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Madalena de Castro Campos. Uma flor carnívora na estufa das letras

Madalena de Castro Campos. Uma flor carnívora na estufa das letras

Diogo Vaz Pinto 09/04/2019 12:52

No seu terceiro livro, esta autora/personagem prova ser uma hábil moulinex das noções mais em voga e das tensões que hoje desovam na poesia como outro charco onde se espelha o rosto dos nossos dias


O perfume do ressentimento atravessa a época. E não falta escolha a quem queira banquetear-se nas manifestações de pesar, num generalizado mal-estar que não precisa de ser justificado, pois avança sobre um mote comum, e lá se vai enflorando nos discursos artísticos como uma forma de gangrena ornamental. A certa altura, nas páginas de “A Gun in the Garland”, o terceiro livro de Madalena de Castro Campos, diz-nos a autora (que, tudo leva a crer, se trata de um pseudónimo – e já veremos como isso é significativo na leitura dos seus poemas) que “a escrita talvez fosse uma forma aceitável de não existir”. Para não nos ficarmos pelos borrifos deste ambientador enxofrante, vale a pena seguir um diagnóstico mais decidido, traçado umas décadas antes por Agustina Bessa-Luís, e que vem escorar e aprofundar este. Na comunicação feita no âmbito de um congresso internacional, dizia que “ser escritor tornou-se, como tudo, uma maneira de suportar a mediocridade”. E passa depois a sinalizar as transformações que estavam a ter lugar diante do fenómeno da cultura de massas: “Primeiro, o poeta era o sábio; depois as letras foram um mester, um talento aparentado com o funambulismo; e agora tornaram-se numa complicada tentativa para seduzir e influenciar. Não há hoje praticamente ninguém que não esteja possuído da intenção pueril de ganhar a simpatia de um público. É a atitude que tomam as crianças por traumatismo da sua debilidade. (...) Esta subserviência que se instala numa fraude de desafectação, de impune demagogia, acaba por institucionalizar-se na pura superficialidade. E marca a agonia duma cultura. (...) Ao mesmo tempo que se nivela a inteligência – coisa que se não reparte senão fazendo-a produzir de maneira ilimitada –, faz-se da timidez uma esperança. A cultura tornou-se matreira e o espírito, em vez de vigilante, fez-se opinioso.”

Um largo e devastador quadro clínico e que, de algum modo, a todos nos toca. Mas se merece ser lembrado aqui é por ser sobre este debilitado feixe de estruturas que vamos assistir a um desolador exercício literário que poderá equiparar-se a um inexorável monólogo, uma performance que se serve do deslassado espaço da poesia para desfiar até ao limite as obsessões identitárias que ali reinam sob a forma de uma multiplicidade de poses mais ou menos enfáticas. Como uma crítica dos actuais predicados da cultura que desfilam entre nós num incessante e desavergonhado carnaval, Madalena de Castro Campos assume-se tantas vezes como mais uma, alguém que para se juntar ao elenco da poesia portuguesa, para “chegar lá”, merecer também as quatrocentas páginas (“no mínimo”) da sua “antologia toda”, só precisa de ater-se a uma receita simples, e perseverar mediocremente como acontece com (quase) todos: “Bastar-lhe-ia ser metódica e medíocre,/ fria e determinada./ Se não aos quarenta, aos quarenta e cinco,/ aos cinquenta, na vaidade póstuma de quem/ há anos deixou de ter o que dizer.”

Esta plangente existência ficcional prova ser, no actual contexto, bastante difícil de denunciar ou singularizar. Com as redes sociais e os meios virtuais a tornarem a paranóia de cada um mais tangível e provável do que qualquer realidade, vemos surgir uma personagem que avoca uma espécie de ressentimento dos estereótipos, alguém que, entre as poucas informações biográficas que sente necessidade de transmitir ao leitor, começa por dizer que “fez, sem muito empenho, uma licenciatura em filosofia, e depois uma outra em arquitectura paisagista”. E esta mulher que trabalha em Edimburgo, na Escócia, e que terá nascido em Lisboa, em 1984, vem para o tanque dos versos lavar a roupa suja e bastante larga dos nossos dias, lembrando uma Adília absurdamente desencantada, desnutrida de todo o sonho ou (e pior) de todo o assombro. Uma Adília irada, em versão exterminador implacável, sem os espasmos da fábula ou, sequer, uma indigestão de contos de fada que possam aligeirar esta depressão arrumada em versos, mas a que não falta o minucioso cuidado de vincar tudo através de um inegável aprumo ao nível da gramática.

Estão cá, quase por ordem, como se fichados por uma enfermeira com um distúrbio obsessivo-compulsivo, todos esses temas e tópicos que dinamizam hoje os debates daqueles que, no vazio das suas identidades, insuflam as suas consciências dos últimos gritos no que toca a estar em linha com a etiqueta que rege o código das pessoas sensíveis – essa espécie de concurso de misses que se debatem pela objectiva enquanto percorrem a longa lista dos seus bons sentimentos. Estão cá as questões de género e classe, etnia e eu sei lá o que mais. E no seu terceiro livro, tal como no de estreia ("O Fardo do Homem Branco", de 2013) ou no que se lhe seguiu ("La Mariée Mise à Nu", de 2017), Madalena Castro Campos prova ser exímia na hora de seviciar qualquer descuido ao nível desta sintaxe. Depois, e como não podia deixar de ser, há muito espaço para a lamentação, para se deixar confundir com esse unânime mal-estar entre os poetas e que se liga a questões de visibilidade, falhas na recepção por parte da crítica e dos pares. E se não há na trama dos seus versos espaço nem para o amor fabuloso nem para o erotismo pedante, mais sobra para o vago drama da vaidade, o desdém de que se sente alvo enquanto desdenhosa lavadeira da roupa suja dos do seu tempo.

Desde o seu espinhoso trono nalgum ilhado desvão da “lavandaria lusitana”, Castro Campos observa como, apesar do aparente desinteresse, os outros não deixam de olhar para ela “com a atenção suja”. E logo no poema que abre esta nova recolha – a qual em nada difere das anteriores seja no tom ou nos truques de que se serve para produzir choque, numa simulação em que a sonegação da identidade, mais do que um aspecto aliciante, se torna um afrodisíaco natural na era da máxima visibilidade –, a “autora” mostra dominar perfeitamente esse código ou modelo degenerado que vai servindo para os poetas que refocilam na mais baixa biografia, na mais rasca das produções, essas penosas ilustrações que pretendem delimitar um tal de “real quotidiano”. Mas não só deixa claro que conhece as regras como se mostra disponível para se sentar à mesa e jogar o jogo das damas: “Sabia-o,/ mostraria o que houvesse para mostrar./ Talvez estivesse a ser usada, mas queria crer/ que ela mesma usava aqueles que a liam.// Não conhecia, em literatura,/ outro fim, outra estratégia ou outra moral.”

Como personagem de um estafado romance escrito ao mesmo tempo por todos nós, Madalena de Castro Campos surge como uma versão polida no que conta, mas bastante agreste nos modos, impiedosa nos termos, atingindo o nervo de temperamentos que estão cansados de ser apaparicados, que já nem sentem o gosto à lisonja, preferindo ser beliscados, mordidos, chicoteados. Desde que se possa usar uma palavra-código para romper com este breve feitiço sado-masoquista. E vem à memória aquele passo do famoso poema que tornou célebre T.S. Eliot, em que resolve mostrar-se humilde quase a chegar ao fim de um texto magistral, dizendo-nos que não é o Príncipe Hamlet, mas também não o quis ser. Mas que se basta com um papel secundário, um desses lordes que aparecem e ajudam à transição de uma cena para outra, a aguçar certo efeito; aconselhar o príncipe, revelando gosto por ser útil, e, sempre deferencial, mostrando-se cautelosos, meticulosos, enchendo a boca de frases enfáticas, ainda que às vezes um tanto obtusas. “As vezes, até, quase ridículas – quase, às vezes, representando o Bobo”, ou o imbecil, se preferirem.

Quando a identidade se tornou num mantra, e tantos versos não passam da ejaculação precoce do espírito, com todo o seu repúdio, nojo ou rancor, esta Madalena, por muito que se queira molhá-la no chá, não deixará um gosto doce, mas também não chega a ser infame, nem tem verdadeiramente essa qualidade indízivel que confere a um escrito a pulsão que ritma um exorcismo. Ainda nos oferece, porém, entre as máximas do seu constante e corrosivo diagnóstico, algumas preciosidades, como quando vê a falha em captar a realidade nesses poemas que se contentam em reunir a baixela das baixezas, notando: “Talvez, se os objectos se revoltassem, como cavalo/ que rejeita a rédea, talvez, talvez, talvez/ tivéssemos direito a um pouco de realidade.” Mas, na maior parte das vezes, parece que o diagnóstico, a visão devastadora que traça, resulta ela mesma de uma perspectiva turva e limitada, que poderá ser sintoma de uma conjuntivite deixada por tratar. O inferno aqui é um drama que se esforça por parecer real, e a “mulher-poeta” uma injunção que exige a nossa atenção, mesmo que suja, pelo simples facto de, apesar do seu atroz cinismo, merecer ser ouvida, isto após “séculos de instrução, décadas de emancipação (as quais,/ de forma desigual, haviam feito do corpo das fêmeas/ um espaço de disputa e de conflito)”, e, para esse efeito, apresenta-se-nos como uma placa de petri onde se colocaram amostras de tecidos orgânicos, mulheres dessas que conhecemos por alto, de ouvir falar, fustigadas pelos típicos agentes agressores, os vírus e bactérias à solta devido aos abusos da ordem patriarcal. Assim, esta “fêmea” ganha os seus direitos poéticos enquanto representação ficcional e, como se um produto sintetizado em laboratório, padece de todo o tipo de maleitas próprias do tempo. De caminho, denuncia a fragilidade de uma arte que se tornou o último dos palcos, um campo de refugiados para os órfãos de talento. E, numa experiência que se quis à partida que corresse mal, ficam expostas as tensões ritualizadas pela época, todos os discursos e manifestações que acabam rotulados como poesia, como se esta fosse a secção de perdidos e achados da literatura. Os poetas entram e saem de cena segundo as marcações coreográficas e encenam um drama muito pontual em que fica claro como a consciência não é mais “uma causa, mas um meio de dinamização” (Agustina).
 

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