21/10/19
 
 
Carlos Zorrinho 20/03/2019
Carlos Zorrinho
opiniao

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No deal (entre os políticos e o povo no Reino Unido)

Escrever sobre o Brexit nos tempos que correm é um exercício arriscado de adivinhação, tais os solavancos e mudanças abruptas que o processo tem sofrido.

Após uma semana de grande agitação na Câmara dos Comuns, Theresa May continua afadigada a tentar encontrar um acordo de saída do Reino Unido (RU) da União Europeia (UE) para evitar que o resultado da irresponsabilidade política do seu partido ao convocar o referendo de saída e ao permitir a contaminação da escolha por uma operação de manipulação massiva da informação difundida seja uma catástrofe brutal para a economia e para a sociedade britânica, e com impactos nefastos fora dela.

Escrever sobre o Brexit nos tempos que correm é um exercício arriscado de adivinhação, tais os solavancos e mudanças abruptas que o processo tem sofrido. Hoje mesmo decorrerão votações que podem mudar o rumo dos acontecimentos. Por isso, esta não é uma crónica sobre a saída ou a manutenção do RU na UE, mas antes uma reflexão crítica sobre a incapacidade dos líderes britânicos para fazerem um acordo com o seu próprio povo e de unirem o reino em torno de uma visão sólida de posicionamento de futuro naquilo a que se costuma chamar o “concerto das nações”.

Independentemente de como terminar o processo de Brexit, ou do estado das coisas no momento em que este texto for publicado, o no deal das lideranças políticas inglesas com os seus representados criou fraturas expostas muito fortes na sociedade britânica, projetando no mundo não a imagem desejada de um império reconvertido aos desafios da geopolítica moderna, mas antes o espetro de uma jangada à deriva e sem rumo certo.

Tem sido chocante a forma como, na política interna do RU, a luta pelo poder imediato, ou seja, pela vitória nas próximas eleições internas tem sido colocada à frente de qualquer esforço consistente para um acordo robusto, capaz de criar uma plataforma maioritária clara em torno de uma estratégia para o futuro, capaz de servir também de guião para o relacionamento do RU com a UE quer no prosseguimento do processo de divórcio, quer num eventual processo de reconciliação que conduza à manutenção da parceria tal como existe desde a entrada do RU na UE, em 1973.

Mais que não seja pelo respeito pela história do povo britânico, pelo exemplo do seu modelo democrático e pelo peso económico e político que a Velha Albion ainda tem no mundo, a formulação de uma visão consistente de futuro deveria unir, e não desunir os políticos britânicos e, em particular, os políticos dos partidos que têm constituído as âncoras da alternância ou da alternativa de governação.

As sólidas instituições democráticas britânicas não têm tido representantes à altura do desafio. Por abuso da ambiguidade e do taticismo, tem falhado o acordo entre os eleitos e o povo que representam. É preciso um acordo decente para uma saída digna da UE ou para uma manutenção igualmente digna na União. A manutenção do RU na UE é algo que, como português, europeu e europeísta, desejo, mas não me compete nem tenho o direito de escolher. Confio no povo britânico. Nos seus líderes, gostava de poder confiar mais, mas tenho esperança de que consigam surpreender--me pela positiva mais dia menos dia. Quem sabe, hoje?

 

Eurodeputado

 

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