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Carlos Zorrinho 17/04/2019
Carlos Zorrinho
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A voz ao povo

A UE já fez o que tinha a fazer. Definiu as condições de saída com acordo. Cabe ao Reino Unido decidir se aceita esse acordo para sair, se sai sem acordo ou se prefere ficar.

Têm crescido nas últimas semanas no Reino Unido (RU) os movimentos, as organizações e o número de personalidades políticas ou figuras públicas que, tendo em conta a embrulhada em que se transformou o processo de saída do RU da União Europeia (UE), agora sujeito a mais um adiamento até 31 de outubro, vêm reivindicando que o povo britânico seja ouvido sobre o tema, atendendo às mudanças de contexto que ocorreram desde o referendo em que uma ligeira maioria optou pela saída.

Incluo-me no grupo dos que gostariam que o Reino Unido permanecesse na União Europeia, mas não a qualquer preço. Em defesa dos valores e princípios partilhados, não devemos aceitar qualquer derrogação de princípios ou direitos dos povos europeus, nem que nada aconteça contra a vontade do povo britânico. Neste sentido, a realização de um novo referendo pode vir a ser um instrumento fundamental para aferir dessa vontade.

Mas a realização de um novo referendo, de novas eleições ou a negociação de novos compromissos políticos internos é algo que compete ao povo britânico e aos seus representantes. Pode ser sugerido, mas não deve ser imposto de fora. A UE já fez o que tinha a fazer. Definiu as condições de saída com acordo. Cabe ao RU decidir se aceita esse acordo para sair, se sai sem acordo ou se prefere ficar.

Fazer exigências sobre o processo político interno, tecer considerações sobre o seu desenvolvimento, adjetivar de forma inadequada aquilo que está a acontecer na democracia britânica é um desrespeito pela voz do povo outorgada nas instituições democráticas e só servirá para gerar um sentimento de humilhação que apenas serve os que começaram o processo de saída e querem mantê-lo.

O caminho que resta aos que conduziram o povo britânico para a beira do abismo político, económico e social, perdidos os argumentos da razão, é ganhar a batalha da emoção. Se os britânicos se sentirem feridos no seu amor-próprio poderão ser conduzidos a decidir não pela razão, mas pelo sentimento de vingança, e isso não servirá a ninguém.

Com o processo de saída em curso, os britânicos e muitos outros europeus compreenderam de forma mais clara que a UE não é apenas um esboço de união política e uma União Económica e Monetária incompleta. É também uma união digital, uma união da energia, uma união da segurança, uma união da inovação e uma união da cooperação em múltiplos setores económicos e sociais.

A tomada de consciência desta realidade e a perceção concreta dos impactos do deslaçar da parceria entre a UE e o RU, não apenas nas trocas comerciais, mas também em áreas tão críticas como a gestão de recursos comuns, a partilha de métodos e procedimentos, os projetos conjuntos de investigação na saúde, no espaço ou nas novas soluções e serviços digitais ou a rede de formação e qualificação, induzirá uma reflexão do povo britânico que será tanto melhor e mais profunda quanto mais serena e sem interferências externas, manipulações ou condicionamentos.

Que seja dada a voz ao povo. O povo que escolha. Estou convencido que escolherá o melhor para o RU, para a UE e para o mundo.

 

Eurodeputado

 

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