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Quando o desespero e o amor se cruzam

Quando o desespero e o amor se cruzam

DR Ricardo Cabral Fernandes 08/04/2019 21:05

María José Carrasco, diagnosticada há 30 anos com esclerose múltipla, pediu ao marido, Ángel Hernández, que a ajudasse a pôr fim à sua própria vida. Sabendo que iria ser punido pela justiça espanhola, Hernández não recusou e fez-lhe a vontade.

Tinha 32 anos quando lhe foi diagnosticada esclerose múltipla e desde esse dia que a sua vida nunca mais foi a mesma. María José Carrasco, de 62 anos, tinha dores diárias, não se conseguia mexer e a vontade de viver foi esmorecendo a par e passo com as dores cada vez mais fortes. Não aguentava viver acamada e com cada uma das suas vontades a depender de terceiros. Aguentou o máximo que podia, sempre na esperança de, um dia, a eutanásia ser legal em Espanha. Esperou e esperou até não aguentar mais. Tentou suicidar-se uma vez, mas não foi bem-sucedida. As dores não pararam e a sua vontade de deixar de viver como vivia também não. Estava numa encruzilhada e a sua única esperança era o companheiro de uma vida. 

Desesperada, pediu ao marido, Ángel Hernández, que a ajudasse a terminar com o sofrimento: queria a eutanásia. Hernández assim fez e, na quarta-feira à noite, foi detido por ter dado à mulher pentobarbital de sódio, causando-lhe a morte. María José Carrasco morreu em casa, em paz, como queria. E foi agora divulgado um vídeo em que Carrasco garantiu querer morrer e pediu ajuda – uma salvaguarda para o marido lidar com a justiça espanhola. Acabou por ser libertado, mas as primeiras horas de luto fê-las atrás das grades. 

“Ainda tem a ideia de se querer matar?”, perguntou Hernández no vídeo, com María José a responder: “Sim”. “Quer esperar por algo?”, voltou a perguntar. “Não”, garantiu a mulher. “Quer que isso aconteça já?”, voltou a questionar, com María José a dizer sim. 

Antes de o vídeo ser gravado, María José Carrasco já tinha deixado bem claras as suas intenções numa reportagem do jornal El País. “Eu quero o fim o mais rápido possível”, disse com grande dificuldade – a doença dificultava-lhe a fala. Aos poucos, deixou de conseguir ver, ouvir e até falar, pois as transmissões nervosas começaram a sofrer com a doença. As condições de vida do casal estavam longe de ser as melhores: sem familiares próximos, não tinham a quem recorrer senão ao Estado. 

O Estado, por sua vez, não lhes deu a devida atenção: “Passámos nove anos na lista de espera por uma casa”, explicou Hernández. Nunca chegaram a ter a casa pedida por já receberem o subsídio de dependência e tiveram de viver com o que tinham à mão. Transformaram a casa de dois quartos num pequeno hospital, com o marido a ser o cuidador a tempo inteiro. Com 70 anos, era quem fazia tudo em casa: cuidava da mulher e mantinha a lida da casa, que nas paredes estava repleta de quadros pintados por María José e, numa das divisões, um piano que há anos não era aberto. 

Questionado pelas autoridades, Hernández não escondeu o que fez. Fê-lo por amor, por ser a vontade da mulher e por já não aguentar mais vê-la sofrer, explicou. Detido, enviou uma carta para a imprensa a explicar as razões do seu ato, visto a morte de María José Carrasco e a sua detenção terem iniciado um debate sobre a eutanásia no país. “Cuidados paliativos de boa qualidade, como aqueles recebidos por María José, devem ser um direito de todos aqueles que precisam e exigem, mas também deve haver o direito ao suicídio assistido quando uma pessoa como María José o pede”, pode ler-se na carta. 

Conhecendo os argumentos de quem se opõe à eutanásia, Hernández garantiu que um e outro direito “devem coexistir”, pois os cuidados paliativos “não são uma alternativa à eutanásia”. “Somos defensores [ele e a mulher] de que a eutanásia seja considerada um direito de livre escolha de qualquer pessoa portadora de uma doença irreversível, na qual produza uma dependência e sofrimento que ela não queira”, continua. 

Argumentando já em sua própria defesa, o marido de María José garante que o fez por o “seu desejo” não poder ser cumprido por ela mesma, por razões de “incapacidade”. 

Por fim, acusa na mesma carta os deputados antieutanásia de “bloquearem” o Congresso espanhol, esperando que estejam “cientes da dor que causam” a centenas de pessoas que a desejam, além dos familiares que as rodeiam. “Alguns legisladores devem evoluir para posições menos antieutanásia”, apelou. Em junho de 2018, o PSOE avançou com um projeto-lei que descriminaliza a eutanásia, mas os deputados do PP e do Ciudadanos, antieutanásia, decidiram boicotar a iniciativa com estratégias burocráticas – estenderam repetidamente o prazo para se apresentarem emendas ao projeto-lei. 

Hernández enfrenta agora a acusação de homicídio, segundo o El Mundo e o El País. No entanto, as autoridades poderão escolher acusá-lo de suicídio assistido, podendo enfrentar uma pena de seis meses a dois anos de prisão, como estipulado no Código Penal espanhol. “Em Espanha, embora a eutanásia seja proibida, o Código Penal considera a compaixão e introduz um facto atenuante privilegiado”, explicou o advogado Federico de Montalvo ao El País.

E, segundo a associação espanhola Right to Die Dignamente, “mais de 80% da população é a favor da despenalização da eutanásia e do suicídio assistido”. No entanto, continua, “o artigo 143 do Código Penal continua a punir com prisão”. 
Detido, Hernández passou as primeiras horas de luto entre quatro paredes. Mal chegou a casa tomou banho e tentou descontrair como podia. “Tomei banho, porque é desagradável estar numa esteira, numa pedra que quebra as costas”, explicou ao El País, referindo que o desconforto se deveu, em grande parte, à hérnia que tem. Na prisão não conseguiu dormir e andou consecutivamente na cela de quatro por cinco metros. 

Não foi maltratado pelas autoridades, bem pelo contrário. Foram compreensivas com o caso mas, disseram, a lei é lei e tem de ser aplicada. Os sentimentos dos agentes não podem interferir no seu trabalho, e assim foi. “Os polícias foram muito bons. Disseram-me lá que ‘é a lei’, mas que teriam feito o mesmo. Sim, é a lei, mas está errada, deveria ter sido resolvida há algum tempo”, recordou Hernández. 

Estar fechado numa cela não foi o que mais lhe custou, mas sim não poder tratar da cremação do corpo da mulher. “O que mais me incomodou foi não poder tratar da papelada necessária para cuidar da minha esposa. O corpo deveria ter ido para o Instituto de Medicina Legal e devia ter conversado com as pessoas que fizeram a autópsia”, explicou o homem de 70 anos. Em casa, Hernández terá agora de preparar a sua defesa perante a justiça espanhola. 

María José Carrasco e Hernández não foram a tempo de verem a lei ser aprovada, mas há muitas outras pessoas que mantêm a esperança, não se sabe é até quando. Querem decidir como morrem, tal como decidiram como viveram as suas vidas. 

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