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A única cura contra o desespero e o fatalismo é o activismo

A única cura contra o desespero e o fatalismo é o activismo

Diogo Vaz Pinto 10/04/2019 15:33

Combater o aquecimento global começa pelo combate ao fatalismo que o tema tende a provocar, levando a que muitos passem ao lado do desespero e entrem em negação


Somos todos rãs. Ou pelo menos aquela rã que até pode sentir já um certo desconforto, mas não imagina que está a ser cozida numa panela de água quente. E isto porque a temperatura supostamente vai subindo devagarinho. Na verdade, nem é bem assim. Mas é evidente que a maioria de nós ainda nos podemos dar ao luxo de viver alheados face à crescente ameaça do aquecimento global. Vivendo a maioria de nós em áreas urbanas, boa parte de nós rejubila com estes invernos cheios de radiantes dias de sol. Quando chove,  enchemos de insultos as nuvens. É um sinal do quão divorciados estamos da natureza, ao ponto de, mesmo com os constantes avisos de seca, ainda assim sentirmos que a chuva quando nos cai em cima é uma desmancha-prazeres, e poucos lhe dão a cara, gostando de a sentir correr, ao mesmo tempo que imaginam o alívio das tantas gargantes secas da terra.

Mais do que o aumento das temperaturas à volta do globo, os estudos indicam que um efeito mais nefasto das alterações climáticas serão as secas, com alguns dos terrenos mais aráveis do mundo hoje ameaçados de se transformarem em zonas desérticas. Sendo muito difícil prever como se comportará o clima em termos de precipitação, aquilo que as pesquisas prefiguram é que, lá para o final do século, quase todos os lugares onde hoje a nossa alimentação é produzida serão afectados por secas sem precedentes. As previsões indicam que, a menos que haja reduções drásticas nas emissões de dióxido de carbono ao longo da próxima década, em 2080, o sul da Europa enfrentará um problema de seca extrema e permanente.

Hoje, um dos principais motivos porque muitas pessoas ainda não tomam as alterações climáticas como uma prioridade a levar em conta em termos de políticas públicas mais do que os pequenos cuidados que cada um tem na sua vida privada é o facto de este assunto não ter o impacto mediático que merece. Mesmo se as conclusões dos estudos científicos nos agitam de tempos a tempos, a placidez da sociedade em geral acaba por servir como calmante. Mais de metade do total das emissões de carbono lançadas para atmosfera pela humanidade foram-no ao longo das últimas três décadas, período que coincide com o tempo a partir do qual ganhámos consciência deste problema. Há um motivo à cabeça de todos os outros, como refere Bill McKibben, um dos mais empenhados e proeminentes ambientalistas da actualidade, para que continuemos num estado de negação colectiva em relação a esta crise, e isso prende-se com o poder da indústria dos combustíveis fósseis. Desde o úlimo relatónio do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma série de notícias tem dado conta de que as grandes empresas petrolíferas tinham toda a informação necessária para avaliar os perigos que o aquecimento global representava, e isto muito antes de esta se ter tornado uma questão pública no final dos anos 80, mas, ao invés de assumirem a sua responsibilidade e ajudarem no esforço de consciencialização, decidiram investir somas obscenas em campanhas para obfuscar a ciência. Acontece que esta crise, criada primeiro pela nossa ignorância e depois por um estado de negação patrocinado pela indústria de combustíveis fósseis, chegou àquele ponto em que parece ter ganho suficiente determinação para nos declarar guerra. E esta é uma guerra que poderá prolongar-se, não por alguns anos ou décadas, mas por séculos, sendo um dos resultados possíveis a nossa extinção. Wallace Smith Broecker, o oceanógrafo que cunhou o termo “aquecimento global” é quem gosta de falar do nosso planeta como uma “fera enfurecida”. À medida que o tempo passa e não fazemos nada, está “máquina de guerra” (outra das expressões usadas por Broecker) vê crescer o seu arsenal e chegará a um ponto em que só nos restará a condição de vítimas que vai caindo em número, com lugares na fila da frente para o espectáculo da sua destruição.

De resto, por mais que as petrolíferas continuem a investir em camapnhas de desinformação e a comprar políticos para contrariar eleitorados que estão cada vez mais convencidos dos méritos de que só enérgicas políticas públicas poderão fazer alguma diferença no que toca à redução das emissões de carbono, neste momento a indústria dos combustíveis fósseis terá de ser mesmo muito inventiva para ultrapassar o efeito dessas brutais campanhas de informação que são os desastres naturais. Num mundo em que a cada ano as temperaturas se superam atingindo valores inéditos, em que os incêndios florestais consomem áreas cada vez mais vastas, e as tempestades e furacões se sucedem quase semanalmente, batendo recordes e deixando enormes rastros de devastação, a indústria dos combustíveis fósseis sabe que não lhe resta fazer mais do que “tentar desacelerar a mudança para as energias renováveis, preservando o seu actual modelo de negócio pelo maior tempo possível.

Quanto aos esforços de consciencialização, se já há países que estão a fazer esforços e a dar passos na direcção certa, o que é necessário para fazer frente ao problema é uma revolução civilizacional que terá de partir de uma urgência sentida pelas populações. Assim, têm sido os movimentos de cidadãos e o activismo a liderar a campanha de consciencialização, e, em Portugal há já alguns grupos e instituições que desenvolvem um trabalho sério para informar as pessoas sobre os desafios que, nos próximos anos e, de forma dramáticas, nas próximas décadas irão lançar-nos de volta a um plano, já não de prosperidade e desenvolvimento, mas de sobrevivência.

Entre nós, e num dia em que por todo o mundo se realiza iniciativas ao abrigo da greve climática estudantil, queremos destacar um projecto “dirigido fundamentalmente a adolescentes que pretende incentivar atitudes e comportamentos responsáveis em relação a temas ecológicos e sociais”. Chama-se “5 a 10 segundos” e é um exemplo daquilo que Bill McKibben reconhece ser a única cura para o estado de agitação interior que este embate provoca, ou seja, o desespero ou fatalismo em que tantas pessoas têm tendência a cair quando confrontados com o cenário apocalíptico que pintam os estudos e previsões científicas, bem como o simples acto de ver as notícias, associando a quantidade de acidentes naturais à campanha do planeta terra, nesta que o sexto episódio de extinção em massa, desta vez para se sacudir da praga humana.

A iniciativa “5 a 10 segundos” é da responsabilidade de Maria João Müller (Lisboa, 1958), professora do ensino secundário que, desde 2002, elabora alguns dos manuais e livros auxiliares de Geometria Descritiva mais usados nos 10.º e 11.º anos de escolaridade. Aproveitando o tráfego do seu site com recursos digitais para a aprendizagem da Geometria Descritiva, em 2018 decidiu criar um projecto paralelo, tentando desviar algum do tráfego daquele site para o “5 a 10 segundos” (5a10segundos.pt). Contratando ilustradores profissionais, tem vindo a desenvolver uma sequência de animações de curta duração de forma a consciencializar os adolescentes para questões ambientais e os problemas de esperdício, e outros problemas sociais que os afectam, como a violência entre pares, além de apelar a atitudes construtivas, solidárias, tolerantes e de respeito.
 

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