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Marco Graça.“Na improvisação dizemos que não há erros, há novas oportunidades”

Marco Graça.“Na improvisação dizemos que não há erros, há novas oportunidades”

Mafalda Gomes Mariana Madrinha 28/03/2019 16:06

Desde 2012 que o Festival Espontâneo celebra a arte do improviso, em que os artistas sobem ao palco sem rede ou guião. A oitava edição começa hoje em Sintra

Subir para cima de um palco com um texto debaixo da língua é sempre um desafio. Subir para cima de um palco sem qualquer suporte, contando apenas com o dom do improviso: para tal, não há ensaios, mas há muito treino. Há alguns mandamentos a cumprir e é preciso muita técnica, conta Marco Graça, improvisador e diretor do Espontâneo, o festival de teatro de improviso que começou na sala de um quartel de bombeiros em Mem Martins e que, à sua oitava edição, é um festival de referência internacional que já não consegue receber todos os improvisadores que aqui querem vir partilhar a sua arte. Já tiveram artistas de todo o mundo e esta edição, que conta com companhias vindas do Brasil, México e Irlanda, entre outros países, não é exceção. O Espontâneo, que está nomeado para o Iberian Festival Awards 2019, na categoria de Melhor Festival Não Musical, arranca hoje no Centro Cultural Olga Cadaval, em Sintra. O programa completo pode ser consultado na página seguinte.

O que é ser um improvisador?

É difícil responder à pergunta porque a improvisação como um todo, como um conceito geral, é um processo. Todos nós improvisamos. Aquilo que faz um improvisador é tornar esse processo instintivo consciente através de regras.

É sempre preciso uma base para o improviso ou podemos improvisar a partir de nada?

Nunca se improvisa a partir de nada, porque o nada, já divagando para conceitos muito filosóficos, nunca existe. O que existe é algo que pode ser o início de muitas outras coisas. Esse é sempre o processo da improvisação. Há um pequeno gatilho, um pequeno acontecimento que, através da aceitação constante de tudo o que está à nossa volta, é transformado numa outra coisa. É por isso que é um processo em que tudo é permitido – e é também por isso que estava a fazer a distinção entre o que é um improvisador e o que é o improviso.

Como foi o seu percurso profissional até se tornar improvisador e, depois, diretor do Espontâneo?

Tive formação artística no Chapitô, depois vivi em Itália, durante algum tempo, onde continuei com a formação artística, mais virada para as técnicas de clown. Quando volto a Portugal, já tinha tido contacto com a improvisação teatral em Itália. 

Falamos de que ano?

De 2007. O panorama de teatro de improviso era inexistente cá. Conhecia muitos outros atores e pessoas na área artística com quem já trabalhava e resolvemos, em 2010, juntar um grupo e chamar um formador argentino que vive em Madrid e que tem uma companhia muito aclamada. Eu já tinha feito essa formação com ele. Então ele veio cá, deu a formação, e dessa formação nasce o núcleo duro que são os Instantâneos.

Como partiram depois para a formação de um festival que tem crescido de ano para ano e já foi nomeado para os Iberian Festival Awards na categoria de Melhor Festival Não Musical?

A resposta para começarmos a fazer um festival está na minha resposta anterior: era a falta de formação. Quando cheguei e vi um panorama de improvisação que não me dizia nada, que não era o tipo de improvisação que eu procurava fazer...

Era muito ligada à comédia?

Exato. Não tenho nada contra a comédia, muito pelo contrário, mas queria ter uma abordagem diferente. Juntei--me a esse grupo e chegámos imediatamente à conclusão de que, para continuar, tínhamos de ter mais formação. E veio o festival.

Nada de improviso no percurso, portanto.

Não, não é possível ser de outra forma. Vamos lá a ver, nós temos aquilo a que eu, de uma forma corriqueira, posso chamar uma enorme lata, porque pedimos às pessoas para comprarem bilhetes para um espetáculo que não sabemos como vai ser nem o que vai acontecer em palco. Mas pedimos às pessoas para confiarem. Ora, quando fazemos isto, não podemos de maneira nenhuma chegar a um palco, fazer umas coisas e agradecer. Queremos mostrar um trabalho consistente e que, apesar de não ter guião, tenha a mesma qualidade de um espetáculo teatral dito convencional. Aquilo que as pessoas vão ver, esse processo de encenação, essas personagens e o texto são todos criados ali, naquele momento.

Então como mantêm a qualidade que esperam oferecer às pessoas? Acontece a meio pensarem que não está a correr nada bem?

Já aconteceu sentirmos que aquilo que estamos a entregar não está no nível de que gostaríamos. Há dias, como em tudo. Mas dizemos, de brincadeira, que temos os mínimos olímpicos, e esses mínimos olímpicos têm de ser bons. Há um improvisador norte-americano que dizia que a improvisação é muito comparável a fazer amor, ou seja, mesmo quando é mau é bom, mas quando é bom é muito bom. Temos sempre essa lógica connosco. Porquê? Ponto número 1: a improvisação envolve o público. Só isso, o facto de o público não ser passivo, transfigura o olhar sobre o que está a acontecer em palco. Depois, trabalhamos com a informação que o público nos dá, o que nos liga de uma maneira muito diferente do teatro convencional. E isso é sempre muito bom. 

E é inevitável resvalar sempre para a comédia?

Depende do que entendemos por comédia. Chamamos ao Espontâneo Festival de Teatro de Improviso, apesar de batermos muito na tecla de que é um festival de comédia de improviso. Para já, porque a comédia facilita a comunicação com as pessoas. O teatro ganhou esta fama tenebrosa de que as pessoas sentem que vão lá e não percebem nada do que se diz, acham tudo muito metafórico. Então usamos a comédia para abrir a porta ao público, para não assustar as pessoas. Mas a verdade é que todos os espetáculos, sem exceção, têm uma componente cómica muito forte que surge de algo que acontece constantemente num espetáculo de improviso, e que é o erro. Na improvisação dizemos que não há erros, que há novas oportunidades. Se cai alguma coisa em palco, isso passa a fazer parte da cena. Se, no calor do momento de uma cena improvisada, me engano a falar, a minha personagem, a partir desse momento, vai sempre enganar-se naquela palavra.

O erro é aproveitado para construir in loco a personagem.

Sim, e daí a técnica ter de ser muito trabalhada. Tudo aquilo que é dito e feito em palco é importante, tudo aquilo que acontece foi logo visto pelo público, portanto tem de fazer parte da cena. Logo, não há erro. Nada pode acontecer ali com essa lógica. Ainda há pouco tempo, a convite d’Os Improváveis, estávamos a fazer uma cena em conjunto e a minha personagem enganou-se: em vez de chamar a uma outra personagem chefe, deu-lhe um outro título qualquer. A partir daquele momento, a minha personagem dava títulos estranhos a toda a gente, chamava capitão, general, enfermeiro-mor... Uma das condicionantes passou a ser aquela e aconteceu por um engano meu. 

É preciso trabalhar imenso a memória, certamente.

Também, mas tudo isto é treino. Ensaiamos muito – e, aqui, ensaio é sinónimo de treino – uma série de elementos. 

Que são?

A escuta; a aceitação – tudo o que me é dito em cena, eu aceito; eu tenho de contribuir, isto é um pingue-pongue, eu não posso ver a bola vir só para o meu lado e não responder. Depois há o não julgamento de ideias, quer o autojulgamento quer o julgamento das ideias dos outros; há que saber que não estamos a controlar, que é uma batalha entre as pessoas que estão em cima do palco para ver quem ganha esse controlo e, na verdade. ninguém o ganha. Estas são as regras fundamentais da improvisação. Depois há aquelas que parecem muito simples e quase não regras, que são divertirmo--nos e estar no momento, completamente entregues. 

Para um teatro dito normal há uma série de horas de ensaio. No vosso caso, quantas horas de treino são precisas para o que vão, por exemplo, fazer agora no festival?

Ensaiamos todas as semanas, pelo menos quatro horas semanais. Já passámos por vários locais diferentes e, neste momento, estamos a ensaiar em Sintra, no Centro Olga Cadaval. Juntamo-nos todas as semanas para ensaiar, muitas vezes sem plano de ensaio.

Só para porem o método em prática.

Sim, porque trabalhamos também a cumplicidade entre nós. Claro que entre os quatro elementos dos Instantâneos, até porque já nos conhecíamos antes, há uma relação pessoal, mas para improvisar com alguém não é sequer preciso conhecer a pessoa, que é o que acontece no festival.

Mas tem de se confiar de alguma maneira no parceiro, certo?

Nós confiamos que a linguagem é a mesma. Há uma improvisadora inglesa, a Kathy Schutte, que diz no seu livro que é uma pessoa muito tímida, sem grandes relações sociais, mas que se um improvisador do outro lado do mundo lhe ligar e lhe disser ‘queres vir ao meu festival?’, ela vai sozinha, sem medo de nada. Existe esta lógica – falamos a mesma linguagem e trabalhamos a mesma filosofia. Em palco, sei que se disser alguma coisa, isso vai ser aceite – e a partir daí começamos a jogar e a construir juntos. 

Este ano, no Espontâneo, teremos pessoas de que países?

É o maior elenco de sempre do festival. Na décima edição queríamos fazer uma coisa em grande, e entretanto faltam-nos duas edições para chegarmos até lá. Falo da décima porque estamos a elaborar um documentário sobre improvisação teatral, tendo Portugal como o centro gravitacional. 

Começaram em 2012. Como faltam apenas duas edições para esse número?

Houve aqui um ano em que o espaço entre um festival e outro foi muito curto, foi menos de seis meses. O festival acontecia quase no verão e nós quisemos puxá-lo mais para o início do ano; por isso, completa as dez edições de uma maneira estranha. Voltando à questão, este ano temos o maior elenco de sempre. Nunca tivemos tanta gente cá. Temos uma presença muito forte do Brasil, com duas companhias, ambas muito conhecidas e que têm marcado muito a diferença na cena do improviso de São Paulo, o Grupo Risco e os ImproMime; depois temos países que nunca cá estiveram, como é o caso da Irlanda, da Letónia e da ilha da Reunião, que é território francês mas fica no continente africano. É a primeira vez que temos cá a presença de uma companhia de improviso africana, algo que procurávamos há muito e que é difícil encontrar. Temos também repetentes, como é o caso da Argentina, Itália, Inglaterra e ainda o México.

Quais são os países que têm mais tradição de improviso?

A improvisação divide-se, na minha opinião, em dois polos grandes: a América do Norte, incluindo os Estados Unidos e o Canadá, e um outro bloco da América Latina. E os dois, falando a mesma linguagem técnica, criaram duas vertentes da improvisação completamente díspares.

De que forma?

Os EUA têm uma vertente cómica muito forte, o improv.

Que não está ligada à standup comedy?

Não está. Apesar de partilharem os mesmos palcos nos clubes de comédia, são dois mundos que não se tocam. Há muito essa ideia por causa da nudez que há de quem faz improviso, ou seja, é pouco teatral, as pessoas vão para o palco como estão vestidas, mas é a única semelhança. Já na América Latina há uma linguagem muito teatral, com cenário, com temáticas inspiradas em obras literárias, por exemplo, mas são duas escolas completamente diferentes. 

Há quanto tempo faz improvisação?

De uma maneira mais consciente, diria que desde 2010. Já fazia antes, mas sem bases sólidas. Em 2011, que foi quando surgiram os Instantâneos, posso dizer que é o nascimento da minha carreira como improvisador. 

Só faz isto?

Sim, só faço isto da vida em palco. Depois, nos Instantâneos temos a outra parte que nos dá dinheiro, que é trabalhar em eventos de empresa. 

Certamente já viveu situações muito divertidas e até caricatas em palco. Recorda algum improviso que o tenha levado a um sítio que queira aqui recordar?

É difícil, são todas tão únicas. De repente, não me recordo de nenhuma.

E não improvisa nenhuma?

(Risos) Nós fazemos aquilo com uma tal rapidez, com tantas sinapses cerebrais, que quando acaba parece que fizemos uma maratona e, por vezes, não nos lembramos do que fizemos, é branco, é zero. Temos sempre situações curiosas, com as pessoas a darem-nos sugestões da vida pessoal, ou da vida da empresa em que trabalham, histórias tão mirabolantes que tornam difícil nós criarmos uma coisa que se equipare à realidade. Isto porque muitas vezes pedimos às pessoas que partilhem connosco histórias, e essas histórias são as bases para o que criamos.

É mais fácil partir para cima de um palco com ou sem texto?

A minha visão é: quem faz com texto acha sempre que é mais difícil não ter nada e ir para cima de um palco fazer alguma coisa. Já quem não está habituado a trabalhar com texto acha muito mais fácil. Fiz algumas pequenas incursões na standup comedy e deixei de fazer porque ficava de rastos com os nervos. O texto tinha de estar lá, a respiração, a vírgula. No standup tudo parece fluido mas, na verdade, é tudo pensado, todas as respirações são pensadas. E esse não é o meu ritmo cardíaco, uma vírgula fora do sítio estraga uma piada. Já tivemos espetáculos dos Instantâneos em que tivemos algumas partes com textos que quisemos incorporar – para mim, é-me difícil.

O que podem esperar as pessoas do Espontâneo?

Descoberta de espetáculos que elas não imaginam que podem ser possíveis de acontecer. Musicais da Broadway improvisados, música de cabaré improvisada, espetáculos de mímica muito divertidos e improvisados. Tudo é completamente improvisado. Acho que é a descoberta que pode levar as pessoas a saírem dos espetáculos com a dúvida de que viram algo improvisado, mas completamente rendidas à qualidade daquilo que foi feito em palco.

Acontece muitas vezes as pessoas terem dúvidas se estão perante um improviso ou algo ensaiado?

Muitas, muitas. No verão, com os Instantâneos, fizemos espetáculos que abordavam a obra de Edgar Allan Poe, quisemos fazer uma abordagem mais séria, entre aspas, a este tipo de improviso, e chegámos à conclusão de que tínhamos de reforçar no início do espetáculo que tudo o que as pessoas iam ver era improvisado. Porque, no final, as pessoas faziam comentários do tipo: “Pois, mas eles de certeza que combinam algumas coisas”. Tudo aquilo era criado no momento. Acho que, quando esta dúvida surge, é uma boa dúvida, porque quer dizer que chegámos ali com nada e devolvemos um espetáculo muito bom. 

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