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Vasco Graça Moura. “Em que fala amorosa nos dilaceramos?”

Vasco Graça Moura. “Em que fala amorosa nos dilaceramos?”

Diogo Vaz Pinto 19/03/2019 14:42

Em Abril, passam cinco anos da morte de Vasco Graça Moura, e com a reedição da antologia “366 Poemas que Falam de Amor” temos uma excelente perspetiva sobre uma obra tão plural e variada que se impõe à escala de um verdadeiro imaginário

Vir falar de amor, mas do grande, e sem ser essa coisa delambida e tonta, é o castigo que se sabe. Mesmo tomando algum balanço, vindo lá dos fundos, com os planos originais, e mostrar que até o sentimento que hoje goza de um prestígio democrático precisou de muito trabalho. De resto, foi preciso inventá-lo. Não veio ao mundo já com essa altivez desgraçada, e a sua escola fazia-se, e ainda se faz, nas traseiras das conveniências sociais ou da moral. Também não era uma licença para sair todo desfraldado, apostando no espalhafato. E há equívocos que a época nos faz engolir: “Todos esses fardos, essas toneladas de carne humana que nos deitaram à cara nestes tempos, bronzeados, pálidos, de pé, sentados, deitados, que aborrecimento! O corpo, o seu prazer, tornou-se ele também um bem de consumo”, escreveu Françoise Sagan, em “Viver Não Custa”. E ainda vincou: “Julgavam destruir preconceitos ridículos, destruíram uma mitologia magnífica.” Assim, o momento presente que se julga tão avantajado nestas coisas, tem tudo a aprender, a começar pelo que esqueceu e não devia. Até porque, no amor, não é só sentir, como se pensa; é bom estudá-lo a fundo, perceber como o amador, se sério, vai sempre nalgum estádio da difícil metamorfose para se tornar a coisa amada. E se corre, é “pelas formas dentro”. É um especialista em artes intrusivas, e que mistura sedução no golpe de arrombamento. “Entra por todas as janelas abertas”.

E como se reconhece? Segundo alguns, pelo “feroz sorriso”. Depois, faz parte do seu charme haver nele algo de inconveniente, tem o brusco encanto de quem chega quando ainda não se contava com ele, ou já não. Mas isto são teorias gerais, e o melhor é esquecê-las. Vale a pena, contudo, lembrar essa espécie de paranóia em que vivem os amantes. Como Nelson Rodrigues vincou, “quem ama conhece todo o inferno da mania de perseguição”. E porquê? Vistas as coisas pelo ângulo mais justo, o anjo pornográfico obriga-se a uma rectificação: “a mania de perseguição não é mania de perseguição. De fato, qualquer amor há-de sofrer uma perseguição concreta e assassina. Somos impotentes do sentimento e não perdoamos o amor alheio.”

E quem também concorda com este diagnóstico de cinismo maligno é Vasco Graça Moura, que termina a nota de introdução à antologia “366 Poemas que Falam de Amor”, declarando a sua esperança de que, “movendo-se no interior desta, o leitor possa criar também a sua própria antologia e que isso lhe seja ensejo activo para pensamentos e emoções, exaltações e divertimentos, e até, embora isso esteja completamente fora de moda, para qualquer coisa que ainda tenha a ver com lágrimas e suspiros”. No fundo, os poetas se não fazem logo baixas nas linhas inimigas, são espiados com uma certa desconfiança, como por trás de um vidro, de grades. Como num zoo sentimental, espera-se que exibam as suas exóticas penas, a garridice que distingue as suas flechas. Nisto, é fácil citar Herberto Helder: “Pedem tanto a quem ama_ pedem/ o amor. Ainda pedem/ a solidão e a loucura./ Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria./ E eles querem dizer: tu darás a tua existência/ ardida, a pura mortalidade.” E é justo referi-lo, até porque a sua é a mais indesculpável das ausências nesta antologia que não deixa de nos apresentar um cancioneiro modelado à luz de um “assumido impressionismo” do antologiador.

Aquilo com que nos deparamos nesta ampla recolha de poemas de todo debruçados ou rasando o tema do amor – sejam de autores portugueses, na sua maioria, e em menor quantidade (mas, por regra, excelentes) de autores brasileiros, ou ainda aqueles que são traduzidos de vários autores da mais diversa proveniência por VGM –, é uma generosa lição de leitura, um sumptuoso desdobramento em ecos da própria condição de um grande e cultíssimo amante, que assim nos serve “uma ânfora com fala” (Afonso Duarte), larga, um amoroso poço escavado ao longo de uma vida. E deve destacar-se o papel que teve entre nós VGM, de quem se contam cinco anos no próximo mês desde que desapareceu, tendo-nos legado uma obra que, como Eduardo Lourenço notou, “se expõe como uma pluralidade de textos, de criações, de recriações no espaço nada metafísico de um imaginário plural, assumidamente lúdico, em forma de arquipélago, brilhando ao sol da realidade e sendo, como ela, naturalmente diverso por fora e não menos ostensivamente unido por dentro”. Não espanta assim que esta recolha, além do muito que possa fazer para deixar-nos a alma cativa, e chagada toda, como se em carne viva, seja uma espécie de cúmulo de roda de um tema que tão naturalmente obcecou um dos poetas cuja obra constitui um imponente “bosque literário” em que é fácil sentir como as letras antes de passadas a limpo e resguardadas no papel hão-de ter sido ensaiadas na carne.

Voltando uma vez mais para a cúmplice leitura que dela fez Eduardo Lourenço, deve sublinhar-se como esta obra corresponde a “uma visão do tempo cultural aberta, como se toda a criação, em todas as épocas, [fosse] uma espécie de rosa dos tempos onde confluem, se amalgamam e jogam às escondidas umas com as outras sensibilidades de épocas tidas como inconciliáveis”. E esta antologia, pela sua extensão, pela variedade, é também uma recomposição da sensibilidade de um leitor prodigioso. Mesmo se as partes podem vacilar, o percurso em si mesmo encoraja, as “variações” geram, na sua organização interna, um alento. Há uma qualidade degustativa que se apreende numa sequência que, não se guiando por critérios fixos, se abre a um fluxo intuitivo. Faz parte a sensação de ir tropeçando de forma mais ou menos fortuita, descobrindo e rejubilando com este ou aquele poema, ficando-se indiferente depois a outro, como quem se dá tempo, descansa os sentidos para lhes dar pleno uso quando de novo forem exigidos. E há o gosto de sentir o sopro passar entre tantas bocas, ficando mais perto de umas que outras, entoando línguas estranhas, abrindo-se aftas, aproveitando essas asperezas sensíveis de que a boa tradução dota uma língua. E há os tantos modos pessoais, as razões íntimas, as armas preferidas por cada um, estreitando épocas, ganhando ânimo através da dispersão portuguesa, numa diáspora feita de outras formas de digestão e indigestão, como um retrato que se faz de um sentimento ouvindo esse fino tumulto com que o rodeiam tantas vozes.

Quanto aos 366 textos, VGM fala numa “conta cíclica”, e remetendo para os dias do ano, lembra-nos que, entre outras obras, o “Canzoniere” de Petrarca se serviu do mesmo número. Serve-se ainda das palavras de Gianfranco Folena, que se referiu a este como “uma liturgia existencial do tempo circular, do eterno retorno sobre si mesmo, como um só ano feito de toda uma vida”. O que há de mais proveitoso nesta proposta, como já se disse, é a disponibilidade para revisitar textos segundo uma outra ênfase, e beneficiando da cautela de que não se gastem as palavras, não se torne o amor um alvo fixo ou lerdo, mas que o movimento nos aguce a percepção à medida que os atiradores, ao esfrangalhar esse alvo, robusteçam a nossa tentação. Ler este livro leva-nos, nos seus momentos de maior enlevo, a buscar nas redondezas alguém a quem se possa exprimir tão hábeis e fragorosas noções, e vale a pena forçar uma paixoneta só para se ter ocasião de partilhar alguns destes versos. Como quem bebe de madrugada o litro de leite e o sente descer tão fresco que nos desperta a intensidade e leva a servir um resto num pires e compartilhá-lo com os gatos vadios que dão um contorno elegante à vizinhança.

“Mais importante e mais interessante que o conjunto”, diz-nos VGM, é o desejo de que este “espelhasse o lado caledoscópico e anarquicamente desmultiplicador da relação amorosa e das suas vicissitudes”. E para levar isto uns passos além, nada como desencravar uns versos do próprio autor, que, aparecendo aqui no papel de antologiador, estava excluído à partida da recolha, mas bem merecia figurar nela, como merecia ser mais lembrado pelo deleitoso desvelo com que sempre soube dizer algo mais sobre esta teia que a todos enleia. Ele que foi, afinal, um quase lascivo romântico, lembrou-nos que “o amor é agressivo/ e tem a ver com tudo quanto toca”, e por isso mesmo “nunca há/ modelos inocentes”. E sobre o avanço que nos exige, obrigando a que fiquemos sem defesas, num outro poema frisa: “já tinha dito quanto amar nos torna/ vulneráveis; e míseros, inermes”. E de um outro, ainda este verso lhe surja confessado, nesse jeito tão íntimo que se aflora à pele, como tatuagem: “e nos casos desvairados de amor não há saída”. Já ninguém morre de amor, mas este poeta, certa vez, andou lá perto: “estive mesmo quase (...) era um tempo de humores bem sacudidos,/ depressões sincopadas, bem graves, minha querida,/ mas afinal não morri, como se vê, ah, não,/ passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,/ emagreci bastante, mas safei-me à justa”.

Não faltam na recolha exemplos de poemas que não precisam de muitas linhas para tratar de um rapto, são exímios nesse modo de aparecer, passando "implantando a forma docemente feroz do mistério, salvando-nos das erradas matemáticas do quotidiano”. À irradiante luz que se apercebe nas melhores páginas deste livro, é fácil encarar de novo o mundo nessa simetria encantadora que ele oferece aos amantes como algo de “súbito e interminável”. Mas se não é difícil que cada leitor vá descosendo os botões de que mais gosta para se abotoar com eles, dos 366 poemas que falam de amor, desse percurso que preencheria todo o calendário, não hesitaria em dizer que muito está lá para compor, muito são silvas e tojo, mas de todo o ano, este leitor talvez reduzisse tudo a um mês (e mais uma semana ou duas, talvez). Um mês bem escolhido, e podia até colher dias entre as quatro estações, um gosto que dê vontade de morder, quebrar o fecho com os dentes rasando a pele. Talvez também assim da vida não colhesse um ano inteiro, mas uma conta mais febril, uma memória ardente entre o mais, tudo o que foi só espera e desaire, ou refazimento.

E se se elogiou as virtudes de um grande leitor, também se percebe nesta antologia um desejo de não encher de ciúmes os contemporâneos, não lhes contrariar as ânsias de alcançar a posteridade, e, sendo fiel à imortalidade do sentimento, VGM tem o cuidado de consolar a sua época, embalá-la nos braços mais tempo do que merece. Surgem alguns desses autores que mais chateiam se alguém deixa de lhes passar a mão pela pequena vaidade: um Manuel Alegre ou uma Maria Teresa Horta; outros desses maçadores que parecem empenhados em fazer da poesia contemporânea uma espécie de sacristia, um Pedro Tamen ou um José Tolentino Mendonça, e esses “sobressaltos de peixes fora de água” de um Eduardo Pitta, uma Ana Marques Gastão e outros que estamos até proibidos de nomear porque se sabem mexer bem melhor fora do que dentro dos poemas. É evidente, portanto, esse cuidado de não se ser demasiado exigente, de não deixar de observar uma certa gentileza para com os pares, para não se ser, em troca, sabotado. Há o risco de se ceder demais, e por gentileza aos outros cometer-se uma brutalidade contra nós próprios, aceitando uma tal companhia que acaba por nos ser fatal.

Felizmente, VGM sabia ser um diplomata sem se tornar num patarata. Não teve de nos mentir muito para estender alguns gestos de compaixão. E se nalgumas páginas desta antologia chega a mostrar-se piedoso, não levou a coisa a tal ponto que se possa dizer que cercou a noiva de trambolhos, no papel de damas de honor, como forma de mais lhe enaltecer a beleza. O perigo nesse caso é que, para lá de um certo ponto, dana-se a composição e acabamos roçando a desgraça.

É com assombro que tantas vezes vamos vendo a aproximação ao amor ser feita pelo lado do erotismo, de um sensualismo que, com esses recursos mínimos que são já de si as palavras, ainda encontramos esses encantadores que correm pelas formas dentro numa espécie de eficácia austera, como naquela “Paisagem pelo telefone”, em que João Cabral de Melo Neto, só precisa dela do outro lado da linha, e se põe a imaginá-la “despida,/ ou, se vestida, somente/ de roupa de banho, mínima,// e que por mínima, pouco/ de tua luz própria tira,/ e até mais, quando falavas/ no telefone, eu diria/ que estavas de todo nua,/ só de teu banho vestida”... É um exemplo só, e seria fácil ir buscar mais quando temos os cantos de tantas outras páginas dobrados. O próprio livro torna-se um corpo, e todo o maltrato é sinal de um combalido encanto, de um estrago gozoso, que é sinal da passagem de todo o amante.

Numa antologia como esta assumem um protagonismo maravilhoso, juntando-se aos inegáveis clássicos, e aos nossos tios-avós, do bando ladino das cantigas de amigo, alguns poetas contemporâneos como Vitorino Nemésio com esse inultrapássavel poema de amor que é “Pedra de Canto”, ou Fernando Assis Pacheco com o tão envolvente poema “Esta areia fina”, ou Al Berto com o seu “Truque da polaroide”, e claro, Luísa Neto Jorge, no arrebatador “O amor e o ócio”. E, para acabarmos – sendo certo que poderíamos continuar por mais um bocado, oferecendo outros exemplos, citando passagens de fazer corar a alma às damas –, que outro final nos poderá servir melhor na inesgotável revisitação do amor como uma razão para se atear a dois tantos fogos contra o mundo do que a que esplende em “O jovem mágico”, de Cesariny: “O jovem mágico das mãos de ouro/ que a remar não se cansa muito/ e olha muito depressa (como se fosse de moto)/ veio hoje ficar a minha casa (...). Busquem-no e leiam o resto a sós (ou juntos), que estar aqui a fazer cortes num poema que nos causa uma vertigem próxima da sensação de apaixonar-se seria um acto de traição.

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