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No dia mundial do Livro, deixemo-nos de tretas e falemos no cheiro a queimado

No dia mundial do Livro, deixemo-nos de tretas e falemos no cheiro a queimado

João Oliveira Duarte 23/04/2019 19:20

Quando hoje se celebra o dia internacional do livro, com toda a pompa e circunstância possível, é preciso ter em conta que este pequeno objecto, traz consigo toda uma história que não se resume a uma ideia de progresso, mas contém o cheiro a queimado, a cinza, o esquecimento e o desaparecimento.

A 28 de Março de 1941, o Frankfurter Zeitung dava conta da destruição da maior biblioteca talmúdica da Polónia nos seguintes termos: “ti­rámos os livros do edifício e levámo-los para o mercado onde lhes pegámos fogo. O fogo durou vinte horas. Os Judeus de Lublin reuniram-se à volta e choravam amargamente, quase nos silenciando com os seus gritos. Chamámos então a banda militar, que com berros de alegria silenciou o clamor dos judeus.”

Quando hoje se celebra o dia internacional do livro, com toda a pompa e circunstância possível e todos os discursos inflamados que se imaginem, é preciso ter em conta que este pequeno objecto, que talvez transporte a data da nossa modernidade, traz consigo toda uma história ao qual o acontecimento de 1941 não é alheio. Não o progresso ou outra forma qualquer de messianismo profano, mas o cheiro a queimado, a cinza, o esquecimento e o desaparecimento: a história como conjunto de disparates.

É certo que aquilo que se ouve nos discursos oficiais é o contrário. Um discurso humanista que, de forma mais ou menos anacrónica, consciente ou não dos perigos, continua a apostar tudo na Cultura – com maiúscula – como barreira contra a barbárie, como se aquela, em conjunto com a educação, conseguisse aplacar a fúria inscrita nos assuntos humanos, inflama os espíritos, arregimenta todo o objecto cultural para a sua entrada triunfal na cidade. Este tipo de discurso, que se dissemina por políticos, por decisores culturais, académicos, escritores ou, para usar um termo caído em desuso, intelectuais, esquece. Esquece, em primeiro lugar, que tanto a cultura como a educação são, para usar um termo do filósofo Sloterijk, “antropotécnicas”, isto é, técnicas de criação do animal humano – convém ter atenção à ambiguidade deste termo, que também remete para a pecuária –, mas também “máquinas antropológicas”, onde o que está em causa é a separação do homem do animal – que não é homogénea dentro de cada sociedade, variando consoante as práticas discursivas.

Mas esquece, ou pretende esquecer, a arregimentação dos intelectuais durante a Grande Guerra (poucos foram aqueles que não foram apanhados pela febre nacionalista), que vieram em auxílio da tagarelice armada que se instituiu a dada altura dentro do espaço público europeu, tal como fica sem palavras perante aquelas figuras sinistras que, mesmo assim, eram admiradoras de Goethe e ouviam Mozart – um nome sonante da cultura alemã da época afirmava que o grande problema não era os nazis escreverem sobre Nietzsche mas sim terem algo de interessante a dizer sobre este.

Se toda e qualquer comemoração transporta sempre uma relação ambígua relativamente ao que é comemorado, a comemoração do dia livro do livro tem como impensado esta íntima ligação que a cultura livresca tem com a violência a com a barbárie.

Se é necessário, portanto, colocar algum atrito na forma inflamada com que o objecto livro, enquanto símbolo da cultura, é tratado nestes dias festivos, isso não significa que se deva subscrever um outro tipo de discurso que costuma surgir na mesma altura, e que, sob a capa de um ponto de vista crítico, acaba por comemorar de outra forma. De facto, seria demasiado fácil contrapor, ao discurso oficial, o triste lamento e a elegia fúnebre quanto ao destino do livro e da cultura em Portugal, alertar para o facto de só em dias festivos estes terem lugar de honra em televisões e jornais, culpar os editores pelo lixo editoral que enche as poucas livrarias que restam – todos eles, certamente, cheios de boas intenções, obrigados a editar o que vende –, reclamar pelo fecho das livrarias, apanhadas na voracidade dos tempos, suspirar pelo desaparecimento da crítica e pelo lugar secundário que a cultura livresca e as humanidades têm nos jornais, nas escolas e no espaço público. Todo este discurso lúgubre, de autocomiseração na medida em que vem de pessoas envolvidas de uma forma ou de outra no meio cultural, toda a lamúria bem intencionada (num outro tempo chamar-se-ia a isto “má-consciência burguesa”, quando este discurso vem de editores e pessoas com poder decisório), não anda na realidade distante da inflamação retórica do discurso oficial e tem com ela laços bastante mais íntimos do que à partida parece ter.

Talvez faça sentido, portanto, lançar contra uns e outros o diagnóstico de Bertolt Brecht:

“Seja o que for que as universidades sussurrem acerca da harmonia grega, o mundo de Ésquilo estava cheio de lutas e de horror, assim como o de Shakespeare e o de Homero, o de Dante e o de Cervantes, o de Voltaire e o de Goethe. Por pacífica que seja, a descrição do mundo só fala de guerras, e sempre que a arte faz as pazes com o mundo, fá-lo com um mundo em guerra”

Nem barragem contra a barbárie nem salvação da humanidade, nem progresso nem diálogo entre tempos, o livro testemunha pela história enquanto disparate. 

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