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Beira. “Há de aparecer muito corpo a flutuar”

Beira. “Há de aparecer muito corpo a flutuar”

AFP Ricardo Cabral Fernandes 20/03/2019 07:43

Próximas semanas podem ser dramáticas: as cheias contaminaram os poços de água potável e destruíram os campos de cultivo do celeiro de Moçambique.

Viveu momentos de “pânico” e de “arrepiar” quando o ciclone Idai atingiu a região da Beira na passada noite de quinta-feira. Mas, ao contrário de tantas outras pessoas que vivem em “habitações sem condições”, a sua casa de tijolo e telhas à portuguesa aguentou o embate do vento e das chuvas. Ao telefone, António Ferreira, construtor civil, descreve ao i uma cidade “totalmente destruída”, irreconhecível. “Tudo o que era muros, árvores de grande porte, postes de eletricidade, tudo veio parar ao chão”. E acrescenta que a população está sem “telefone, luz, restaurantes e bancos” - só um hotel está a funcionar, o Hotel Sena. “Não temos nada. A Beira está num caos nunca antes visto”, contou.

Ao contrário dos moçambicanos e de tantos outros portugueses, Ferreira conseguiu sair da Beira pela única via de comunicação existente: de avião. “Vão faltar alimentos, vai haver doenças. Vai haver uma crise alimentar muito grande”, explica, referindo que “o único supermercado que abriu no sábado ficou sem nada nas prateleiras em 24 horas”. No domingo, um avião aterrou no aeroporto da cidade com uma carga de 22 toneladas de biscoitos enriquecidos, que foram distribuídos de imediato. Uma carga inicial insuficiente para as necessidades.

A situação fica ainda mais preocupante se se tiver em conta o futuro a médio prazo. “Aquela zona central é basicamente o celeiro de Moçambique. Aliás, é onde os produtos alimentares são mais baratos e é onde há mais produção”, conta ao i António Silva, de 46 anos, gerente do restaurante O Português. As cheias e os ventos destruíram os campos de cultivo, criando o sério risco de uma crise alimentar que pode extravasar a ajuda imediata no pós-tragédia. E, como se não bastasse, explica Ferreira, “vai haver uma crise de água potável”, pois as “chuvas foram muitas e tudo o que é poço está contaminado”. Em suma, a situação parece tal e qual a que o ministro do Ambiente moçambicano, Celso Correia, descreveu: “É o maior desastre natural que Moçambique já enfrentou”.

O número de vítimas registadas - 84 - não subiu ontem, mas é inevitável que suba nos próximos dias, à medida que as operações de socorro avancem no terreno e o nível das águas baixem. “Estou convencido que depois de as águas baixarem deve ultrapassar as 500, 600 mortes. Há de aparecer muito corpo a flutuar”, perspetiva Ferreira, explicando não saber nada sobre o que tem sido noticiado - ou seja, não ouviu o aviso do presidente moçambicano, Filipe Nyusi, de que o número de mortes poderá ultrapassar as mil. Entretanto, 1,5 milhões de pessoas foram afetadas e pelo menos 100 mil precisam de ajuda urgente. É, segundo a ONU, o pior desastre natural a atingir o hemisfério sul.

Com o passar dos dias, a ameaça das águas não diminuiu em algumas partes do país. A aldeia de Buzi, nas proximidades de Sofala, corre o risco de ficar completamente submersa durante o dia de hoje por as margens do rio Buzi se terem desmoronado, segundo a organização Save The Children. Não menos de 2500 crianças correm risco de vida. E há o risco de rutura de barragens por terem atingido a capacidade máxima de armazenamento de água.

A informação que circula na região é transmitida de boca em boca e quem está fora apenas toma conhecimento do que realmente se passa via familiares e amigos que viveram os momentos da passagem do Idai: “Não conseguimos comunicar uns com os outros. Só falamos pessoalmente”, diz Ferreira. “Neste momento, não existem operações de ajuda, mesmo 24 horas ou 48 horas depois da tragédia. Cada um tenta salvaguardar-se da forma que pode. A ajuda é muito precária”, continua o construtor civil, explicando que saiu da Beira para Maputo para “procurar ajuda”.

Uma crítica que se estende às autoridades portuguesas no país. “Somos muito pouco apoiados. Não sabemos os apoios que temos à nossa disposição”, denuncia Silva, referindo que esta opinião é “partilhadíssima pela comunidade portuguesa em geral”. “Há muita falta de informação e interação” entre o consulado e os portugueses, acrescenta. O governo já garantiu não haver conhecimento de vítimas mortais entre a comunidade, ainda que dezenas de portugueses tenham perdido as suas casas. O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas viajou ontem para Moçambique.

Ainda que as operações possam não ser as mais céleres no terreno, os esforços e as palavras de solidariedade não se têm feito esperar. Ontem, Marcelo Rebelo de Sousa garantiu que Portugal está disponível para ajudar Moçambique por via da União Europeia e das Nações Unidas. O chefe de Estado português também falou com o seu homólogo moçambicano para saber “mais detalhes sobre os efeitos do ciclone”, ficando a par de um “balanço bem mais trágico e dramático do que inicialmente estimado”. A União Europeia já anunciou que iria disponibilizar 3,5 milhões de euros de um fundo de emergência para evitar o aprofundar de uma crise humanitária que a cada dia que passa se torna ainda mais grave.

Das palavras aos atos, a Cruz Vermelha Portuguesa enviou um elemento para o país com a missão de reunir famílias, estando pronta para enviar mais ajuda - meios humanos e materiais. Apenas aguarda que os governos português ou moçambicanos a ativem. Também a UCCLA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa começou uma recolha de donativos que espera serem enviados entre duas a três semanas. Os Médicos Sem Fronteiras, que já tinham uma missão na região da Beira, destacaram reforços para o terreno.
 

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