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Radiação eletromagnética: a poluição ignorada

Radiação eletromagnética: a poluição ignorada

Luís Ferreira Rodrigues 11/04/2019 08:42

A mesma sociedade civilizada ocidental que tanto abomina as poluições visíveis parece adormecida para a emergência de uma invisível mas igualmente nefasta forma de poluição

1964 foi o ano em que, após um relatório norte-americano associando o fumo do tabaco a uma maior incidência de cancro, as campanhas publicitárias que então glorificavam o fumo de cigarros, charutos e cachimbos começaram a decair e a dar lugar às advertências da sua nocividade para a saúde pública que hoje todos encontramos nas embalagens destes produtos. Atualmente, até a Philip Morris, principal tabaqueira mundial, pretende abandonar a produção de cigarros convencionais substituindo-os por produtos de e-vapor.

O fumo deixou de ser chique: o fumo dos cigarros, automóveis, fábricas, enfim, todo e qualquer tipo de fumo. Uma sociedade que se pretende saudável abomina o fumo – e é bom que assim seja. Os níveis extremos de poluição atmosférica que afetam inúmeras cidades chinesas e indianas constituem um exemplo daquilo que qualquer sociedade civilizada deve abolir. No entanto, a mesma sociedade civilizada ocidental que tanto abomina as poluições visíveis parece adormecida para a emergência de uma invisível mas igualmente nefasta forma de poluição: a poluição provocada pela radiação eletromagnética.

Todos sabemos que as antenas de telemóveis ou as linhas elétricas de alta tensão emitem radiações extremamente nocivas para a saúde humana, sendo causadoras de cancro e outras doenças. No entanto, essas formas primárias e localizadas de poluição vão cada vez mais ser a norma e menos a exceção num mundo urbanizado.

Nas cidades tecnológicas e complexas que estamos a criar, a crescente dependência da eletricidade vai intensificar a criação de fontes de radiação eletromagnética: cabos e antenas para alimentar redes wi-fi e a comunicação destinada à tecnologia 5G, automóveis elétricos, telemóveis, biliões de sensores destinados a conectar dispositivos inteligentes associados à internet das coisas, mecanismos robóticos e inteligência artificial, etc. As cidades vão ficar inundadas de radiações e as implicações desse dilúvio massivo para a saúde pública estão ainda por estudar.

As orientações da Organização Mundial da Saúde relativamente a esta matéria deixam-nos igualmente preocupados pela desatualização da documentação produzida: a publicação Framework for developing health-based EMF standards (Enquadramento para o desenvolvimento de Campos Eletromagnéticos baseado em standards de saúde) data de 2006 – quando ainda se utilizavam as tecnologias de comunicação 3G e nem se vislumbravam as implicações da 5G.

Atualmente, já existem locais onde se pretende testar a utilização 5G – nomeadamente, Bruxelas; no entanto, o projeto-piloto previsto para a capital belga sofreu um revés inesperado: a ministra do Ambiente, Céline Fremault, abortou o projeto advertindo que não poderia “aceitar essa tecnologia se os padrões de radiação, que devem proteger o cidadão, não forem respeitados, 5G ou não. As pessoas de Bruxelas não são cobaias cuja saúde eu possa vender a pensar no lucro”.

Afirmando-se Portugal tão interessado nas questões ambientais, energéticas e de saúde pública, não seria má ideia começar desde já a incorporar estas preocupações em políticas de ordenamento do território, equacionando as implicações da crescente poluição eletromagnética no ambiente urbano e as formas necessárias de as mitigar. Pensar a cidade do futuro implica não só definir o que será a sua forma visível, mas tomar consciência dos impactos que novas funcionalidades invisíveis podem trazer à vida de cada cidadão.

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