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Salvador nasceu bem. Família e amigos despedem-se de Catarina

Salvador nasceu bem. Família e amigos despedem-se de Catarina

Marta F. Reis 28/03/2019 21:32

Funeral da jovem de 26 anos, que nos últimos  três meses foi mantida ligada às máquinas para que o seu filho pudesse viver, realiza-se esta  sexta-feira na igreja de Crestuma, a vila onde cresceu. Médicos tiveram de antecipar a cesariana  de urgência, mas não houve complicações.  

 

O parto teve de ser antecipado de urgência, mas tudo acabou por correr sem complicações. Salvador nasceu às 4h32 da madrugada desta quinta-feira com 1700 gramas, um sucesso clínico numa história de muita dor. Nos últimos três meses, a mãe, Catarina Sequeira, foi mantida ligada às máquinas para que o filho pudesse viver, depois de sofrer uma ataque de asma fatal no final de dezembro. O funeral da jovem de 26 anos realiza-se esta sexta-feira, pelas 15h, na capela mortuária da vila de Crestuma, Vila Nova de Gaia.

Em conferência de imprensa, os médicos do Hospital de S. João, para onde Catarina foi transferida já em morte cerebral do Hospital de Vila Nova de Gaia e onde o caso esteve a ser seguido no último mês e meio, explicaram que a cesariana que estava planeada para esta sexta-feira teve de ser antecipada por terem sido detetadas alterações nos sinais da criança, que acabaria por nascer bem. Foi possível levar a gestação com a mãe em suporte artificial de vida até às 31 semanas e seis dias, um parto prematuro que significa maior risco de complicações e maior necessidade de apoio ao bebé, que vai continuar internado no serviço de neonatologia do hospital. Os bebés que nascem antes das 32 semanas, a meta que a equipa queria alcançar, são ainda considerados muito prematuros. 

A equipa médica do S. João fez saber que o pai da criança acompanhou todo o processo e esteve com o filho desde o momento do parto. Filipe Almeida, o médico que dirige a comissão de ética e o serviço de humanização do Hospital de S. João, disse que a decisão de prosseguir a gestação, mesmo sendo irreversível a situação da mãe, foi, desde o início, apoiada pela família. “Apesar de tudo conseguiu-se aquilo que era o objetivo primordial, levar esta gravidez tão longe quanto possível perante uma ponderação dos riscos aceitáveis”, afirmou o médico, que indicou que neste momento o pai é o responsável direto e único pela criança.

Nos últimos dias apenas a mãe de Catarina, Maria de Fátima Branco, falou publicamente sobre os acontecimentos dos últimos meses, mostrando vontade de homenagear Catarina. Numa entrevista à CMTV, lembrou a filha como uma jovem muito responsável, que vivia o momento e nunca se deixou ir abaixo mesmo quando tinha crises de asma: “A Catarina era até à última, nunca estava doente.” Lembrou também a relação de grande proximidade que tinha com o irmão gémeo e falou de um momento de dor e revolta. “É preciso muita estaleca para aguentar com isto. Que não me apontem o dedo, se não querem compreender, não compreendam, mas que tenham um bocadinho mais de respeito pelas pessoas e meçam as palavras. Isto não é um programa de entretenimento, foi uma coisa que me aconteceu a mim e que futuramente poderá acontecer a outra mãe”, disse Maria de Fátima Branco. Sobre o futuro de Salvador, a avó materna afastou um cenário de conflito. “Não quero igualar pai ou avó porque isso não tem nada a ver, nem quero competir porque isso não é amor. O amor é cuidar, é sentir, é palpável muitas das vezes, outras vezes não, principalmente é sofrer”. 

O caso de Catarina torna-se a segunda gestação com a mãe em morte cerebral acompanhada em Portugal, depois do nascimento de Lourenço Salvador em  junho de 2016. Na altura, a mãe Sandra Pedro foi mantida 107 dias ligada às máquinas. Catarina esteve 90 dias em suporte artificial de vida. O caso mais longo foi registado no Brasil em 2017 e permitiu o nascimento de dois gémeos. Frankielen Zampoli, de 21 anos, foi mantida ligada às máquinas durante 123 dias e Asaph e Ana Victória nasceram saudáveis num hospital de Curitiba. 

Catarina foi canoísta do Douro Clube Canoa durante toda a adolescência, tendo deixado de competir em 2014 quando começou a trabalhar. O treinador José Cunha lembrou ao i uma jovem extrovertida e persistente. “Chegava a fazer dois quilómetros a pé diariamente para vir aos treinos”, contou o treinador. A asma nunca foi uma limitação nas provas, que lhe valeram 41 medalhas. “Houve uma altura em que a colega de tripulação dela era também asmática e chegámos a ter de ir ao centro de saúde mas com a Catarina não”, recordou. 

Para a mãe, Catarina teve uma vida plena. Mostrou sempre o desejo de ser mãe, ainda que esta não tivesse sido uma gravidez planeada. “Aprendeu a andar a cavalo, tirou a carta, conseguiu uma casa, conseguiu ter a sua independência financeira, conseguiu fazer algumas viagens e principalmente conseguiu dar felicidade a muita gente.”

 

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