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No largo do Carmo, já ninguém é daquele tempo

No largo do Carmo, já ninguém é daquele tempo

Mafalda Gomes Jornal i 25/04/2019 10:01

Passam 45 anos, não resta um lojista para contar a história num largo que passou a ser sobretudo dos turistas. 

O Quartel do Carmo está aberto ao público até dia 19 de maio. No largo, como noutras zonas da cidade, as fotografias de Alfredo Cunha evocam a revolução. Entre elas, a imagem icónica de Salgueiro Maia, um momento registado às 15h15 do dia 25 de abril de 1974. À volta, é difícil encontrar quem tenha memórias da data e do ambiente que se viveu ali. São mais os turistas do que os locais e embora algumas das lojas já existissem, os mais velhos já partiram.

O cerco ao quartel da GNR começou pelas 12h30 e pelas 17h45 chegava ao largo António de Spínola, para receber a rendição de Marcello Caetano. Era o fim do regime. Nem na loja de música, nem no bazar, nem nas duas sapatarias do largo há quem seja capaz de recordar a história. Há ainda um restaurante de comida internacional e outro especializado em peixe, mais recente. Do outro lado, a leitaria Académica, uma casa fundada em 1787, exibe a data na parede, mas a memória dos atuais gerentes do café não recua tão longe. O mesmo na clínica veterinária paredes meias, a mais antiga de Lisboa. “Tinha onze anos, lembro-me que nesse dia não houve escola”, diz-nos um dos atuais profissionais de serviço.  

Os turistas aproveitam a aberta entre os aguaceiros de abril para descansar ao sol. Um casal francês olha para as fotografias de Alfredo Cunha e parece conhecer a história da revolução dos cravos. “Carnation Revolution”, dizem. Não sabiam que tinha passado por ali. “O que é que aconteceu a Salazar?”, perguntam. Já tinha morrido.
Duas primas argentinas, sentadas num banco, também não faziam ideia. Esperam os maridos que foram visitar o museu arqueológico do Carmo, acabadas de chegar do Porto numa viagem pela Europa que caminha para um mês. De Lisboa vão ainda a Madrid e depois regressam a Buenos Aires. 

Pela luz e monumentos, acreditam que vão gostar mais da capital, mas os 65 anos já pesam nas pernas e é preciso descansar um pouco antes de se aventurarem pelas colinas de Lisboa. Não conhecem a história da revolução portuguesa, mas viveram a sua. “Desapareceram muitos jovens, é a nossa geração da juventude perdida. Ditadura nunca mais”, diz Cristina, ao lado da prima, com o mesmo nome. Não poder sair à rua livremente e ter cuidado com o que se dizia são memórias que vão ficando para trás no tempo, mas que fizeram questão de passar aos filhos e esperam passar aos netos, ainda pequenos. “Não sei se a juventude está tão interessada na história, mas foi algo terrível que não se pode esquecer”. E apesar do mundo em mudança, não acreditam que a sombra volte. 

Há o barulho de obras, a confusão dos carros, o cenário que se tornou habitual na Baixa de Lisboa. Era o dono do restaurante Floresta do Carmo que costumava falar nestas alturas, apontam alguns lojistas. O espaço está esburacado. O restaurante fechou no ano passado. A lona que cobre a fachada do prédio dá sinais de mudança: novos apartamentos Carmo 10. O largo já não é o mesmo de Abril.

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