18/11/19
 
 
António Cluny 09/04/2019
António Cluny

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As raivas que hoje nos deixam ter

Ao contrário do que se dizia na canção de Sérgio Godinho, essas raivas que nascem nos dentes não fazem crescer uma força nos dedos capaz de suscitar esperança numa mudança

O mundo vive hoje, mais do que nunca, envolvido em raivas.
Muitas são as raivas que orientam e alimentam grande número de pessoas.
Umas são de expressão individual, outras partilham-se e saboreiam-se em grupo.
A maioria delas são insufladas pelas redes sociais e mesmo pelos média clássicos.
Algumas têm importância e justificação objetiva evidente, a maioria são, porém, o resultado do condicionamento dos espíritos e, na verdade, nada as justifica.
Tem-se raiva de outros povos: dos russos, dos chineses, dos americanos, dos palestinianos e, agora, até dos brexiteers.
Tem-se raiva dos pretos, dos indianos, dos índios centro-americanos, dos ciganos e dos amarelos.
Tem-se raiva dos católicos, dos muçulmanos, dos judeus, dos ortodoxos e, até, dos protestantes irlandeses.
Tem-se raiva das feministas, dos gays e dos transgénero.
Tem-se raiva da esquerda, da direita, dos populistas de direita e de esquerda e, sobretudo, mesmo que mais discretamente mas com o empenhamento de sempre, dos comunistas que restam.
Tem-se raiva do Papa Francisco, que apela à moderação nas raivas e as condena.
Tem-se raiva da Europa e da União Europeia, mas odeiam-se também os britânicos que dela querem sair, ou os suíços e noruegueses, que nunca nela quiseram entrar. 
Tem-se raiva dos outros clubes de futebol, dos seus jogadores, dos seus treinadores e dirigentes, mas não se sabe bem porquê, pois eles são a razão de ser da existência do clube que se apoia. 
Tem-se raiva dos velhos que roubam os postos de trabalho aos novos, mas esquece-se que todos são – ou foram – novos e, necessariamente, todos serão velhos um dia.
Tem-se raiva dos novos que são ruidosos, pouco corteses e desrespeitadores das hierarquias, mas esquecem-se os desmandos que, nessa idade, outros de outras gerações também fizeram.
Tem-se raiva da riqueza, mas sobretudo dos miseráveis e dos sem-abrigo, que fedem, pedem esmola culpando-nos disso e ocupam bancos dos jardins e as entradas das portas dos apartamentos de luxo.
Tem-se raiva dos ciclistas e das trotinetes, que obrigam a uma atenção desmesurada na condução.
Tem-se raiva dos turistas e dos refugiados que invadem os nossos bairros, antes tão sossegados e familiares.
Há, de facto, muita raiva latente.
Uma raiva cuja razão objetiva nunca é verdadeiramente revelada, mas que importa divulgar.
Muitas destas raivas vivem-se, porém, sozinhas, pois elas também apartam e, simultaneamente, envenenam as mentes e a alma e, por isso, projetam crimes pessoais de ódio e verdadeiros massacres: crimes de desespero, incompreensão e incomunicação.
São raivas sem sentido e quem as sente episodicamente, se as discutir com os outros de um ponto de vista lógico, perde-as de súbito.
Outras, porém, entranham-se e ficam a pairar, sem remédio ou explicação.
A maioria dessas raivas não tem consistência, mas são noticiadas, comentadas e discutidas por especialistas, políticos, jornalistas, sacerdotes, sociólogos e juristas como se de verdadeiros fenómenos racionais e justificados se tratasse, o que, longe de as apaziguar, lhes dá o relevo que quem as insuflou assim desejou.
Ao contrário do que se dizia na canção de Sérgio Godinho, essas raivas que nascem nos dentes não fazem, em geral, crescer uma força nos dedos, uma força capaz de suscitar esperança numa mudança dirigida ao bem comum e à transformação do mundo.
Não, tais raivas são apenas raivas negativas e a expressão frustrada e frustrante dos que já nada querem construir para os outros ou para si.
Delas só vem destruição, desalento e rendição.
Por isso, elas – e não outras com sentido e com futuro – são notícia de primeira página.

 

 

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