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Dínamo Zagreb. Um dínamo que dinamitava alemães e despenteava senhoras velhas

Dínamo Zagreb. Um dínamo que dinamitava alemães e despenteava senhoras velhas

DR Afonso de Melo 14/03/2019 09:52

O ano de 1967 foi mágico para o adversário de hoje do Benfica. Depois de ter atingido a final da Taça das Feiras em 1963, desta vez bateu o Leeds United (2-0 e 0-0) e conquistou a única taça europeia da sua história

O ano de 1967 foi maravilhoso para o Dínamo de Zagreb, que se apresenta hoje na Luz para defender a vantagem adquirida na primeira mão dos oitavos-de-final da Liga Europa frente ao Benfica. A quimera da conquista de uma taça europeia tornou-se realidade ao bater na final da Taça das Feiras, a duas mãos, o grande Leeds United da altura, por 2-0 (em casa) e 0-0 (fora). Finalmente foi possível esquecer a final da mesma prova perdida frente ao Valência na época de 1962-63 (1-2 e 0-2). Ainda por cima quando se dera ao luxo de afastar o FC Porto logo na primeira eliminatória (0-0 e 2-1) e o Bayern de Munique nos quartos-de-final (0-0 e 4-1).

Mas voltemos à vaca fria, isto é, a 1967. Dentro de portas, as coisas não correram às mil maravilhas, é preciso sublinhá-lo. Segundo classificado no campeonato da Jugoslávia, atrás do FK Sarajevo, eliminado da taça pelo mesmíssimo Sarajevo nos dezasseis-avos-de-final.

Mas no banco, comandando a equipa, havia Branko Zebec, uma das figuras mais fascinantes da história do futebol mundial. Era a sua primeira experiência como treinador – pusera fim à carreira como jogador do Alemannia Aachen, depois de dez anos ocupando a faixa esquerda do Estrela Vermelha de Belgrado, e não tardaria a assinar contrato com o Bayern de Munique, pelo qual foi campeão, levando mais tarde o Hamburgo à sua primeira final da Taça dos Campeões Europeus.

Branko apoiou a equipa em três pilares essenciais: o guarda-redes Zlatko Skoric, o defesa-que-jogava-em-todas-as-posições Marijan Brncic, e o endemoninhado avançado-centro Stjepan Zambata. E o percurso dos azuis de Zagreb até à final foi claro e límpido como os olhos de Elizabeth Taylor. Vá lá, com um ou dois ciscos que só serviram para lhe reforçar o charme. Logo de início, uma derrota em Brno, na Checoslováquia, por 0-2 face ao Spartak. Recuperação caseira: 2-0. Foi-se a prolongamento, sabendo-se que não haveria penáltis decisivos se o resultado se mantivesse. E não havendo penáltis, houve moeda ao ar. Checos eliminados por esse método irritante e tão pouco desportivo. Mas com isso podiam bem os rapazes de Zebec.

Vieram em seguida os escoceses do Dunfermline. Uma derrota pesada, por 2-4, nas terras altas da Grande Ilha para lá da Mancha, e trabalho para casa. No Estádio Maksimir, com o apoio ululante dos seus partidários, o Dínamo chegou ao 2-0, com golos de Zambata (marcara um na primeira mão), e começou a desenhar-se um percurso que poderia igualar o de 1963. Pelo menos, o sonho estava vivíssimo. Outro Dínamo, o de Pitesti, na Roménia, prantou-se-lhe na frente. Sem particular brilho, o 1-0 de Zagreb, por Zambata, foi defendido com unhas e dentes na viagem aos Cárpatos (0-0). E, agora sim, havia motivos para sérias preocupações. O sorteio decidiu que a Juventus seria o próximo adversário.

No topo! Eis que o conjunto de Zebec atinge a plenitude. No antigo Comunale, dois golos de Jukic garantem o empate (2-2). No Maksimir, o vendaval despenteou por completo a Velha Senhora: 3-0! Um luxo! E também um escândalo para os sempre tão orgulhosos italianos. Novak, Mesic e Belin levaram a multidão aos limites do paroxismo. Como não acreditar? Se até a Juventus era posta borda fora com tamanha desfaçatez.

A tarefa que aí vinha não tinha nada de fácil. Eintracht Frankfurt, com todo o peso e dinâmica do atropelante futebol alemão. E quando digo atropelante é mesmo atropelante que quero dizer. No dia 7 de junho, os jogadores do Dínamo caíram ruidosamente por terra. A derrota em Frankfurt foi dolorosa como poucas e parecia deixar os croatas sem hipóteses de recuperação: 0-3. Mas Branko não pensava assim: fora sempre um tipo rijo, pouco influenciável por estados de espírito momentâneos, algo que justifica plenamente os seus muitos anos de trabalho na Bundesliga.

Zambata, Novak e Gucmirtl dinamitaram a vantagem germânica. O encontro iria a prolongamento. Nada impediria agora que os jogadores do Dínamo agarrassem o destino pelos colarinhos. Belin fez o 4-0 e a alegria saltou para as ruas de Zagreb de uma forma incontrolável. Quatro anos mais tarde, nova final da Taça das Cidades com Feira, essa mesma que viria a ser Taça UEFA e, ainda, Liga Europa.

O Leeds United defendia o seu título, conquistado um ano antes frente ao Zaragoza. Era indubitavelmente favorito. Mas saiu do Maksimir vergado a um 2-0 que lhe pavimentava o caminho para nova noite de pedregulhos. Cercek e Rora selaram o resultado. Em Elland Road, Skoric foi imperial no comando da sua defesa. Não houve forma de os ingleses dobrarem o cabo dos trabalhos do zero a zero teimoso e inabalável. O Dínamo conquistava a única taça europeia da sua história; o Leeds United recuperaria o troféu logo na época seguinte, assinando a sua terceira final consecutiva à custa dos húngaros do Ferencvaros. Zagreb nunca mais esqueceria esse dia 6 de setembro de 1967. Percebe-se bem porquê.

 

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