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EDP. Estratégia até 2022 passa por reforço nas renováveis e venda de ativos

EDP. Estratégia até 2022 passa por reforço nas renováveis e venda de ativos

Sónia Peres Pinto 13/03/2019 07:00

Elétrica vai alienar ativos e só em Portugal e Espanha prevê arrecadar dois mil milhões. A par das centrais térmicas, também a alienação de barragens poderá estar em cima da mesa. Em relação à OPA da China Three Gorges, António Mexia garante que continua a “dar passos”

Reforço na energia renovável e venda de ativos é a estratégia da EDP até 2022. “A companhia é única e está preparada para a mudança energética”, garantiu ontem o CEO da elétrica, durante a apresentação de resultados e plano estratégico em Londres, reconhecendo que “foi preciso ajustar o foco”. De acordo com António Mexia, é necessário reduzir a exposição em determinadas áreas – daí ser levado a cabo um plano de venda de ativos. Só em Portugal e em Espanha, a empresa pretende encaixar mais de dois mil milhões de euros, nos próximos quatro anos, com a alienação de ativos em regime de mercado e centrais térmicas. No entanto, não afasta a venda de barragens. Quando questionado sobre quem poderá vir a adquirir estes ativos, o responsável não hesita: “Há sempre interessados.” 

A par desta venda, a elétrica prepara-se para acelerar o modelo de rotação de ativos, estratégia que tem vindo a concretizar nos últimos anos e que irá permitir um encaixe de quatro mil milhões de euros.

As contas são simples: a EDP prevê uma geração de recursos financeiros de 12 mil milhões de euros nos próximos quatro anos, ou seja, 2,9 mil milhões de euros por ano, dos quais sete mil milhões serão canalizados para novos investimentos. Cerca de 75% do investimento previsto para os próximos quatro anos será em energias renováveis, sendo os Estados Unidos o principal destino (40%), seguidos pela Europa (35%) e o Brasil (25%). Ao mesmo tempo, a elétrica acredita que irá distribuir três mil milhões de euros em dividendos e usar cerca de dois mil milhões de euros para baixar a dívida até 2022.

Esta revisão do plano ocorre no dia a seguir àquele em que a empresa apresentou os resultados referentes a 2018, revelando uma queda dos lucros de 53% para 519 milhões de euros. A operação em Portugal apresentou prejuízos de 18 milhões de euros – pela primeira vez desde o início da privatização, em 1997. A elétrica justifica este resultado com o forte impacto da elevada fiscalidade e das decisões regulatórias adversas. De acordo com a EDP, estes impactos, avaliados em 672 milhões de euros, acabaram por condicionar fortemente também a atividade global da empresa e levaram António Mexia a falar em “nuvens regulatórias” em Portugal, mas que, no seu entender, “já passaram”. 

Ainda assim, tanto de manhã, aos analistas, como à tarde, em conferência de imprensa, o presidente da EDP lembrou que dos 285 milhões de euros que a empresa provisionou, apenas um terço foi usado para baixar as tarifas elétricas em 2019. Por isso mesmo, António Mexia acredita que há margem financeira para reduzir preços. “O céu está a ficar mais azul”, referiu.

Apesar destas “nuvens”, António Mexia admitiu que a empresa vai continuar comprometida com o país, tal como esteve no passado, recordando que foi o maior investidor no mercado português na última década. “Sempre fomos comprometidos com Portugal e podem contar connosco”, mas lembrou: “A estabilidade das regras é fundamental nos investimentos.”


Menos convencido por esta justificação em relação à quebra de lucros no mercado nacional está o analista da XTB contactado pelo i. “As medidas impostas pelo governo de Portugal foram uma pedra no sapato para a EDP, constituindo uma porção significativa dos custos operacionais de 2018 para o mercado nacional. No entanto, só esse fator não pode justificar a quebra de 53% dos resultados relativos a 2018 face a 2017, que demonstram que a empresa precisa de rever os seus objetivos estratégicos, uma vez que não está a alocar os seus recursos de forma eficaz”, revela o senior account manager José Bebiano Correia.

Já em relação à estratégia anunciada pela empresa, o analista lembra que as renováveis apresentam a melhor fatia das receitas do grupo e, como tal, defende que “é sem dúvida o setor com maior potencial de crescimento para a EDP”. Quanto à venda de ativos, José Bebiano Correia lembra que essa estratégia pretende agilizar a estrutura de custos da empresa, que no seu entender “não possui atualmente o nível ótimo de dívida devido à transição da maior parte das receitas do setor elétrico para o renovável”. E deixou uma garantia: “A evolução da EDP passa por focar-se nas operações mais rentáveis e com maior procura, pelo que esta opção é coerente com os objetivos e visão estratégica do executivo para os anos vindouros.” 

OPA continua a dar passos

Apesar das dúvidas que têm sido colocadas pelos analistas em relação a um desfecho positivo da oferta pública de aquisição (OPA) da China Three Gorges (CTG) e também das críticas do fundo americano Elliott, ao considerar que a oferta, tal como se encontra atualmente, não favorece os melhores interesses dos acionistas, António Mexia garantiu esta terça-feira que “estão a ser dados” passos para o avanço da operação. 

 “Os passos estão a ser dados. Agora, este trabalho administrativo é talvez mais complexo e mais longo do que as partes pensavam. Mas temos prova de que está a ser feito”, disse, mostrando-se ainda otimista em relação ao registo da OPA que, no seu entender, deverá ocorrer “em breve”. O presidente da empresa foi mais longe e afastou o cenário de que a OPA poderia estar a condicionar a atividade da EDP, assim como a elaboração do seu plano estratégico que, segundo o mesmo, foi aprovado por unanimidade, na segunda-feira, em conselho geral e de supervisão da EDP. “Não temos passividade, mas temos dever de lealdade. Obviamente, há operações que não podem ser feitas quando se está debaixo de uma OPA. Mas não é isso que está a acontecer”, salientou.

E apesar de garantir que este plano não é para responder às exigências do fundo americano, a verdade é que vai ao encontro, em grande parte, do que foi defendido no início de fevereiro pelo fundo, também conhecido como “Abutre da Argentina”. O Elliott defendeu uma mudança de estratégia na elétrica, assente numa maior aposta nas renováveis e na venda de vários ativos, nomeadamente a alienação de ativos core como a EDP Brasil, centrais térmicas na península Ibérica e 49% do negócio da distribuição. 

Recorde-se que, a 11 de maio, a China Three Gorges anunciou a intenção de lançar uma OPA voluntária sobre o capital da EDP, oferecendo uma contrapartida de 3,26 euros por ação. O pedido foi registado junto do regulador, sem alterações ao preço oferecido inicialmente, avaliando a elétrica em 11,9 mil milhões de euros – um valor que também foi alvo de críticas por parte do fundo norte-americano ao considerar que o prémio de 4,8% “é inaceitável”. 

Também a administração liderada por António Mexia teve esse entendimento no momento em que foi anunciada a operação: “O conselho de administração executivo considera que o preço oferecido não reflete adequadamente o valor da EDP e que o prémio implícito na oferta é baixo considerando a prática seguida no mercado europeu das utilities nas situações em que existiu aquisição de controlo pelo oferente”, disse a empresa na altura. 

*A jornalista viajou a Londres a convite da EDP

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