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Sporting-Benfica. Os gritos de “assassino” choveram sobre Alberto como flechas com curare

Sporting-Benfica. Os gritos de “assassino” choveram sobre Alberto como flechas com curare

DR Afonso de Melo 04/04/2019 23:06

Pelo terceiro ano consecutivo, os leões atiravam os encarnados para fora da Taça de Portugal, desta vez com uma vitória por 3-1. A façanha nunca mais se repetiu. Afinal, o sorteio não costuma ser tão fértil em casamentos contínuos.

No fim desta sequência de episódios de confrontos entre Sporting e Benfica para a Taça de Portugal, há que registar uma façanha leonina difícil de igualar até porque o sorteio não tem por hábito contribuir para casamentos contínuos. Em três épocas consecutivas, 1975-76, 1976-77 e 1977-78, os de Alvalade eliminaram os da Luz. Convenhamos que já não é simples termos três dérbis consecutivos para a Taça, quanto mais todos decididos a favor do mesmo. Reparem: 28 de março de 1976, 5.a eliminatória, Sporting, 1 – Benfica, 0 (após prolongamento); 12 de março de 1977, oitavos-de-final, Sporting, 3 – Benfica, 0 (o tal jogo dos três golos de Manoel que passou a ser Manoooel e que ainda ontem revisitámos aqui, nestas suas páginas); 5 de março de 1978, quartos-de-final, Sporting, 3 – Benfica, 1. Dirão os benfiquistas perante os factos irrefutáveis que os leões tiveram a danada fortuna de jogarem em casa as três eliminatórias. Bem verdade. Mas também nos conta a história do futebol português que Alvalade até costuma ser um estádio no qual os encarnados se dão bem e veja-se o que recentemente sucedeu para o Campeonato Nacional.

Ponhamos de lado as habituais tranquibérnias clubísticas. Aliás, nem o Sporting acabou por tirar muito proveito destas três eliminações do seu rival preferido já que apenas conquistou a Taça de Portugal da qual falamos aqui, a de 1977-78, numa final frente ao FC Porto que obrigou a jogo de desempate que até veio a embaraçar uma famosa deslocação à China programada pelo presidente João Rocha.

Sentimentos contraditórios Quando, antes do início do jogo, Rui Jordão foi trazido de maca para um lugar junto à linha lateral, um fogacho de fúria tomou conta dos adeptos do Sporting e os insultos caíram sobre Alberto como flechas impregnadas do terrível veneno curare lançadas pelos arcos dos índios kachúyana lá no Amapá. Houve quem não deixasse passar tal em claro: “Quem teve a ideia demagógica de explorar a lesão de Jordão, trazendo-o para a pista de atletismo, e criar um estado de espírito cruel na assistência leonina, prestou um mau serviço ao futebol. Alberto ouviu em coro o nome de assassino. Ele não é um exemplo de meiguice. Pertence àquele grupo de jogadores a que os adeptos chamam duros, ou brutos, mas não é, com certeza, nenhum caso patológico que entre em campo para partir pernas aos adversários”.

O azar de Alberto (neste caso, bem mais azar de Jordão) já tinha dado pano para mangas. Mas o desafio de Alvalade ficou definitivamente marcado por aquele incidente e pela imagem do avançado do Sporting, de canela engessada, ali à margem da relva.

Talvez diminuídos pelo ambiente agressivo, os defesas do Benfica pareciam perdidos. Humberto mantinha-se firme, do alto da sua classe, mas Bastos Lopes andava entontecido com as movimentações felinas do maliano Keita e com as arrancadas bruscas de Manuel Fernandes que, ao passar da meia hora, já tinha granjeado uma confortável vantagem de 2-0. Manoel, que fora o grande herói do ano anterior, bufava na busca nem que fosse de um golo solitário, mas seria Salif Keita a fazer o 3-0, logo aos 10 minutos da segunda parte, ameaçando uma goleada inicialmente muito pouco crível.

O Benfica tentou reagrupar-se. Sob as ordens de Toni e com a ajuda de Shéu e de Pietra no centro do terreno. Mas Celso, Nené e Cavungi iam sendo facilmente bloqueados pelo arreganho de Artur, Laranjeira, Meneses e Manaca.

O jogo tornou-se rijo. Alberto tinha os pés descalços sobre as brasas ferventes dos assobios e dos insultos. Não sabia se ir ou não ir, temia os resultados de alguma entrada mais descuidada. Paulo Emílio, treinador brasileiro do Sporting, fez entrar Freire, apostando mais no contragolpe, mas seria Humberto Coelho a reduzir numa daquelas intervenções ofensivas que definiram o seu estilo. Pelo terceiro ano consecutivo, o Sporting tirava o Benfica da Taça. Não mais se repetiu.

 

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