16/9/19
 
 
Greve. Caos continuou com ‘racionamento’ de gasóleo e gasolina

Greve. Caos continuou com ‘racionamento’ de gasóleo e gasolina

A confusão continuou durante o dia de ontem e houve quem estivesse três horas à espera para abastecer. A greve dos motoristas continua sem fim à vista e Governo já criou uma rede de 310 postos para abastecimento e limitou os abastecimentos a 15 litros por carro.

O cenário de caos não melhorou durante o dia de ontem e, ao início da noite, eram já cerca de 2000 os postos de abastecimento sem combustível. As filas nas bombas que foram reabastecidas eram de quilómetros e, por exemplo, na Damaia, em Lisboa, o tempo de espera excedia as três horas.

Mas a confusão é geral e até as agências funerárias ponderam agora recusar trasladações para poupar combustível. Um pedido de trasladação foi ontem recusado, uma vez que teria de ser feita a deslocação entre Lisboa e Bragança e não existiam garantias de que fosse possível reabastecer o depósito durante o percurso.

O setor dos transportes públicos não escapou à greve dos motoristas de matérias perigosas, já que as reservas duram pouco tempo. A Soflusa e a Transtejo acionaram ontem o plano de contingência de abastecimento de combustível via marítima para assegurar a ligações entre a cidade de Lisboa e a margem sul. Se a situação não for resolvida, a empresa Barraqueiro Transportes vai suprimir já esta quinta-feira algumas carreiras – podendo reduzir a oferta até 50%.

Perante uma greve sem fim à vista, a recolha de lixo poderá deixar de ser feita nos próximos dias, alertou ontem a Associação das Empresas Portuguesas para o Setor do Ambiente (AEPSA). E a região do Algarve antevê um cenário negro para a época da Páscoa. Com muitos turistas e pouco combustível, a Associação Empresarial da Região do Algarve pediu ao final da tarde de ontem as mesmas condições de abastecimento para o Algarve que foram definidas para Lisboa e Porto.

Em Matosinhos, Aveiras e Loulé os motoristas em greve permaneceram à porta das centrais de abastecimento, de onde saíram dezenas de camiões-cisterna para abastecer alguns postos de gasolina e, sobretudo, os aeroportos, que viram, finalmente, a situação regularizada.

Ao início da tarde, Marcelo Rebelo de Sousa deixou um aviso ao Governo: “Faz sentido pensar na eventual ampliação dos serviços mínimos” E acrescentou: “É necessário tratar da questão de fundo, porque os serviços mínimos não resolvem o problema das pessoas”. Para o presidente da República, “é preciso que as duas partes continuem a falar”. Foi o que veio a acontecer durante a tarde.

No meio da confusão que se instalou em todas as cidades do país, Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas (SNMMP), Associação Nacional de Transportes Públicos Rodoviários de Mercadorias (ANTRAM) e Governo sentaram-se para discutir o alargamento dos serviços mínimos a todo o país e também a mais atividades, além dos bombeiros, hospitais e aeroportos.

Os ministros da Administração Interna e do Ambiente e da Transição Energética decidiram ontem criar uma Rede Estratégica de Postos de Abastecimento (REPA). Em comunicado, o ministério tutelado por João Pedro Matos Fernandes revelou que a rede contempla 310 postos prioritários em todo o território nacional. “Os postos de abastecimento pertencentes à REPA ficam obrigados a reservar, para uso exclusivo das entidades prioritárias, pelo menos, uma unidade de abastecimento”, sendo que as entidades prioritárias incluem as forças armadas, serviços médicos, transportes coletivos e transporte de medicamentos.

Ao início da noite – ainda a reunião não tinha terminado – foi anunciado que o abastecimento ficou limitado a 15 litros por cada veículo.

 

Um debate para criticar alarmismos

O discurso do Governo de alargar a requisição civil a todo o país começou logo pela manhã no debate quinzenal com o primeiro-ministro a assumir essa possibilidade, depois de o PSD ter dito que o país tinha vivido uma terça-feira de “sobressalto”. No Parlamento, o governante assegurou que está em contacto permanente com os patrões e os motoristas de transportes de materiais perigosos para avaliar o problema e que, para já está garantido 40 por cento do abastecimento nas bombas de Lisboa e Porto, além de setores como aeroportos, saúde ou forças de segurança.

Dito isto, Costa não deixou de ouvir as críticas do PSD, mas também do CDS. A líder centrista, Assunção Cristas, quis saber se estavam acautelados também serviços mínimos para os transportes de abastecimento alimentar. Mais, a presidente centrista começou por dizer que o Governo “sabia da greve desde 1 de abril e nada fez”.

Na resposta, Costa assegurou que o “Governo tudo fará para que este conflito seja ultrapassado, assegurando o respeito de todos, os direitos essenciais de cada um dos portugueses”.

O executivo decretou serviços mínimos de transporte de camiões-cisterna a 11 de abril, quando percebeu que não haveria acordo entre os patrões e os motoristas. Falhado o cumprimento dos serviços mínimos, o conselho de ministros aprovou a requisição civil na passada terça-feira. E o ministro da Economia, Siza Vieira, deu as explicações públicas sobre o processo. Quem negociou uma solução de consenso mínimo para acautelar os riscos de uma greve sem serviços mínimos foi o ministro das Infraestruturas e Habitação, Pedro Nuno Santos, numa fase decisiva para se ultrapassar a crise. Por isso, a presidente do CDS quis saber quem geria o processo. Costa respondeu: “Eu sou o responsável”. E ouviu críticas por não responder concretamente às perguntas do CDS .

O primeiro-ministro deixou ainda um apelo aos intervenientes no processo: que “tenham o bom senso de perceber o que está em causa para o País”, num conflito de privados, entre patrões e motoristas. Por fim, Costa contestou quem faz o discurso ou a promoção de “alarmismos” , bem como de ”corridas injustificadas aos postos de abastecimento”.

Antes, a coordenadora do Bloco de Esquerda, Catarina Martins, lembrou que “a revolta de muitos trabalhadores tem batido contra a legislação laboral que retirou poder aos sindicatos”. Ou seja, usou o tema dos combustíveis para falar sobre revisão das leis laborais que está no Parlamento.

Mais tarde Jerónimo de Sousa, líder do PCP, deixou alertas contra “os que usam, a pretexto desta greve”, argumentos para colocar em causa o direito à greve. Costa ouviu e disse que não se deve seguir a estratégia de “dramatização”.

 

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