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Manicómio. "Se o barro não me tivesse libertado, eu já não existia"

Manicómio. "Se o barro não me tivesse libertado, eu já não existia"

Marta F. Reis 21/03/2019 20:55

Querem ser uma galeria normal e diluir o estigma da doença mental através da arte e da presença. O projeto Manicómio junta artistas com essa história em comum e está instalado desde fevereiro num espaço de co-working no Beato. A inauguração é esta sexta-feira, com a abertura de uma loja. Valorizar o trabalho artístico e contribuir para a independência financeira de quem vive muitas vezes isolado é o objetivo. Nas últimas semanas, receberam dezenas de mensagens de pessoas a passar pelo mesmo.

Os monstros estão dispostos pelas mesas. Há garras, mandíbulas cerradas, cobras. São criaturas retorcidas, expressivas. “Saem todos cá de dentro, não é quando eu quero, é quando eles querem sair”, conta Anabela. No dia em que lhe deram um pedaço de barro no ateliê de artes plásticas do Hospital Júlio de Matos nunca imaginou que as mãos lhe fossem remexer na alma. 

Não os desenha: é a forma que ganha o que tem dentro dela e cada um representa um momento diferente. “Às vezes julgam que sou doida”, atira. Ao lado, Cláudia faz as primeiras experiências com pintura e bordado, desenho naïve, figuras femininas. É poeta e desenha, também já experimentou o barro de Anabela. Desde pequena pensou seguir Artes mas foi preciso um ponto final no trabalho como guionista para tentar. Publicou poesia e agora tem explorado outros materiais. “Os piores doidos são os que não assumem. E andam todos cá fora”, diz, a rematar o desabafo da colega de ofício.

É uma manhã de trabalho no Manicómio. Desde o início de fevereiro que o projeto – que tem como objetivo valorizar o trabalho de artistas com doença mental e contribuir para uma maior empregabilidade e independência financeira – está instalado num espaço de co-working no Beato, no nº135 da Rua do Grilo, em Lisboa. Esta sexta-feira é a inauguração oficial e abre ao público uma loja onde estarão à venda os trabalhos do primeiro grupo de 10 “artistas residentes”.
Anabela Soares, de 50 anos, e Cláudia R. Sampaio, de 37, fazem parte deste primeiro grupo que ocupa as mesas ao fundo do espaço amplo. Há algum barulho de fundo, mas muitas pessoas trabalham de fones, cada um na sua vida. As duas instalaram-se junto às janelas com vista para o rio, no recanto onde tem estado a nascer o que esperam vir a ser uma “galeria normal”, apresenta Cláudia. É assim que se sentem ali, sem qualquer tipo de discriminação, inseridos num espaço moderno, com cafetaria, iluminação, uma mistura de gente. “Um sítio que me fez querer sair de casa”, resume.

A ideia partiu de Sandro Resende e José Azevedo, que há 20 anos orientam um ateliê de artes plásticas no serviço de reabilitação do Hospital Júlio de Matos, hoje integrado no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa. Sandro junta-se ao grupo ao final da manhã, em preparativos finais para a inauguração. Nas paredes estão algumas obras em exposição. Há que pensar um nome para a loja. “Em vez de termos um espaço fechado, quisemos criar um espaço que diluísse o estigma, porque nunca vai desaparecer totalmente.” O antigo armazém com mil metros quadrados funcionou na perfeição. “Queremos dignificar as pessoas, as suas histórias, o artista. A doença mental surge no fim”, conclui.

Do hospital para a rua Sandro começou a trabalhar no Júlio de Matos era ainda finalista em Belas Artes. Respondeu a um anúncio para professor de cerâmica e foi ficando, com o tempo a trazer pessoas e desafios, dentro e fora do hospital. O que mais o marcou desde o início acabou por ser a base do projeto que já estava na cabeça há algo tempo e foi posto em marcha no último ano. “O que me impressiona é a autenticidade destas pessoas e quisemos que este espaço fosse autêntico como eles. O trabalho deles resulta acima de tudo de um expressar de vivências”, diz. Daí o lema no letreiro que assinala a zona do Manicómio, que se espalha por algumas mesas do Now Beato: “Based on True Stories”. 

“Vir para aqui trabalhar, com boas condições, uma bolsa para algum apoio financeiro, é terapêutico para qualquer pessoa, muito mais para algumas pessoas que nunca tiveram nada”

O espaço de exposição fica num canto, mas trabalham espalhados. Dos dez artistas que fazem parte do polo de lançamento do projeto, apenas três tinham passado pelo Júlio de Matos. O grupo tem pessoas de diferentes contextos, ligadas ou não a instituições, com trabalho artístico, descreve Sandro. Há diferentes casos – depressão, doença bipolar, esquizofrenia, autismo – mas os diagnósticos não fazem parte da apresentação e são com cada um, explica o responsável, que não atribui um papel terapêutico ao projeto, ainda que admita que venha a ser uma consequência da abordagem que querem implementar. “Vir para aqui trabalhar, com boas condições, uma bolsa para algum apoio financeiro, é terapêutico para qualquer pessoa, muito mais para algumas pessoas que nunca tiveram nada”.

Na primeira visita ao espaço, uma das perguntas que faziam era como seriam os horários. “No hospital é assim: das 10h às 12h com pausa para o cigarro. Não queremos ter horários rígidos, mas uma utilização que fica à responsabilidade de cada um”. Cada artista é apoiado nos materiais e recebe cerca de 5000 euros por ano, o que inclui transportes e alimentação. Das obras que forem vendidas, 60% das receitas revertem para o autor e 40% para o projeto. A programação inclui exposições e ainda workshops, com 80% das receitas para o autor. Além disso, estão disponíveis para trabalhos criativos para marcas – um dos primeros foi um rótulo para garrafas de vinho da Herdade da Malhadinha. Sandro é direto: uma das preocupações desde o início do projeto tem sido mostrar que querem apresentar ideias como qualquer gabinete criativo e não como uma instituição de caridade. ”Isso só ia aumentar mais o estigma. Já rejeitámos carregadas de propostas desse género porque não é isso que queremos, é valorização pessoal e artística. É um trabalho quase de guerrilha, mas tem de ser por aí”.

Lançar o projeto com o financiamento de dez bolsas para este ano custou 100 mil euros. O Manicómio tem contado com o apoio de algumas entidades públicas e empresas que asseguram para já uma viabilidade para os próximos cinco anos, diz Sandro. É o caso do Turismo de Portugal, da Fidelidade e da Sagres, que além de apoiarem bolsas de estudo têm procurado o grupo para trabalhos criativos. “O que queremos não é passar a ideia de que vai estar aqui um maluquinho a fazer um saquinho, mas sim um criativo a fazer um projeto”. 

Com uma exposição de Anabela agendada para maio, outra do grupo para setembro e marcações já para o próximo ano, os dias têm sido um corrupio, diz o diretor artístico, mas os planos passam por ir mais longe, até para conseguirem dar resposta às dezenas de pedidos que surgiram desde que começaram a divulgar o Manicómio. “Recebo dez emails por dia, se fosse fazer uma lista já teríamos pedidos de 100 pessoas para integrar o projeto. São eles que estão a quebrar o estigma: deram a cara e têm recebido muitas mensagens de pessoas que pela primeira vez assumem que são doentes. É assustador, não existem respostas deste género em Portugal.”

Até ao final do ano está prevista a abertura de um segundo espaço em Lisboa e gostavam de replicar “Manicómios” noutros pontos do país, expandindo a área de negócio. Um restaurante ou um hotel são algumas das ideias em mente.E embora não tenham pretensões em termos de intervenção terapêutica, Sandro adianta que gostava que o espaço pudesse ter essa componente. Por exemplo um psiquiatra que pudesse conversar individualmente nas mesas do Manicómio, sem bata, tornando socialmente mais acessível falar sobre questões do foro mental. “Da mesma forma que quando alguém tem uma gripe liga facilmente a um médico amigo a pedir um conselho”, exemplifica. Outra preocupação tem sido a gestão de expectativas, do sucesso. “Tenho cuidado para que seja um crescimento sustentável. As modas são modas, às vezes passam, às vezes ficam, e tento filtrar um pouco isso para que não haja uma queda”, explica.

“Ninguém tem de ter vergonha de uma doença que não escolheu” Ao lado de Anabela e Cláudia está Carlos, num trabalho minucioso com uma maquete de um edifício em que os apartamentos rodam para ter vista. Depois de 30 anos a trabalhar na área da engenharia de forma intensa, chegou a um ponto em que parou. Com 60 anos, encontrou no Manicómio uma saída para um período difícil e é isso que gostava de transmitir. “Normalmente fala-se da doença mental como uma coisa que se é. Não se foi sempre nem tem de ser sempre assim, a recuperação pode ser mais ou menos difícil. Aqui em vez de se procurar o que não se pode ter, procura-se o que se pode ter, é um caminho”.

O facto de saberem que todos têm uma história que algures terá pontos em comum também dá uma rede de conforto nos dias maus, partilham. Cláudia, que passou por três internamentos, diz que não foi logo fácil dar a cara em diferentes artigos que têm saído. “Se digo que sou bipolar podem achar que é exibicionismo, se não digo estou a esconder. Mas o que tenho sentido é orgulho. Perdi amigos, tive pessoas a dizer que não queria trabalhar e estou aqui. Ninguém tem de ter vergonha de uma doença que não escolheu”.

Anabela carrega os monstros desde criança, mas a vida adulta não foi menos pesada em falta de afetos e violência, partilha. Trabalhou nas obras, como ajudante de marceneiro, e na restauração e esteve internada diferentes vezes. Quando a chamaram para o ateliê de artes plásticas fazia terapia ocupacional na lavandaria do Júlio de Matos. Desafiaram-na a criar um brinquedo da infância e saiu um urso gigante feito de cobertores do hospital. “Nunca fui daquelas pessoas de imaginar coisas grandes”, conta. Mas desde então até têm acontecido algumas. Em 2016 interpretou a obra de Emir Kusturica e teve o cineasta na inauguração da exposição no pavilhão 31 do CHPL, uma iniciativa no âmbito do Lisbon & Estoril Film Festival. Este sábado estreia-se a dar uma masterclasse. À janela, para ter mais luz, borda umas letras “malvadas” numa camisola antes de entregar de novo ao barro. A arte é um escape e para Anabela foi uma segunda oportunidade, que agradece a Sandro e a Zé. “Se o barro não me tivesse libertado, eu já não existia”, diz.

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