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A nova igreja de Lisboa não tem imagens, mas muita música

A nova igreja de Lisboa não tem imagens, mas muita música

Beatriz Dias Coelho 24/03/2019 09:10

Lisboa ganhou em setembro uma nova igreja evangélica vinda do Brasil e liderada pelo polémico pastor Silas Malafaia. O i visitou as instalações e assistiu a um culto para conhecer a Assembleia de Deus Vitória em Cristo e o que conquistou os seus seguidores. 

Para lá do trânsito que agita a Avenida Infante Dom Henrique, em Lisboa, ao fim da tarde de terça-feira, descampados e grandes edifícios contrastam na paisagem. Ao lado de uma casa de pneus e seguido, uns passos mais à frente, de uma loja de sanitários e de outra de tintas, o número 306, morada de um edifício mais pequeno, acolhe uma atividade inesperada: a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), uma igreja evangélica que chegou em setembro à capital.

O culto tem início marcado para as 20h. Uma hora antes, lá dentro, as cadeiras estão vazias e veem-se apenas alguns obreiros, pessoal técnico e a banda, que ensaia para garantir que nenhuma nota falha à hora prevista. Nas paredes, nenhuma imagem. Perguntamos pelo pastor e dizem-nos que “está lá dentro”. “Mas podemos entrar?”, insistimos. Respondem que sim. Mais tarde, o pastor viria a acrescentar que ali não há nada a esconder e que a igreja é aberta a todos. Depois de um estreito corredor, uma porta à direita dá acesso ao gabinete de Paulo Vieira, pastor de 38 anos, dirigente da ADVEC em Portugal e que se descreve como “fruto da casa”. Nascido no seio de uma família evangélica, Paulo já nasceu na ADVEC, criada em 1959 no Rio de Janeiro e liderada desde 2010 pelo polémico Silas Malafaia, utilizador ávido das redes sociais e que, de quando em vez, vem a Portugal para dar um culto. Filho de pai português, Paulo tem dupla nacionalidade e está em Portugal há um ano.

Em cinco meses, a ADVEC, em Lisboa, cujas instalações têm capacidade para 200 pessoas, conta já com 150 membros oficiais – aqueles que “passam pelo processo religioso, que inclui a entrega da vida a Cristo e, depois, o batismo”, esclarece o pastor. “Como a nossa igreja é muito grande no Brasil, se calhar 50% da igreja, hoje, já eram membros há muitos anos, vindos do Brasil e que hoje já moram em Portugal. Os outros 50% são pessoas novas”, elucida. “A recetividade tem sido muito boa, posso dizer impressionante. Há muita gente que acompanha o pastor Silas Malafaia, ele tem esse jeito dele, e a gente, quando chegou aqui, encontrou muita empatia em vez de antipatia. As pessoas dizem-nos que gostam dele porque é muito franco, é muito verdadeira a maneira e ele falar. Surpreendeu-nos a quantidade de pessoas que o abordam na rua. Tem sido impressionante”, confessa.

Mas na plateia não há só membros oficiais, há também curiosos que acompanham os cultos mas ainda não deram o derradeiro passo. É o caso de Mónica Gomes, brasileira do Recife que veio com o namorado para Portugal em 2012 e que é uma das primeiras a chegar. Assistente de dentista numa clínica, diz-se apenas uma frequentadora. “Já frequentava no Brasil. Frequento porque gosto, traz-me paz. Mas ainda gosto das coisas do mundo, e por isso venho à igreja para Deus me tirar esse gosto”, conta ao i.

Algumas cadeiras mais à frente está sentada uma família. A mãe, Andreia, é esteticista e foi a primeira a frequentar a igreja. Depois, influenciou o filho de 16 anos, nascido cá, e o marido, português, a frequentarem também. “Sou de São Paulo, mas já estou em Portugal há 20 anos. Sou cristã há mais de 20 anos e comecei a vir a esta igreja quando inaugurou. Já estava vindo a outra igreja, mas aqui há mais brasileiros e me sinto mais à vontade. Sempre gostei muito de Silas Malafaia e, quando soube que vinha abrir aqui a igreja, começámos a vir”, explica. Para Andreia, a igreja é sinónimo de “muita paz”, especialmente nos momentos mais difíceis. “Se a gente não tivesse esse Deus que a gente acredita que é vivo e que pode todas as coisas, não há o que acreditar. Eu, por mim, vinha todos os dias à igreja”, confessa. Os cultos, contudo, acontecem apenas à terça, quinta e domingo. O filho, Mateus, por sua vez, fala sobre o quanto gosta de frequentar a igreja e destaca que aqui aprende “como amar as pessoas, como perdoar as pessoas e como ajudá-las e apoiá-las em qualquer situação boa ou má”. Além disso, diz, sente-se “amado e confortado com as pessoas e o ambiente, além de ter paz e tranquilidade”.

No fundo da sala, com um ar tímido e isolado, está António Pereira, de 37 anos. Veio para Lisboa há três anos, contratado para trabalhar e vindo de Curitiba, mas a relação com a religião é bem mais antiga. “O meu coração desejava conhecer Deus. Foi com 20 anos, estava no auge da minha juventude, saía com os amigos e gostava muito, mas depois voltava para casa e sentia-me só, mesmo rodeado de muitas pessoas”, recorda. E porquê a ADVEC? “Acredito muito na palavra, acho que a palavra é que liberta e nos fortalece, e por ser uma igreja que consiste na palavra. Foi por isso que comecei a frequentar a ADVEC”.

Para António Monteiro, 35 anos e natural da Guiné-Bissau, foi também a palavra que o conquistou. “Há muitas igrejas que pregam a palavra que as pessoas querem ouvir, mas a palavra aqui não é o que queremos ouvir, é o que devemos ouvir. A mensagem do pastor Silas fala muito sobre isso, sobre como podemos melhorar e corrigir os nossos erros”. O programador informático já assistia aos cultos de Silas Malafaia pela internet e, quando a ADVEC chegou a Lisboa, começou a frequentá-la.

Com o início do culto a aproximar-se, chega entretanto uma jovem mãe com a filha ao colo. Chama-se Maria, tem 28 anos e é dona de casa. Acredita que a fé e a igreja lhe curaram mesmo um problema de saúde. “Sou brasileira e estou em Portugal há um ano, vim de São Paulo com o meu marido. Eu sou evangélica há três anos e já frequentava a ADVEC no Brasil, apesar de a minha família ser católica”, revela. Não seguiu os passos da família no que toca à religião porque “os católicos acreditam em imagens” e as imagens pouco lhe dizem. “A gente busca realmente para saber o que é Deus e, para mim, isso é um motivo de alegria. Deus acalma o nosso coração e dá-nos respostas para os nossos problemas, e eu já tive experiências de milagre de cura. Depois que eu cheguei aqui senti um caroço no seio e tinha muitas dores na barriga. Pensei que tinha de ir ao médico, mas vim aqui na igreja e a mãe do nosso pastor fez uma oração por cura. Nesse dia dessa oração, passou e nunca mais senti as dores e não tenho o caroço no seio. E eu creio que fui curada”.

Pouco minutos depois das 20h, com a sala composta, o pastor Paulo Vieira introduz a banda, que inaugura mais um culto da palavra – no qual é feito um ensinamento com recurso a um episódio da Bíblia –, com um momento musical em que Deus é o protagonista. Em pé, na plateia, os crentes acompanham as letras projetadas na tela pendurada na parede e cantam a plenos pulmões, com as mãos viradas para cima ou agitando os braços no ar.

A um momento de oração seguem-se alguns “anúncios”, como lhes chama o pastor. Um deles lembra os crentes que está a decorrer um jejum de 21 dias. “Entrámos na segunda semana e você vai escolher dois dias da semana em que não entra na rede social. Olha que legal, um propósito de resistência de dois dias. Nós, pastores, vamos estar aqui amanhã orando a partir das sete horas da manhã pela sua vida, orando pela sua casa, orando pela sua família e pelos seus propósitos, então é importante que você esteja em propósito connosco e com Deus. Não somos só nós que oramos, vocês também têm de orar, nós somos só nós que jejuamos, vocês também têm de jejuar”, diz à plateia.

O mesmo propósito de troca é o que rege o momento seguinte: o ofertório. “Ofertar, como eu digo sempre, é um grande privilégio. A Bíblia diz que, primeiro, o Senhor nos dá. A oferta, ela é voluntária, parte do nosso coração.

Apresentamos a Deus de forma voluntária aquilo que recebemos. Todas as vezes que estamos na casa de Deus, nós temos de trazer algo para o Senhor. É assim desde o Antigo Testamento”, defende o pastor, enquanto os obreiros começam a distribuir envelopes e máquinas multibanco pelos crentes e a tela informa acerca dos vários meios através dos quais é possível ofertar: dinheiro, cartão ou transferência. Antes de passar o microfone ao pastor responsável por ministrar a palavra de hoje, que se debruça sobre o sonho e o que é preciso fazer para o alcançar, o pastor Paulo conclui: “O maior beneficiário na hora da oferta é o ofertante. Você é o maior beneficiário disso, porque há uma bênção de Deus sobre a vida daquele que é liberal”.

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