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Mel. Seca, incêndios e vespa asiática afetam produção

Mel. Seca, incêndios e vespa asiática afetam produção

Dreamstime Daniela Soares Ferreira 04/04/2019 20:38

Desde 2017 que a produção de mel no nosso país está em queda. Dados do Instituto Nacional de Estatística são confirmados ao i por apicultores que exigem mais ajudas. Ainda assim, o número de produtores tem aumentado.

Porque tem caído a produção do mel em Portugal? A Federação Nacional dos Apicultores de Portugal (FNAP), a Associação dos Apicultores da Beira Alta (AABA) e a Associação dos Apicultores do Nordeste do Alentejo (Apilegre), contactados pelo i, não têm dúvidas: na origem desta queda encontram-se a seca, os incêndios e a vespa asiática.

Os números do Instituto Nacional de Estatística (INE) naõ deixam margem para dúvidas: em 2016 para 2017 houve grandes quebras nas várias regiões do país.

Ao i, Manuel Gonçalves, diretor da FNAP, garante que parte do fenómeno é consequência da prolongada seca e graves incêndios que afetaram Portugal há dois anos. “Apesar de pequeno, Portugal é um país com bastante diversidade climática e de ecossistemas, o que justifica as diferenças de produtividade verificadas nas explorações apícolas das diferentes regiões do país”, afirma, acrescentando que os fenómenos meteorológicos são preocupantes. A apicultura portuguesa é uma apicultura “de áreas naturais e de flora silvestre, logo bastante dependente do clima”, adianta Manuel Gonçalves, explicando que “a indefinição das estações anuais, os períodos de seca prolongada ou as vagas de calor e frio fora da sua época normal, têm consequências bastante graves para o efetivo apícola nacional”. Estes são fatores que, ao diminuírem as épocas de floração, dificultam o desenvolvimento das colónias.

Também Ricardo Raposo, técnico apícola da Apilegre e apicultor, considera que as condições meteorológicas, a aplicação de fitofármacos – produto químico utilizado para combater e evitar pragas e doenças agrícolas – e “um regime de desmatações sem qualquer nexo” são um grande entrave à produção de mel, que em 2018, na região nordeste do Alentejo, manteve valores equivalentes aos de 2017, garante.

Apesar de ainda não serem conhecidos os dados finais da produção de mel referentes a 2018, Henrique Machado, apicultor e membro da AABA, diz que vem sentindo uma queda desde o início de 2017. “Em média cada colmeia produzia cerca de 20 quilos de mel, baixando nestes últimos dois anos para os 12 quilos de produção”, revela. Uma tendência que pretendem contrariar.

Para o responsável, a quebra da produção deve-se à instabilidade climática verificada tanto na primavera como no inverno. Mas não só: os pesticidas e as vespas asiáticas são um grande problema que tem que ser combatido.

Vespa asiática é problema A juntar aos fenómenos meteorológicos e aos incêndios, a vespa velutina – conhecida como vespa asiática – é um dos grandes problemas para as colónias de abelhas. Dada a sua dimensão e o facto de ser carnívora, a vespa asiática dizima colónias de abelhas.

“A vespa velutina condiciona a atividade apícola e diminui a rentabilidade das explorações apícolas, uma vez que o seu controlo obriga a uma alteração no maneio das colmeias”, refere Manuel Gonçalves ao i. O diretor da FNAP explica que é preciso criar armadilhas para capturar estas vespas, o que implica mais visitas aos apiários e, consequentemente, mais custos, “que naturalmente acarretam perdas de produtividade”.

Já Ricardo Raposo diz que a vespa asiática chegou ao Alto Alentejo em 2017, mas a sua influência nas colónias da região só começou a ser sentida no ano seguinte. “Com o aparecimento desta nova praga, as colónias sofrem pesadas baixas e, por consequência, perdem capacidade produtiva, o que muitas vezes conduz à sua morte à fome”.

Na zona de abrangência da AABA, a vespa asiática tem constituído também um problema. A situação exige aos apicultores “um ajustamento contínuo, que exige conhecimento e capacidade técnica, que não estão disponíveis de um momento para o outro, e por isso, em situações de urgência, como a seca, incêndios, vespa velutina, as soluções tardam a chegar e exigem uma grande resiliência por parte dos atores do setor”.

Há mais apicultores Apesar de a produção do mel ter caído, tem sido registado, nos últimos anos, um aumento de produtores, “invertendo-se uma tendência de mais de dez anos de decréscimo”, explica Manuel Gonçalves, que garante que a diminuição de explorações nunca foi acompanhada pelo número de efetivos, “sendo este crescente desde há vários anos”.

No Alentejo, à semelhança do que acontece no resto do país, o número de produtores tem aumentado, “muito à custa dos projetos de investimento”. Quem o diz é o apicultor Ricardo Raposo, que admite ter notado que existem muitos apicultores novos, mas menos apicultores mais experientes.

Também na Beira Alta essa tendência é mantida. Os apicultores têm vindo a aumentar “pelo trabalho que temos vindo a fazer no âmbito da formação técnica dos apicultores e na informação do público em geral”, garante Henrique Machado.

Ajudas insuficientes Quem se dedica à apicultura considera que as ajudas não chegam. Manuel Gonçalves estranha, aliás, que a apicultura seja uma das poucas atividades agropecuárias que não têm subsídios. “Os apoios ao setor apícola resumem-se ao Programa Apícola Nacional, uma ferramenta de apoio comunitária específica, cujo orçamento é inferior a 0,003% do orçamento do PAC”, lamenta. Diz tratar-se de “um setor vital para a agricultura, ambiente e sociedade, apesar de tal importância não se encontrar refletida nos meios e no orçamento que dispõe”.

Também o Alentejo pede mais apoios, “uma vez que os custos com a alimentação artificial aumentaram e muito para compensar as alterações climatéricas e a vespa velutina”, frisa Ricardo Raposo. “Somando todos os custos e contrapondo com os proveitos, a balança começa a estar negativamente balançada”.

Do Alentejo para a Beira Alta, as queixas são as mesmas; a falta de apoios é sentida com preocupação. “Os apoios são claramente insuficientes”, refere Henrique Machado. Para este apicultor, “a apicultura existe muito consubstanciada na resiliência dos apicultores e na relação estreita que existe entre estes e as abelhas, que os levam a procurar manter a sua atividade a custo e muitas vezes sem retorno económico”. O responsável defende ainda que este setor necessita de mais apoio na formação, no apoio técnico no campo, na investigação, nos recursos, na valorização do mel em mercados internacionais, entre outros.

Consumir mais mel nacional Segundo dados da FNAP, o consumo de mel em Portugal é de cerca de 0,6 quilos por ano por habitante, valor que, embora acima da média europeia, é inferior ao consumo de outros países, como é o caso da Alemanha, onde são consumidos 2,2 quilos por ano por habitante.

Manuel Gonçalves acrescenta que “seria importante aumentar este valor, uma vez que isso significaria uma maior dinâmica no mercado nacional”.

A esta necessidade junta-se a importância do consumo de mel português no nosso país, “pois trata-se de um produto de elevada qualidade, de grande riqueza nutricional e sensorial e completamente seguro, na medida em que obedece aos mais rigorosos critérios: os da União Europeia”.

A opinião é totalmente partilhada pela Apilegre, que defende maior sensibilização voltada ao consumidor para que consuma mel nacional “e não uma mistura de méis muitas vezes provenientes de fora da CE e sem qualquer qualidade”.

Henrique Machado concorda: o mel “está cada vez mais valorizado no produtor”. E remata: “O consumidor de mel quer no mercado nacional quer no mercado externo aprecia o mel português pela sua elevada qualidade”.

 

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