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23 de abril de 1952. O escândalo da cuspidela no país asseado

23 de abril de 1952. O escândalo da cuspidela no país asseado

DR Afonso de Melo 23/04/2019 21:04

Dercy Gonçalves, atriz brasileira, pegou fogo aos jornais portugueses por causa de uma cena em que a sua personagem tinha de cuspir.

Rebola a Bola estava em cena no Teatro Maria Vitória. Dercy Gonçalves viera do Brasil para ser a protagonista e, desde logo, o povoléu esfregou as mãos de contente porque a moçoila era dada ao disparate pegado e a cenas de faca e alguidar com muito palavrão à mistura. Não tardaria a dar por bem empregada a espera.

Pelo rondar do meio-dia, o n.o 29 da Praça da Alegria, em Lisboa, já apresentava um movimento inusitado. Ninguém se atrevera a bater mais cedo à porta da casa em que Dercy se instalara, não fosse a sua língua afiada passar para além das linhas da desfaçatez. Mas, na noite anterior, o espetáculo correra francamente mal para a brasileira. A crítica não a poupara, sobretudo porque, num momento surpreendente, o papel que interpretava a obrigava a cuspir em palco, algo que não caiu no goto do público nem dos jornalistas presentes. “Ora, não entendo”, justificava-se Dercy. “Faço caricaturas populares, neste caso o de uma mulher sem maneiras. Lá no Brasil visto-me com roupas baratas, mas aqui em Lisboa até utilizei um traje elegante. Agora, quando fiz o gesto de cuspir foi o diabo!”

Não, não foi por causa da plateia. Foi por causa dos jornais. Não lhe deixaram passar em claro a cuspidela. Que era uma falta de respeito, uma desonra, uma vergonha para o teatro português no seu geral e para o país em particular. Chico Buarque podia ter cantado: “E é por isso que a cidade/ Vive sempre a repetir/ Joga pedra na Geni/ Joga pedra na Geni/ Ela é feita pra apanhar/ Ela é boa de cuspir”. Bastava trocar Geni por Dercy. E rimava na mesma.

Dercy não era brasileira de levar desaforo para casa. Decidiu: “Volto para o Brasil! E já! Não estou para aturar mais esses caras de pau”.

Acabou por ficar. Na noite seguinte, o público aplaudiu-a mais do que nunca e, por entre lágrimas, ela mudou de ideias. “Foi lindo! Havia quem chorasse na sala e nos corredores. Encheram--me o camarim. Abraçaram-me amigos e desconhecidos. Até veio um representante da censura declarar que não tinha nada para me recriminar”.

Cuspir mais é que não!

“Bem sei que Portugal é um país asseado e que é proibido cuspir! No segundo dia da revista, não cuspi. Engoli a saliva. Mas sacrifiquei a rubrica. E esta peça é de um autor com grande prestígio no Brasil, Luís Peixoto”.

A cuspidela fez correr tinta.

Defendeu-se publicamente a necessidade de evitar um momento degradante para o público. Os movimentos cénicos estavam obrigados a regras. Não se esbanjava saliva por dá cá aquela palha à frente de umas dezenas largas de pessoas de bem só porque a Dona Dercy Gonçalves, vinda ao mundo em Santa Maria Madalena, no dia 23 de junho de 1907, teimava em libertar os líquidos glandulares.

“Fiquei magoada com esse artigo. Mesmo muito. O fígado ressentiu-se e tive uma crise. Anunciei publicamente a minha retirada para o Brasil. É preciso que as pessoas saibam que vim graciosamente, que paguei as viagens e que sou paga à percentagem nos espetáculos”.

Foi com alegria que declarou que, afinal, já não partia. E que já não cuspia.

“Olhem! Eu pago a multa por ter cuspido. Vamos lá esquecer essa coisa tola. Pago a multa e fica resolvido. A partir de agora engulo o cuspo que tiver na boca. Venha de lá, grande país da minha língua, da minha alma, do meu sangue, da minha ternura, esse abraço amigo e generoso! Ficarei! Pronto. Não há mais discussões. Não vê? Há sol na minha janela. Já não choro”.

Bem, lá chorar até podia. Ninguém a levava presa por isso. Mas Dercy Gonçalves era mais de risos. E de escândalos igualmente. Não como este da cuspidela, que não passou de uma brincadeira atoleimada da censura. De outros bem mais pesados. Ficariam para nova oportunidade.

 

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