19/9/19
 
 
Alfredo Barroso 25/03/2019
Alfredo Barroso
Cronista

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Eu, mísero nepote, me confesso

Eu – Alfredo José Somera Simões Barroso, nascido em Roma (Itália) filho duma italiana e dum jovem matemático português – sou o exemplo ideal de “nepotismo” familiar, por ser mesmo nepote (e meio italiano!), ainda que por afinidade, do famoso político Mário Soares.

Num dos primeiros dias de março de 1996, no final do segundo mandato de Mário Soares como Presidente da República – era eu chefe da sua Casa Civil e seu porta-voz há dez anos –, cerca de uma dúzia de jornalistas que tinham feito a cobertura das actividades do PR ao longo dos mandatos ofereceram-me, de surpresa, um jantar de singela homenagem num restaurante da Calçada da Ajuda, mesmo em frente da entrada para o Pátio das Damas do Palácio de Belém. Objectivo: exaltar a minha incompetência, a minha total incapacidade de comunicar com eles, a minha manifesta falta de perspicácia e de experiência políticas, sem o que eles nunca teriam atingido o tão elevado grau de competência profissional que os fazia muito respeitados nas redacções dos diferentes órgãos de comunicação social. E por isso me agradeciam penhoradamente, o que me comoveu até às lágrimas.

Foi então que dei por mim a perguntar aos meus botões, já não me lembro se do casaco, da camisa ou das calças, como teria sido possível que Mário Soares – meu tio por afinidade resultante do casamento com Maria Barroso, irmã do meu pai – não se tivesse apercebido, desde que cheguei a Lisboa com 15 meses de vida, vindo de Roma, que a família estava perante uma criança estúpida, incompetente e mesmo mentalmente retardada. Todavia, é certo que Mário Soares passou cerca de quatro décadas da vida de ambos a confiar neste seu nepote, nas mais diversas circunstâncias, antes e depois do 25 de Abril.

Nem se imagina até que ponto foi tal confiança. Tinha eu 15 anos e pediu-me que batesse à máquina (de escrever) vários manifestos da oposição democrática. Tinha eu 17 anos, já a iniciar o curso de Direito, e ele, além de me contratar como regente de estudos, nomeou-
-me bibliotecário da magnífica biblioteca dos alunos do Colégio Moderno. Tinha eu 23 anos e ele, mal tinha chegado da deportação em São Tomé, incitou-me a aderir à Acção Socialista Portuguesa, embrião do PS de que eu iria ser, em 1973, um dos fundadores. Logo a seguir ao 25 de Abril, estava eu a acabar de cumprir o segundo ano de serviço militar obrigatório, e Mário Soares teve o topete de me convidar a acompanhá-lo, no Ministério dos Negócios Estrangeiros, como director dos Serviços de Informação e Imprensa do MNE. Passados dois anos, em 1976, era ele primeiro-ministro do i Governo Constitucional, e incumbiu-me – é certo que por insistência do Vítor Cunha Rego, seu secretário de Estado – de proceder à reestruturação da Presidência do Conselho de Ministros, nomeando-
-me secretário-geral da PCM. Um ano depois, já estava a convidar-me, com grande urgência, a desempenhar as funções de seu chefe de gabinete, ainda durante o i Governo constitucional e, a seguir, durante o ii Governo – baseado numa coligação nada airosa entre PS e CDS. Alguns anos depois, em 1983, resolveu nomear-me – apesar das minhas reticências, mas também por insistência de Jaime Gama e Eduardo Pereira, seus ministros, e com anuência imediata de Mota Pinto, seu vice-primeiro-ministro – secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros do ix Governo Constitucional, famosa coligação “patriótica” entre PS e PSD, cuja corda seria roída por Cavaco Silva mal se viu presidente deste partido e mal viu que o país já estava a salvo da crise e à beira de “toneladas” de vil metal oriundo da CEE (hoje UE). Destruído esse Governo por Cavaco Silva e Ramalho Eanes, Mário Soares pediu-me que eu fosse seu chefe de gabinete na sua primeira candidatura a Belém, em 1985-1986, incumbindo-me de coordenar a propaganda da campanha. Eleito Presidente da República, após uma campanha inesquecível, atreveu-se a convidar-me para ser o chefe da sua Casa Civil e seu porta-voz oficial – coisa que durou dez anos, entre 1986 e 1996.

Sim, não me esqueço que também houve a terrível experiência política que foi a terceira candidatura a Belém, em 2005-2006! É claro que só pode ter sido a minha incompetência, incapacidade e estupidez natural que causaram a derrota de Mário Soares, como ainda por aí sugerem, à boca pequena, alguns “génios” que coleccionaram tachos à sua custa. Mas isso são contas de um rosário que jamais desfiarei, a menos que algum desses “génios” se atreva a pôr os “pauzinhos” de fora, no que eu não acredito…

Mas é verdade que eu – Alfredo José Somera Simões Barroso, nascido em Roma (Itália) filho duma jovem e bela italiana (natural de Treviso) e dum jovem matemático português (natural de Montes de Alvor) a preparar o seu doutoramento na Universidade de Roma – sou o exemplo ideal de “nepotismo” familiar, por ser mesmo nepote (e meio italiano!), ainda que por afinidade, do famoso político Mário Soares. É que sobrinho, em italiano, diz-se nepote (tal como em latim) e o estigma até começou por ser, historicamente, o de “sobrinho do Papa” (seu favorito, seu preferido, seu valido). E daí a pergunta: terá sido ilegítimo e indecoroso Mário Soares ter nomeado este seu nepote por afinidade para os cargos públicos e políticos acima desfiados? Não teria sido bem melhor que Mário Soares tivesse nomeado para tais cargos um jovem moralista da estirpe dum Savonarola (como, por exemplo, um político histrião como o eurodeputado Paulo Rangel, ou um publicista toleirão como João Miguel Tavares, ou mesmo um humorista “amigalhaço”) em vez de nomear o seu sobrinho meio italiano? Não sei. Só sei que, nos dois casos em que preferiu nomear outrem, para evitar a acusação de nepotismo, acabou, às tantas, por ter de apelar à minha incapacidade e incompetência políticas e à minha estupidez natural….

Uma coisa só agora fiquei a saber e tenho pena de não ter sabido antes: foi que, em todos os Governos da direita que estiveram no poder desde 1979, não houve um único em que ministros, secretários de Estado e membros dos respectivos gabinetes se conhecessem, fossem amigos e da confiança uns dos outros. Qual quê? Nem sequer eram familiares ou amigos no partido! Por isso é que levavam tanto tempo a carburar politicamente pois que, primeiro, convinha conhecerem-se e estreitarem relações de confiança, cumplicidade e amizade entre si, o que dava uma trabalheira e enorme dispêndio de energias…

Será por isso que os portugueses gostam tanto desta gente de direita? É que, quando tem de formar Governo e preencher os gabinetes dos ministros e secretários de Estado, a direita incumbe vários pescadores de talentos de fazerem pesca à linha, empoleirados no cimo de monumentos aos nossos egrégios avós, para assim fisgarem os ilustres desconhecidos que irão governar, respeitando a moral e a transparência…

Caros jornalistas, sobretudo moralistas, e histriões prenhes de ética política, atrevo-me a sugerir que, na vossa enérgica luta contra este Executivo sustentado pelo “esquerdalho”, se virem algo mais para o sexo! Atenção, não me interpretem mal. Estou só a sugerir que se exerça mais vigilância sobre a vida sexual e os parentescos dos membros do Governo, identificando filhos, enteados, sobrinhos, netos, etc. Urge defender o patriótico e virginal trabalho que a direita, a convite da troika, andou a fazer durante um lustro, exigindo – e bem! – que nos desnudássemos e todos passássemos a andar de tanga!

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