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Michael Jackson. Depois da morte, perdido na Neverland

Michael Jackson. Depois da morte, perdido na Neverland

AFP Cláudia Sobral 25/03/2019 20:01

Por duas vezes, em 1993 e em 2003, vieram a público acusações de pedofilia contra o rei da pop. Nenhuma delas com o impacto que está a ter o documentário de Dan Reed que a HBO estreou no início do mês, em que dois homens relatam as suas experiências na Neverland, o rancho em que Michael Jackson recebeu durante anos crianças com as suas famílias

Uma estátua retirada de um museu no Reino Unido, os Simpsons a removerem um episódio que retratava Michael Jackson. No Canadá, um importante grupo de media a anunciar que as suas rádios deixarão de tocar os êxitos do rei da pop. 

A onda de indignação contra Michael Jackson depois da estreia do documentário da HBO Leaving Neverland, no início do mês, ainda não rebentou. Mas ao mesmo tempo, no sentido contrário, são várias as vozes que se levantam em sua defesa. 

Barbra Streisand, por exemplo, que veio agora emendar o que disse numa entrevista ao Times sobre Wade Robson e James Safechuc, os dois homens em cujos testemunhos se centra o documentário de Dan Reed, autor de documentários televisivos como “Three Days of Terror: The Charlie Hebdo Attacks” (2016), “Frontline Fighting: Battling ISIS” (2015) ou “The Pardophile Hunter” (2014): “Ambos são casados e têm filhos, portanto foi algo que não os matou”, afirmou a cantora e atriz norte-americana numa entrevista em que afirmava acreditar na veracidade das acusações que os dois fazem a Michael Jackson em Leaving Neverland. 

Entrevista em que, mais do que isso, não se coíbe de falar das “necessidades sexuais” do seu amigo como “as suas necessidades sexuais, vindas de seja qual for a infância que ele teve ou seja qual for o ADN que ele tinha.” Ainda ao Times: “Podemos usar a palavra ‘molestados’, mas aquelas crianças… elas estavam radiantes por estar lá.” Na Neverland (Terra do Nunca, em português, a partir da história de Peter Pan), o rancho de Michael Jackson na Califórnia, onde recebia as crianças com as suas famílias, que permitiam que ele dormisse com elas. “Sinto-me mal pelas crianças, sinto-me mal por ele, mas acho que culpo os pais, que foram capazes de permitir que os seus filhos dormissem com ele.”

Dan Reed, que com o filme que acabou de estrear, pela HBO, se lançou numa cruzada para provar o que a Justiça não provou nem década de 1990, quando  Evan Robert Chandler apresentou queixa contra Michael Jackson por alegadamente ter abusado do seu filho, Jordan Chandler, nem em 2003, quando foi acusado por um outro menor, Gavin Arvizo, e absolvido por falta de provas, reagiu de imediato às palavras de Streisand, via Twitter: “Não os matou. Barbra Streisand, disseste mesmo isso?!”

A cantora veio entretanto lamentar “profundamente qualquer dor ou mal entendido” causado pela forma como não escolheu, segundo disse, as suas palavras. “Não quis diminuir de forma alguma o trauma que estes rapazes experienciaram”, afirmou, num comunicado divulgado pela Associated Press. “Como todos os sobreviventes de ataques sexuais, vão ter de carregar isto para o resto das suas vidas. Sinto um remorso profundo e espero que o James [Safechunck] e o Wade [Robson] saibam que os respeito e admiro verdadeiramente por terem apresentado a sua verdade. Para ser clara como água, não há nenhuma situação ou circunstância em que seja aceitável alguém aproveitar-se da inocência das crianças.”

Às voltas com a Terra do Nunca Dividido em dois capítulos Leaving Neverland tem essencialmente por base os relatos de James Safechunck e Wade Robson, mas revela também algumas das cartas além de gravações de conversas entre os dois e Michael Jackson. Entretanto, veio uma antiga empregada de Michael Jackson na Neverland, Adrian McManus, contar, numa entrevista ao Daily Mail, que via relação entre o músico e as crianças como “muito estranha”. E explica: “Eles lutavam pelo amor do Michael. Disseram-me que se falasse disto na televisão contratavam um assassino para me sequestrar, cortar o meu pescoço e esconder o meu corpo. Ele era um manipulador e eu tinha medo. Não podia fazer perguntas”.

A pressão era feita também sobre as crianças, segundo o relato de Robson no filme: “Ele disse-me que se alguma vez alguém descobrisse o que estávamos a fazer, tanto ele como eu iríamos presos para o resto das nossas vidas [...] Quero ser capaz de dizer a verdade tão alto como tive que dizer a mentira durante tanto tempo.”

Ainda antes de o documentário ter estreado, os gestores do património de Michael Jackson apresentaram uma queixa contra o filme que consideram “uma maratona unilateral de propaganda para explorar descaradamente um homem inocente que já não está cá para se defender”. Também a família se apressou a reagir com um comunidado em que acusava a HBO, o realizador e os dois queixosos de “linchamento público”. Bem como os media, com quem dizem estar “furiosos”, por “sem rasto de prova ou evidência física, terem decidido acreditar na palavra de dois mentirosos comprovados ao invés da palavra de centenas de familiares e amigos de todo o mundo que passaram tempo com Michael, muitos deles em Neverland”.

Numa entrevista publicada ontem pelo El País, Reed defende-se: “Não tenho dúvidas de que eles dizem a verdade. A minha equipa e eu verificámos minuciosamente cada informação. Tudo encaixava. Feitas as contas, o que me salva é que o documentário não é sobre Jackson, mas sobre as famílias que ele seduziu.”

 

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