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Semipalatinsk. Uma nuvem atómica cobriu o azul-céu de um jogo novo

Semipalatinsk. Uma nuvem atómica cobriu o azul-céu de um jogo novo

DR Afonso de Melo 24/04/2019 20:53

Em 1913, havia em Semey quinze clubes de futebol e um nunca mais acabar de ingleses. E o poeta Auezov que jogava no orgulhoso Yarysh.

ALMATY - Semey. Ou Semipalatinsk. O nome faz dobrar os sinos e nós sabemos, como Hemingway, por quem dobram os sinos. Fica para norte, mil quilómetros para norte de Almaty, na Sibéria por onde passei e teimarei em voltar. Sibéria cazaque, agora que o grande país dos sovietes se desfez por cissiparidade, destino infalível dos impérios coloniais continentais.

Dostoyevsky foi para Semipalatinsk exilado, obrigado a ter como leitura única o Novo Testamento. E escreveu: “Estávamos empilhados como arenques dentro de um barril. Do nascer ao pôr do sol não havia forma de não nos comportarmos como porcos”. Mas não, não é por Fyodor que os sinos dobram. É pelos  homens e mulheres que morreram de cancro ou de deficiências cardiovasculares e pelas crianças que nasceram vítimas de mutações e defeitos provocados pelos 456 testes nucleares levados a cabo no Polígono pelo exército da URSS a sul do vale do rio Irtish entre 1949 e 1989.

Polígono tornou-se sinónimo de devastação. Kurchatov, a zona que ganhou o nome do pai da bomba atómica russa, deixou Semey com a maldição tremenda das cidades inabitáveis. E, apesar de tudo, os sinos não se limitam a dobrar. Também tocaram, em tempos, a repique sobre um jogo novo que surgira pelas mãos de um comerciante viajado, chamado Nicolai Kupriyanov que surgira na cidade trazendo consigo, de Inglaterra, nada menos do que quinze bolas de futebol. O repique imagino-o eu, claro está, até porque os ortodoxos não são dados por aí além aos excessos típicos dos carrilhões. Mas o entusiasmo foi subitâneo e autêntico.

Um lugar à parte. Passou-se o episódio em 1913, com a I Grande Guerra a decorrer. No resto da Rússia ninguém ligava peva ao agressivo desporto bretão. Mas Semey era um lugar à parte. Explico já porquê e, pelo caminho, acrescento que isto faz tanto parte da história da dimensão universal do futebol como a televisão nos dias de hoje. O czar Nicolau foi um daqueles políticos com o mínimo de visão estratégica para perceber que um país daquele tamanho não era percorrível por estradas, ainda por cima sujeitas aos ditames de variações atmosféricas de apavorar hipopótamos. Apostou, e muito, nos caminhos de ferro. Ah! E quem entende mais da engenharia ferroviária do que os ingleses, não me dirão? 

Assim foi. Os ingleses começaram a desembarcar em Semipalatinsk em quantidade suficiente para se organizarem, como é seu gosto e hábito, em clubes, sejam eles do que forem. Zona de influência budista, com um mosteiro de sete edifícios vistosos - Semipalatinsk significa, em russo, Cidade das Sete Partes - passou a ser também um local fundamental da linha férrea que ligava o Turquestão à Sibéria. Conta-se em forma de lenda, e nem os séculos desmentem as lendas, que nesse ano que já falámos de 1913, havia em Semey tantos clubes como bolas de futebol: quinze. De entre eles, destacavam-se o SSK Olimp, o Lastoschka, o Orlyata e o Yarish.

Este Yarysh, composto fundamentalmente por estudantes e empregados de pequenas empresas locais, ficaria para a história como a primeira formação composta por cazaques a defrontar uma equipa estrangeira. Ainda que o melhor que se pôde arranjar como adversário estrangeiro tenha sido um grupo de famélicos prisioneiro checos recolhidos aqui e ali nos campos de detenção dos arredores.

Semey foi o berço do futebol no Cazaquistão mas está, agora, reduzida a um lugar absolutamente secundário. O Spartak, que teve alguns momentos de glória na segunda metade da década de 1990, com vitórias no campeonato cazaque, ainda sob o nome de Yelimay, arrasta-se pela II Divisão do país, tal e qual como acontece com o seu rival FC Altay.

Restos de uma antiga opulência. Já não há mais palavras como as do poeta e dramaturgo Mukhtar Auezov, ele que foi jogador do Yarish e autor do livro Abai Zholy (O Caminho de Abai). Uma mistura de tristeza e alegria, de tragédia e de fortuna. Dizem que foi um jogador de extraordinárias capacidades. Mas, quem pode testemunhar as suas façanhas se não o que nos resta de escritos da época? Não se perdeu em campo. Levou o seu talento pelo relvado da literatura, driblando as letras e deixando, atrás de si, o rasto de mais uma história que faz deste país um lugar fascinante.

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