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16 de Março de 1970. Os náufragos do espaço e a sua caixinha de lata

16 de Março de 1970. Os náufragos do espaço e a sua caixinha de lata

Afonso de Melo 16/04/2019 21:20

“Houston, we have a problem!” Talvez uma das frases mais repetidas a partir do momento em que a nave Apolo 13 sofreu uma avaria e não pôde cumprir a sua missão de chegar à Lua. O drama foi transmitido em directo.

Houston, Texas: está tudo a postos!

Lisboa: 10 horas e 13 minutos. A Apolo 13 encontrava-se exactamente a 251.391 quilómetros de distância da Terra. A sua velocidade, por efeito da força da gravidade, aumentava constantemente. Era, nessa altura, de 5.207 quilómetros por hora.

Uma manobra de precisão foi efetuada: o motor do módulo lunar aquático foi posto em funcionamento.
“Ground Control to Major Tom/Ground Control to Major Tom/Take your protein pills and put your helmet on”, cantara David Bowie no ano anterior.

James Lovell, Fred Haise e John Swigert eram os homens do espaço. Tripulantes da nave que não chegou à Lua.
Havia, em Houston, uma sensação de frustração mas também de angústia.

Chamaram-lhes os náufragos do espaço.
Um tanque de oxigénio explodira. A missão fora abortada. Houve uma perda geral de energia e uma grave fuga de oxigénio. Ordem imediata de regresso à Terra! Marcada para o dia seguinte, às 13 horas e 7 minutos, no Pacífico.

Entretanto, uma ansiedade colectiva.
“Ground Control to Major Tom/Commencing countdown, engines on/Check ignition and may God’s love be with you...”
Foram essas as palavras do Presidente americano Richard Nixon que montara um gabinete de crise na Casa Branca. “May God’s love be with you”.

Partículas da cápsula tinham-se soltado. A explosão abriu um rombo na parte lateral do módulo de serviço, junto à zona onde se encontrava o motor principal.

Seis horas antes do regresso à Terra, Lovell, Swigert e Haise instalaram-se definitivamente na cabina Odisseia, abandonando o módulo lunar Aquário que lhes tinha servido, até aí, de posto de comando operacional.
“This is Major Tom to Ground Control/I’m stepping through the door/And I’m floating in a most peculiar way/And the stars look very different today...”

Perdidos nas estrelas. As estrelas deviam parecer bem diferentes ao olhar dos três americanos nessa viagem vertiginosa de regresso à Terra sem terem posto os pés na Lua. Isto é, se eles tiveram tempo de prestar atenção às estrelas, tão enorme era a troca de informações entre Houston e a Apolo 13.

O oxigénio podia faltar a qualquer momento.
O drama tomava feições excruciantes.
À partida, a cabina-mãe Odisseia dispunha de 168 horas de lítio, mais do que suficiente para dura toda a missão. Mas a nave cedera. Perdera partes importantes da sua estrutura. Havia depósitos com comunicações completamente cortadas com a aeronave.

Em Houston, os cérebros não paravam de funcionar: como resolver a questão da depuração do ar de forma a manter vivos os navegantes do vazio?

Um frio insuportável começa a cingir os movimentos dos astronautas. Os sistemas elétricos que haviam sido desligados por uma questão de poupança, voltam a funcionar. Os três homens procedem à correcção da trajetória descendente na direção do exato ponto no oceano Pacífico onde os espera o porta-aviões Iwo Jima.

Toda a manobra será seguida em direto pelas televisões. Que não se perca um segundo do drama espacial.
Lovell, Swigert e Haise soltam um lamento aflitivo: “Estamos completamente enregelados!”

Donal Sleyton, director de operações, promete-lhes através do contacto via rádio: “Serão premiado com uns dias de sol na ilha de Samoa mal cheguem vivos e saudáveis. Sentirão o sol do Pacífico”.
“Am I sitting in a tin can/Far above the world/Planet Earth is blue/And there’s nothing I can do...”
Ah. O martírio dos náufragos aproxima-se do episódio derradeiro.

O focinho cónico da Apolo 13 está meticulosamente apontado para entrar no mar a 1.720 quilómetros de Suva, nas Ilhas Fiji.

O módulo de serviço avariado é dispensado. Fica a vogar na atmosfera.
Os três homens entram na cabina de comando e fecham a escotilha de comunicação com o módulo lugar.
Um deles murmura: “Espero que não seja este o nosso túmulo”.

O módulo lunar é ejetado. Já nada mais resta que interfira com a amaragem.
A Apolo 13 entra na atmosfera a 120 mil metros de altitude.
Precipita-se sobre o oceano.

“Ground Control to Major Tom/Your circuit’s dead, there’s something wrong/Can you hear me, Major Tom?”
O mundo segue pela televisão a intensidade da angústia.
Lovell é o primeiro a sair da cápsula e a erguer o braço. Tinha perdido cinco quilos graças à desidratação.
Haise está de rastos: febres altíssimas, uma infeção grave na próstata.

A bordo do Iwo Jima, a banda da Marinha Americana encetou as primeiras notas da música The Age of Aquarius de Odisseia no Espaço.
John Swigert parecia um pouco alheio ao que se passava em redor. Depois desabafou: “Isto é formidável!”

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