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Elisa Ochôa. Quando a vida do mar da Arrábida desagua em Lisboa

Elisa Ochôa. Quando a vida do mar da Arrábida desagua em Lisboa

Ilustração de Elisa Ochôa Mariana Madrinha 13/03/2019 17:09

A artista plástica e museóloga Elisa Ochôa inaugura hoje uma exposição no Centro Documental da Câmara Municipal de Lisboa onde mostra parte do trabalho iniciado em 2016, quando se lançou num projeto gráfico de desenhos, pintura e algumas esculturas de animais subaquáticos da costa portuguesa. Um arquivo visual que, em última instância, alerta para a preservação das espécies

Neste país quase só feito de costa, é difícil fugir ao apelo do mar. Só que vida que por lá pulula é para a esmagadora maioria de nós invisível debaixo das ondas. E foi ao mar, e a essa vida, que a artista plástica e museóloga Elisa Ochôa foi buscar material para o seu mais recente trabalho que pode, em parte, ser visto a partir de hoje no Centro Documental da Câmara municipal de Lisboa. A exposição chama-se “Debaixo d’Água – Uma Amostra da Vida Marinha da da Arrábida” e ficará patente no espaço até dia 25 deste mês.

Da serra ao mar Para contarmos a história da exposição temos que recuar até 2012, ano em que Elisa – que depois de se licenciar em Filosofia colecionou uma série de formações, entre as quais um curso de Teatro na Neighbourhood Playhouse School of the Theatre, ou o curso de técnicas de pintura na New School, ambos em Nova Iorque – estava a terminar o mestrado em Museologia na Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Na hora de começar procurar o objeto da tese, foi conhecer a fundo a serra da Arrábida junto de especialistas naquele local. Um deles era arqueólogo, e viria a ser seu orientador, numa tese subordinada ao tema o “Museu da Natureza e da Paisagem”. A ideia era conhecer o que havia e, depois da investigação do local – com opções incontáveis, e que pode partir tanto da flora terrestre, da arqueologia ou da geologia – criar percursos museológicos. Focou-se então na Serra do Risco – a escarpa mais arte de Portugal continental, salienta – para o seu trabalho de investigação, mas tanto naquela altura como posteriormente o apelo do mar foi mais forte. “Essa parte foi um gosto pessoal, sou apaixonada pelo mar”, revela.

Começou então por fazer desenhos das espécies endémicas daquele lugar, mas na perspetiva de artista plástica, “as ideias começaram a ir por outros caminhos”.

Assim, em 2016, começou a fazer o arquivo visual que aqui apresenta. Primeiro desenhou o mais imediato, os peixes, depois foi juntando outros microrganismos e moluscos. “Não sou bióloga”, ressalva Elisa, “nem isto se trata de ilustração científica”. Há sempre aquela fronteira da “memória do artista, do que é real ou não”. Ainda assim, nota, as dimensões dos seus peixes desenhados cumprem a escala real. “A minha ideia era captar as cores dentro de água e ao vivo – se formos a uma peixaria, um peixe morto perdeu toda a cor. Queria captar o peixe sob a luz solar, com os cromatismos que a luz permite”. Assim, quer através da observação direta em aquários, fotografias e vídeos – neste último caso, para perceber as movimentações dos animais – foi produzindo o acervo desta exposição. E agora até está a pensar em ir um pouco mais além. “Talvez faça um curso de mergulho”, conta.

O objetivo final desta coleta é “criar um arquivo visual” da fauna e também flora das espécies da costa portuguesa, partindo, primeiro, deste trabalho da Arrábida, onde nos vai enumerando as espécies mais comuns desta zona: a garoupa, o mero, as lagostas, cavacas... Depois, Elisa quer criar um catálogo, tanto físico como digital, que possa ser consultado por todas as pessoas, e que mostre a vida da costa sempre com a “perspetiva artística, com esta sensibilidade que vai muito além dos constrangimentos da ciência.

Mas tem outros “objetivos satélites” em mente. “Gostava que as pessoas tomassem consciência do que há, ou que, quando tropecem numa alga, saibam de qual se trata. Há sempre aqui um intuito, não diria pedagógico, mas de despertar curiosidade, de acrescentar interesse”, explica, o que, consequentemente, será uma mais-valia para a proteção e preservação das espécies.

Feita a pesquisa, Elisa conta que demora cerca de sete horas em cada trabalho. Foi exceção o cachalote bebé – com 2,5 metros – que interpretou e outro peixe habitual nas nossas mesas, a que culpa as escamas, e que se tem revelado um especial desafio: o cherne. Para a exposição no Centro Documental da Câmara Municipal de Lisboa, levará algas (as de bagas), pepinos do mar, ouriços, alguns peixes e uma estrela da região: o choco.

Este é um projeto para o qual, assume a artista, é difícil almejar um fim. Já começou, por exemplo, a trocar impressões com um biólogo açoriano para, no futuro, incluir o arquipélago neste trabalho.

Mas para o final do ano, a artista está já a preparar um trabalho “mais poético”, revela. Desta feita, os protagonistas serão os golfinhos roazes do Sado. Desta feita, tratar-se de um projeto em vídeo e desenho que reflete sobre a presença destes animais nas águas nacionais. Para já, está marcado um “passeio” com biólogos especializados nesta espécie de golfinho que é dos mais bonitos postais de Setúbal. Por detrás deste trabalho, a artista tem um objetivo latente: o de devolver às pessoas o olhar do mar, quase como se o descobrissem pela primeira vez.

 

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