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Joia da coroa. Há mais de 40 anos a ver novelas

Joia da coroa. Há mais de 40 anos a ver novelas

Sofia Martins Santos 18/03/2019 23:02

As novelas brasileiras foram rainhas durante muito tempo, até que o made in Portugal convenceu tudo e todos. A aposta nacional é, aliás, cada vez mais forte

Existiu um tempo em que as telenovelas da Globo faziam parar o país. A dimensão da conquista brasileira era tanta que a zona oeste do Rio de Janeiro envergou o título de um dos pontos nevrálgicos da indústria mundial da telenovela. Os estúdios, ou Projac, avançaram em grande em 1995 e, em 2011, estavam já montadas 17 cidades cenográficas. Chegou a ser montado um hospital. Mas o tempo traz mudança e, apesar de as novelas continuarem a ser um produto-rei para os canais de televisão, as campeãs das audiências passaram a ser as produções nacionais e até as capas das revistas foram completamente entregues às estrelas nacionais. Mas vamos por partes.

No fundo, foram cinco anos de domínio de novelas brasileiras. Em 1977 chegava “Gabriela, Cravo e Canela” que teve sucesso imediato. Foi apenas a primeira, a que se juntaram muitas outras apostas com sotaque do Brasil. A primeira novela portuguesa teve de esperar até 1982, ano em que se estreou. As aventuras e também as desventuras de uma família com um negócio de vinhos entravam, assim, na casa dos portugueses. “Vila Faia” foi transmitida na RTP entre 10 de maio e 28 de setembro de 1982. Nicolau Breyner, um dos pais e protagonistas do projeto, chegou a mencionar, a propósito de um aniversário da novela, que a começaram “quando toda a gente dizia que era impossível, aqueles velhos do Restelo que existem em Portugal. Diziam: ‘Vai ser uma catástrofe, ninguém vai gostar.’ Passada a primeira semana, toda a gente estava agarrada à televisão a ver aquilo”. 

Queria-se uma novela com os problemas do país, com as tradições, as discussões e referências ao passado. Foi o que se conseguiu. No entanto, o sucesso de “Vila Faia” ainda não representava uma máquina oleada e os recursos económicos não eram os mesmos. Rui Vilhena, num trabalho de análise ao mundo das novelas made in Portugal, explicou que foi feito “um trajeto natural, mas tudo leva o seu tempo [...] Tinha de ocorrer um processo de evolução desde a ‘Vila Faia’. E estivemos sempre em competição com a indústria brasileira, que tem um padrão de qualidade muito elevado. Para fazer frente a isso tivemos mesmo de fazer um grande esforço. A competição acabou por ser benéfica. A receita de sucesso, ninguém tem. Há é uma perceção daquilo que o público quer naquele momento. Ninguém consegue prever o sucesso de um produto. Tudo conta nesse sucesso, a promoção do produto, o elenco”.

Para quem lutou para abrir caminho, os ingredientes continuam a ser os mesmos de sempre: “É preciso emoção. Temos de nos rir, chorar, admirar a forma como alguém é ‘bonzinho’ ou criticar o vilão.” Esta sempre foi a opinião de Nicolau Breyner, que defendeu que o que pode mudar é a parte técnica. 

A verdade é que, durante muito tempo, a importação de novelas fez com que não se investisse no futuro da televisão nacional, mas o cenário foi mudando, com cada vez mais conteúdos e mais meios nacionais. Para muitos, é preciso não esquecer que muito teve de ser feito e conquistado. Os “Morangos com Açúcar”, por exemplo, foram um verdadeiro embrião de atores, caras bem conhecidas de todos atualmente. 

Portugal e as novelas No trabalho “Tipo de Público Português: Perfil das Audiências”, de Daniel Brízido Costa, percebe-se que “na década de 70, todos os sexos e classes etárias viam as telenovelas por serem uma novidade na programação. No entanto, a década de 90 veio dividir e alterar significativamente o perfil das audiências”.

No trabalho feito para a Universidade Autónoma de Lisboa percebe-se que, “em 1977 [data da primeira transmissão de uma novela brasileira], por exemplo, o número de televisões por mil habitantes girava à volta de 150 e era costume, em Portugal, assistir-se às telenovelas nas associações de bairro, sedes de associações, cafés e associações de moradores, fazendo assim um efeito de interatividade em grupo originado pela visualização em conjunto das telenovelas [...] Como quase todas as novelas da época, tais como a “Escrava Isaura” e a “Gabriela”, abordavam temas como a emancipação feminina, o público feminino português começou desde então a ter mais aproximação às novelas. Quanto ao ensino, não havia grande diferença entre o público consumidor, pois tanto os mais letrados como os menos letrados consumiam as novelas da época, visto serem novidade e haver falta de escolha de conteúdos televisivos, tanto pelo conteúdo em si como por só haver uma estação televisiva, a RTP”. 

No entanto, Portugal mudou, a televisão mudou e a audiência também. A análise mostra que “a década de 90 veio alterar por completo o consumo das telenovelas brasileiras em Portugal. A estabilidade económica e política proporcionou um constante aumento dos indicadores sociais, económicos e de bem-estar dos portugueses. Com o desenvolvimento da publicidade abre-se caminho a dois operadores privados de televisão: a SIC e a TVI, que começaram as suas atividades, respetivamente, em 6 de outubro de 1992 e a 20 de fevereiro de 1993. Estas duas inaugurações fizeram com que a audiência se dividisse por completo. A capacidade de escolha passou de dois para quatro canais de televisão, já para não falar na variedade dos seus conteúdos. Outro momento de grande importância para o estudo do perfil das audiências foi a fase em que a SIC começou a transmitir em grande escala as produções da Rede Globo. Com isso, os espetadores aumentaram de 65,9% para 70,8% da população total, a média de tempo gasto frente aos televisores passou de 258 minutos diários para 239, sendo a classe D (a considerada mais popular e menos letrada) que mais tempo passou frente à televisão, cerca de quatro horas diárias. A partir do verão de 1994, as telenovelas brasileiras exibidas na SIC chegaram a captar 80% a 85% do total das audiências”.

A verdade é que, se muito mudou nas audiências, nos canais e até no tipo de apostas, o que não mudou foi o facto de as novelas continuarem a ser um produto-rei: a joia da coroa para a TV.
 

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