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Afonso de Melo 28/03/2019
Afonso de Melo

afonso.melo@ionline.pt

Catão morreu de velho

No meio de toda este ataque de suposições infrenes, veio-me à memória Catão, Catão o Velho, o pertinaz advogado que no Senado da Roma Antiga 

DE VEZ EM QUANDO tenho uma irresistível tendência para supor. Ora bem, num destes mais recentes ataques de suposição supus que me tinham oferecido dinheiro (vá lá, cem mil euros...) para matar alguém, ou para o deixar em coma, já não me recordo. Como não tenho curso de anestesista, não sei como condenar uma pessoa ao coma sem correr o risco de a matar, mas a culpa é minha: tivesse estudado.

Confesso que tenho tanta tendência para o homicídio como para receber cem mil euros: nunca passei por nenhuma dessas experiências. Não é que a verba não desse jeito, mas teria de recusar a oferta por manifesta incompetência no ofício de liquidar terceiros. Suponho, como supus, que por uma questão de solidariedade entre seres vivos, sejam de que raça forem, mesmo que não simpatizasse com a suposta vítima do meu suposto ato, tentaria de alguma forma avisá-la de que podia estar por pouco: recusando eu os cem mil euros, outro os aceitaria de bom grado logo a seguir, continuo eu a supor. Suponho que, no Portugal de hoje, se alguém receber uma proposta deste género tem duas opções: ou dirigir-se ao Ministério Público ou aos estúdios da CMTV, o que, vendo bem, vai dar quase ao mesmo, já que o que entra pela porta do Ministério Público costuma sair pelas janelas da CMTV nas 24 horas seguintes.

No meio de toda este ataque de suposições infrenes, veio-me à memória Catão, Catão o Velho, o pertinaz advogado que no Senado da Roma Antiga repetia até ao exagero da contumácia que as Guerras Púnicas só teriam fim com a destruição da inimiga Cartago. “Carthago delenda est!”

A antiga Roma era dada a assassinatos por dá cá aquela palha e não consta que fosse preciso desembolsar verbas exageradas. Catão o Velho morreu dessa sua tão peculiar característica: a velhice. Lá está, se alguém está a pensar oferecer-me cem mil euros para matar outrem, o mais provável é que a minha putativa vítima também venha a morrer de velha. Questões de feitio.


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