17/8/19
 
 
Eduardo Oliveira e Silva 24/04/2019
Eduardo Oliveira e Silva

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25 de Abril: ficámos aquém do expectável no Desenvolvimento

No “D” de desenvolvimento Portugal não conseguiu atingir o nível desejável e o país não correspondeu aos apoios recebidos da Europa.

1. Quem tem hoje cinquenta anos, tinha apenas cinco no 25 de Abril de 74. Sendo hoje adultos maduros, esses portugueses sabem bem que não vivem num oásis e não comparam com o que existia antes da revolução. Olhar para o tempo nessa perspetiva, dá uma visão diferente daquilo que é induzido pelos discursos formais que dão por certo que o três “D” de democratizar, descolonizar e desenvolver foram plenamente cumpridos.

Com a revolução, Portugal libertou-se de uma ditadura, encetou uma descolonização difícil e já fora do seu tempo histórico, iniciou uma caminhada turbulenta rumo a uma democracia europeia que está hoje estabilizada depois de excessos revolucionários extremistas que deixaram cicatrizes que o tempo praticamente apagou. No “D” de democratização o objetivo do 25 de Abril está genericamente cumprido. Temos uma democracia plena, experimentando até nesta fase da geringonça um governo absolutamente inédito do ponto de vista europeu. Goste-se ou não da coligação e de outros governos que tivemos desde a estabilização política, há que reconhecer que a democracia se impôs em Portugal de forma permanente, ainda que tenha imperfeições que são mais resultantes das práticas do que da sua arquitetura teórica. E importa sublinhar que não tem havido margem para partidos populistas de direita, enquanto o de esquerda, o Bloco, já está domesticado pelo PS.

No campo do “D” de descolonização fizemos o possível. Por muito traumatizante que tenha sido esse período para muitos compatriotas nossos que viviam no chamado ultramar e por muito violentos que tenham sido os conflitos que emergiram nas antigas colónias, importa reconhecer que, no tempo histórico em que ocorreu, o movimento dos capitães já não era possível fazer muito diferente. A descolonização aconteceu no mínimo com dez anos de atraso e isso tornou tudo muito mais difícil para os portugueses e os povos dos novos países. As causas e as culpas estão evidentemente no chamado Estado Novo, de Salazar e Marcelo.

Foi, objetivamente, no “D” de desenvolvimento que ficámos muito aquém do mínimo desejável. O discurso do regime tende a comparar uma realidade de hoje com a de há 45 anos e tem de se concluir que a diferença é abissal. Mas substancialmente o progresso deveria ter sido muito maior. Coletivamente, os portugueses todos não souberam construir um país verdadeiramente moderno, mais justo, mais equilibrado, mais europeu e mais equitativo. Éramos a Europa pobre e fora do tempo há 45 anos. Hoje, estamos na modernidade e numa União Europeia globalmente rica, mas somos os últimos. Somos o que menos cresce. Somos dos que tem mais injustiças e diferenças internas, entre ricos e uma classe média paupérrima. Somos dos que menos riqueza produz. Somos dos que mais riscos correm em termos ambientais. Somos dos que mais dependemos da conjuntura internacional para sobreviver. Somos dos menos industrializados. Somos dos que menos utilizam e defendem os seus recursos, como é o caso do mar com o seu gigantesco potencial marinho e as suas riquezas geológicas. Não soubemos traçar um rumo coletivo. Andámos ao sabor da governação de cada instante e perdemos oportunidades sistemáticas na utilização dos fundos de coesão. Fizemos autoestradas a mais e caminhos de ferro a menos. Fizemos pavilhões em cada terrinha em vez de transportes de uma para as outras. Entrámos em euforias de pato bravo e não ordenámos o território. Construímos um setor bancário e financeiro baseado na especulação e hoje não temos um banco privado português, ou melhor temos o Montepio que está a finar-se sem que ninguém intervenha. Isto enquanto pagamos milhões e milhões de prejuízos pela gestão incompetente da Caixa Geral. Invocamos como glória o Serviço Nacional de Saúde, mas a verdade é que noutros países, com soluções iguais ou diferentes, as populações são mais bem servidas. A vida de quem trabalha foi-se tornando sistematicamente mais difícil por ausência de uma segurança social eficaz, de impostos medonhos e de um sistema que, nos anos 80/90, chegou a mandar gente com menos de 50 anos para a reforma com salários completos depois de apenas 30 anos de trabalho. E logo por quem hoje admite que se tenha de trabalhar até aos 80 anos. Por três vezes foram ajudas externas que nos salvaram e pelo andar da carruagem ninguém pode garantir que essa situação não volte a repetir-se. E isso é preocupante e triste.

2. Além de considerações sobre o peso de um novo sindicalismo inorgânico e individualista que hoje se desenvolve (como no caso dos estivadores, da Autoeuropa, dos enfermeiros, e anteriormente dos maquinistas da CP, dos pilotos e controladores aéreos), a greve dos camionistas de transpores de combustíveis e materiais perigosos, demonstrou uma alarmante realidade. Tornou claro que os governantes, certos políticos, os jornalistas e os comentadores (entre os quais o signatário) estão bastante desfasados da realidade da economia. É que se assim não fosse, alguém teria antecipadamente percebido as consequências devastadoras e o efeito de carambola que inevitavelmente ia ter uma paralisação anunciada com larga antecedência. Mas para isso era preciso ter a noção concreta do peso da logística nos dias de hoje. Era preciso ter presente que ninguém quer ter stocks e armazéns cheios. A economia atual está baseada na rapidez de circulação de tudo e mais alguma coisa, começando na mobilidade humana. Entre nós, não havia essa noção política e social. Os efeitos da greve vão-se diluindo. Ficou um aviso muito forte. É bom que de agora em diante haja planos de contingência para os setores mais sensíveis. Era bom, mas é pouco provável…

 

Escreve à quarta-feira

 

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