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Filipe Baptista 28/03/2019
Filipe Baptista

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La famiglia

Por muita matéria humorística que este tipo de novela possa dar, e dá e pode ter mesmo muita piada, não deixa de ser mesquinho que se tente levar um tema de humor para a esfera da decência e da seriedade.

Nem tinha dado pelo tema, não fosse Ricardo Araújo Pereira a satirizar a situação. Refiro-me à vaga de fundo que se tem criado em torno de algumas nomeações políticas no atual governo.

Parece que só agora esta questão se tornou um caso. Parece que este governo não faz mais nada que promover uma espécie de conluio piramidal ao estilo da Camorra italiana.

Ao que parece, já está em marcha uma petição para uniformizar os curricula, no sentido de criar mais um campo onde se deve indicar a filiação e demais parentescos até ao quinto grau – um campo não de majoração curricular, mas um fator de exclusão.

Assim, para além dos certificados de habilitações, os putativos candidatos a lugares na administração pública (sim, apenas administração pública, porque, no privado, primos, amigos e enteados, tenham ou não habilitações e competência, podem ocupar qualquer lugar independentemente dos estragos que façam) têm de juntar ao processo uma árvore genealógica que permita uma cuidadosa avaliação da linhagem familiar e, deste modo, excluir candidatos com ligações a governantes, administradores ou dirigentes públicos.

Não importa a competência, a experiência ou a confiança na hora da escolha de uma pessoa para um cargo. O importante é que essa pessoa não conheça nem tenha laços familiares com ninguém. Ao que parece, a par da iniciativa da criação do campo da filiação, há ainda uma corrente mais radical que aponta para nomeações apenas de órfãos ou desamparados familiares.

Quando não há mais argumentos, este serve que nem uma luva.

Mas, agora a sério, porque é que este tema nunca foi detetado em governos anteriores? Ou, mais grave, porque é que não foi um tema na banca ou noutros setores onde filhos e enteados ocuparam cargos para os quais não tinham a mínima competência e que, com resultados visíveis e inegáveis, criaram verdadeiros terramotos financeiros e económicos?

Pode sempre justificar-se com o chavão “isso não são dinheiros públicos, é privado”. Não podia ser um argumento mais falacioso, pois quer-me parecer que são os nossos impostos que estão a tapar buracos criados por famílias no setor privado. Mas devo ser apenas eu que penso assim.

No meu entender, a afiliação não pode, nem deve ser determinante na escolha de pessoas para qualquer cargo. Acima de tudo devem estar a competência e a confiança. Sobretudo quando falamos de cargos de confiança política.

Fala-se tanto de discriminação sexual, racial e de género, mas estamos a criar uma nova discriminação – a familiar.

De todas as críticas que choveram nos últimos tempos, existem duas que me causam espécie, por diferentes razões: Mariana Vieira da Silva e Catarina Gamboa. Dois níveis distintos e, por isso, dois tipos diferentes de obstáculos que anulam qualquer qualidade e habilitação que tenham e, a meu ver, totalmente absurdas.

A primeira por ser filha de um repetente governante mas, ao que julgo, consensual e competente nos diferentes cargos que ocupou. Se bem se recordam, choveram elogios aquando da sua nomeação para secretária de Estado. Páginas de jornais se escreveram evidenciando a sua dedicação ao trabalho, que concilia de forma irrepreensível com horas de natação, e como se tornou uma das principais conselheiras do primeiro- -ministro. Agora, como dá jeito, já não é competente, já não é brilhante, já não interessa o percurso académico – foi reduzida a filha de um governante.

A segunda, nem ouvi referências ao percurso académico ou à experiência profissional, é apenas mulher de um outro governante e, por este facto, é inapta para o desempenho de qualquer função, mesmo quando se trata de ser chefe de gabinete de um secretário de Estado, um lugar que, acima de tudo, requer confiança, e que ninguém pode deixar de reconhecer, pois Catarina Gamboa já trabalhava no gabinete de Duarte Cordeiro na Câmara de Lisboa.

Por muita matéria humorística que este tipo de novela possa dar, e dá e pode ter mesmo muita piada, não deixa de ser mesquinho que se tente levar um tema de humor para a esfera da decência e da seriedade.

Pelo sim pelo não, já tratei de deserdar as minhas filhas e de apagar os seus vestígios genealógicos, não vá isso vir um dia a complicar-lhes a vida.

 

Escreve à quinta-feira

 

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