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O caos britânico que não vai acabar tão cedo

O caos britânico que não vai acabar tão cedo

Ricardo Cabral Fernandes 29/03/2019 13:43

O Reino Unido deveria abandonar hoje a União Europeia, mas nada correu pelo melhor e a saída foi adiada para, no máximo, 22 de maio. De 2016 para cá, foram três anos de crises políticas consecutivas e May conseguiu resistir-lhes, mas até quando? O Parlamento britânico vota hoje o acordo pela terceira vez.

O Brexit deveria acontecer hoje, 29 de março, mas, entre avanços e recuos, bloqueios e desbloqueios, acabou por ser adiado até, no máximo, 22 de maio. Hoje, os deputados vão votar uma terceira vez o acordo negociado entre a primeira-ministra britânica, Theresa May, e Bruxelas, anunciaram ontem membros do Governo. Mas a incerteza, característica a todo o processo, mantém-se: não foram agendadas mais negociações com o Partido Unionista Democrático, o parceiro de coligação de May, para que altere o seu sentido de voto e aprove o acordo – a salvaguarda na fronteira entre as duas Irlandas é assunto primordial para o partido norte-irlandês e Bruxelas já disse que não será renegociada. May quer ver o acordo, por duas vezes rejeitado pelos deputados, aprovado e, para isso, até já garantiu abandonar a liderança do Governo para que assim seja.

O Parlamento britânico tomou o controlo do processo de saída da União Europeia e a líder britânica está hoje mais frágil que nunca – conseguiu sobreviver a constantes e repetidas crises nos últimos três anos. Por sua vez, os deputados conservadores pró-brexit, liderados por Jacob Rees-Mogg, até já se lhe juntaram nos apelos à aprovação do acordo e, agora, tudo depende do Partido Unionista Democrático. Rees-Mogg receia que sem a aprovação do acordo que sempre disse ser “péssimo” a saída não se concretize. Ontem, numa viragem de 180 graus, Rees-Mogg voltou atrás com a palavra e disse que irá votar contra o acordo se o DUP não alinhar com May.

A história do Brexit começou bem antes do referendo de 2016, há décadas com o crescente ressuscitar do velho euroceticismo que nunca abandonou a política britânica – recordem-se as palavras da então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, de querer recuperar o dinheiro britânico. Mas a hecatombe do Brexit começou concretamente quando o então primeiro-ministro britânico, David Cameron, prometeu submeter a referendo a permanência do Reino Unido na UE para ganhar as legislativas desse ano – queria aplacar a ala eurocética nas suas fileiras, travar o crescimento do UKIP de Nigel Farage e obrigar Bruxelas a renegociar o estatuto de Londres no projeto europeu. Ganhou e cumpriu a promessa que fez, mas, ao contrário do que esperava, os brexiteers ganharam o referendo – 51,89% contra 48,11%. “Estamos fora da UE”, dizia a manchete do Daily Express no dia a seguir ao referendo, enquanto o Daily Mirror parece ter acertado na muche: “Então, o que raio acontece agora?”. Já o Guardian escreveu na sua primeira página: “Acabou. E fora”. Três anos depois, os jornais europeus não pintam uma boa imagem: “O Brexit do caos”, diz o espanhol La Razón na sua capa, enquanto o alemão Der Tagesspiegel garante que “Britânicos enfrentam um Brexit caótico” e o italiano La Repubblica afirma “Brexit – May à beira do Abismo”.

 

May a defender uma causa em que não acredita

Conhecido europeísta, Cameron acabou por se demitir para não ser obrigado a negociar com Bruxelas algo que recusava politicamente. Em seu lugar, surgiu Theresa May, europeísta convicta, e desde que entrou pela primeira vez em Downing Street que não tem tido vida fácil. Viu-se obrigada a ir a eleições e ganhou-as, mas não com maioria absoluta, coligando-se com o DUP. Depois vieram rebeliões na bancada conservadora, moções de censura, demissões de ministros, intransigência de Bruxelas no processo negocial, manifestações nas ruas, ameaças do DUP de fazer cair o Governo, acordo chumbado na Câmara dos Comuns, exigências de um segundo referendo. A cada nova crise pensava-se que May não iria aguentar até ao final do dia, mas, surpreendendo tudo e todos, lá resistia, pelo menos até à próxima crise.

A líder britânica viu-se constantemente encurralada entre a sua bancada e aliados e Bruxelas, enfrentando várias frentes em simultâneo e, pelo meio, não conseguiu evitar a sua crescente fragilização. Optou sempre por seguir o seu próprio caminho – o roteiro de saída do Plano Chequers – até ser obrigada a recuar e a aceitar que alterações ao acordo e um adiamento do prazo de saída seriam necessários. Bruxelas disse-lhe que não negociava, os seus aliados não aceitaram o acordo tal como está e May não conseguiu agradar a gregos e a troianos. Acabou por perder o controlo do processo para a Câmara dos Comuns.

A sociedade britânica, por seu lado, está mais dividida do que nunca nas últimas décadas e as linhas que durante anos separaram as bancadas parlamentares esbateram-se. Nas ruas, manifestações contra e pró-Brexit sucedem-se, com a última a ter mais de um milhão de pessoas a pedir a permanência na UE. No Parlamento, há eurocéticos e europeístas nos conservadores e nos trabalhistas, com cada ala a aliar-se com a sua homóloga em votações, baralhando a aritmética parlamentar – a criação do grupo parlamentar independente, que possui tanto ex-conservadores como ex-trabalhistas, é disso exemplo. Uma parte quer uma saída sem acordo, outra uma saída com acordo, uma terceira parte quer um segundo referendo e uma quarta simplesmente não quer abandonar o projeto europeu. As sessões do Parlamento mostram a confusão que reina – “Orrrdeeeer!”, ouve-se o presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, a dizer constantemente. Houve até sessões em que moções contraditórias chegaram a ser aprovadas.

A credibilidade do sistema político britânico e dos seus partidos erodiu-se. O Governo mostra-se, garante o Politico, incapaz de governar, o Parlamento não se entende e, segundo uma sondagem da YouGov, apenas 9% dos britânicos acredita que o sistema político não está quebrado. Bandeira rapidamente levantada pela meia dúzia de deputados que integram o grupo parlamentar independente: “[Queremos] oferecer uma alternativa adequada à política gasta oferecida pelos principais partidos”, disse o porta-voz do grupo, Chuka Umunna, pouco depois da sua formação. O grupo não tem programa político, mas apenas valores e a força que detém no Parlamento – é o quarto maior grupo parlamentar com os Liberais Democratas – é algo a ter em conta por May precisar do maior número de deputados ao seu lado. O Brexit poderá garantir a alegada independência da apelidada “burocracia de Bruxelas”, como Nigel Farage a classificou, mas as suas ondas de impacto far-se-ão sentir nas suas instituições.
A democracia britânica não está em risco, mas não voltará a ser a mesma.

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