foi capturado e também de outro local que não se fala tanto, a rua da Misericórdia, onde estava instalada a sede da censura”.

E para um projeto que quer cumprir o “dever da memória”, a localização tem ainda outro bónus: ficará patente num lugar onde passam milhares de pessoas por dia. “Não queremos que o memorial tenha uma visão passadista, mas não há futuro sem memória”, diz Alfredo. “Não podemos construir o nosso futuro a esquecer o que se passou, tanto de bom como de mau. Temos que encarar a História como foi. E a memória não tem que ser um tabu, mas também não é propriedade de ninguém”, ressalva. Já Helena Pato afirma que a instalação deste memorial só peca por tardia. “Estávamos cansados de não ver ser feita justiça”.

Memória para o futuro

O memorial ‘físico’ vem acompanhado de uma completa página da internet que ficará online. Na página – memorial2019.org. – pode ser encontrada a lista completa de mulheres e homens presos durante o Estado Novo, assim como os que perderam a vida durante os períodos de cárcere. Na página, podemos consultar ainda uma série de biografias em destaque (como mostra o exemplo na coluna ao lado). É este o melhor método para pesquisar os nomes, nota Alfredo, uma vez que no memorial, por razões óbvias, são de muito difícil leitura – mas estão todos lá. E simbolicamente estará também um poema de Sophia, depois de a família da escritora o ter consentido. Afinal, são delas as palavras feitas portas abertas que lembram aquele “dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio”.

O Memorial aos Presos e Perseguidos Políticos ficará patente na Baixa/Chiado durante um ano, tempo em que a comissão organizadora espera que se abra caminho para “uma coisa mais consistente”, diz Alfredo. Seja uma “investigação” ou até, quem sabe, um projeto de estatuária”. 

Durante a conversa com o i, tanto Alfredo como Helena afastam no seu discurso a sua própria história. “Sim, estive preso duas vezes, mas isto não é sobre mim como indivíduo”, sublinha Alfredo, contando que na comissão organizadora há gente com todo o tipo de experiência e diferentes idades. O mote, continua a realçar, é prestar homenagem aos milhares de homens e mulheres que se bateram pela liberdade, em Portugal e nas ex-colónias. “Durante 48 anos, só em Portugal, foram presas duas pessoas por dia!”, sublinha. Mas espetro evocado nesta memorial vai para lá das vidas ali inscritas, lembra. “Quantas famílias não foram prejudicadas e atingidas pela miséria, expulsas da função pública, que ficaram no desemprego?”. 

E Helena Pato deixa uma certeza: 45 anos depois, a “PIDE desapareceu mas não há um único resistente antifascista que não se lembre”. Também em nota de rodapé, a antiga professora, que esteve presa na sede da PIDE durante seis meses, ainda não tinha trinta anos – “tortura do sono, espancamento” – deixa uma confidência pessoal. “Sabe, sempre que passo na António Maria Cardoso o meu coração treme”.

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