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Sexo, pornografia e bonecas de silicone. Que futuro para o tesão?

Sexo, pornografia e bonecas de silicone. Que futuro para o tesão?

Behrouz Mehri / AFP Diogo Vaz Pinto 13/03/2019 16:36

Especialistas acreditam que consumo de pornografia é o principal fator para que os millennials tenham menos relações sexuais que a geração anterior, e já se perfilam no horizonte uma série de novas tentações para acabar de vez com o sexo à moda antiga

Não há meio de dar-se demasiada importância ao sexo. É o impulso que fica aí doseando a folga na corda que temos, e nos espicaça, organiza o baile para a atração dos corpos. É um privilégio dos bichos, esses que têm autonomia suficiente para montar o seu recreio entre as fissuras das leis físicas que governam o cosmos. Existências minúsculas que, de outro modo, talvez se sentissem demasiado tentadas a inexistir. Já Henry Miller, pela boca de um dos seus personagens, nos garantia que aquilo “que mantém o mundo colado, como aprendi às minhas próprias custas, são as relações sexuais.”

É a cola, a argamassa da sociedade. Dá para supor que, não fosse o sexo, e muitos nem teriam razão para se levantarem da cama. Afinal, de todas as agruras e os apuros em que nos metemos, que outra coisa o justifica senão a ânsia de voltar para a cama, mas arrastando alguém. O especialista brasileiro em anatomia e deboche, Reinaldo Moraes, lembrava no seu “Pornopopeia”: “A alma, como se sabe, é um organismo arcaico com três órgãos: miolos, estômago e genitália.” Basta ter alma, por isso, para sentir a coceira, um desejo de se abrir todo, virar-se do avesso. E aí entra em jogo essa necessidade que vamos tendo de roçar até se perder na alteridade do outro, “uma experiência de solidão que esplende através de um contacto absoluto” (Martin Amis). Mas já chega de tomar balanço. Até porque, nos últimos tempos, o milenar jogo de sedução da nossa espécie levou um rombo valente da evolução tecnológica.

Estão a ganhar cada vez maior expressão as estatísticas que pintam um quadro ominoso no que toca ao império que os estímulos sexuais tinham no quadro geral do desejo. Em 2016, um grande estudo realizado nos EUA veio dizer-nos que os millennials estão a ter menos relações sexuais do que a geração anterior, mas já esta semana o National Survey of Sexual Attitudes and Lifestyles – o maior estudo sobre hábitos relacionados com a saúde sexual no Reino Unido – revelou que mais de 30% dos jovens enfrentam problemas que antes eram mais comuns entre a população mais velha. Entre os jovens sexualmente activos, 34% dos homens e 44% das mulheres admitem ter tido pelo menos um problema do foro sexual que se prolongou por três ou mais meses.

De resto, se o Viagra antes dirigia as suas campanhas a homens mais velhos e que já se ressentiam em termos de saúde mental e física, hoje as pesquisas indicam que entre 14% a 35% dos jovens sofrem de disfunção eréctil. Mary Sharpe, da Reward Foundation – uma instituição de caridade britânica de âmbito educacional que se foca nas questões do amor, sexo e internet –, refere ao “The Guardian” que, até 2002, a disfunção eréctil afetava entre 2 a 3% dos homens com menos de 40 anos, mas desde 2008, (altura em que os sites de pornografia gratuitos e a internet a alta velocidade generalizam esse consumo) o número registou uma subida vertiginosa. E não faltam estudos que comprovam que a pornografia é um fator decisivo na alteração dos comportamentos sexuais entre as gerações mais novas.

A perda da virgindade sensorial acontece-nos cada vez mais. Já ninguém sabe ao certo com que idade essa inocência se esfuma, e muitas vezes, quando chega a adolescência, e damos por nós com o barco de papel do nosso ânimo perdido no meio de uma tempestade hormonal, há muito deixámos de explorar os domínios da pornográfica com um espanto que roça o terror. Mesmo a infância deixou de encontrar um grande fosso protetor à sua volta. Em Portugal não há muitos dados recolhidos sobre o consumo de pornografia pela população mais jovem, mas um estudo realizado entre 2016-17 pela Middlesex University (Londres) revelou que entre os 11 e os 16 anos, 48% dos miúdos tinham já visto pornografia online, sendo que, deste grupo, a vasta maioria (93%), aos 14 tinham já feito posto o pé nessa lua devassa que realiza a sua órbita a uma distância cada vez mais próxima de todos nós.

“Doses cada vez mais elevadas” Estamos muito longe daquela forma de inocência que nos tornava radares para o menor deslize, a menor distração no decoro, um pequeno desajuste revelador ao nível da vestimenta e o corpo era atravessado por um raio, ficando em sentido e de arma em riste. Passavam-se os dias e estávamos como regimentos desertos de entrar em ação. Às vezes, num prado, bastava ver uma flor numa pose ardorosa, uma orquídea com aquele seu arco de sugestão sexual. Era tão fácil uma natureza morta escapar à monotonia, através de um sugestivo reflexo. Comer uma simples peça de fruta, depois da pornografia ter entrado nas nossas rotinas, deixou de ser uma experiência tão inebriante, no pacto que conseguia entre os nossos sentidos, esse arranjo profundo de desejos.

E o problema com a pornografia, como notam os terapeutas sexuais, é que vai elevando de forma muito pouco natural a fasquia em relação àquilo que nos causa excitação sexual. É um consumo que tem tendência a tornar-se viciante, e é, de acordo com os terapeutas sexuais, uma forma de estimulação que facilmente nos torna um tanto maníacos em relação às nossas preferências, uma experiência dissociativa que nos faz enveredar por uma forma de exploração sexual solitária, em que o absoluto controlo depressa leva a que nos encerremos nuns apetites cada vez mais particulares, mais difíceis de saciar. O jovem que se vicia em pornografia acaba por constituir o seu catálogo de parafilias, adquire um apetite esquisito, às vezes pavoroso. E a busca de prazer torna-se uma experiência conseguida em condições que dificilmente podem depois ser replicadas no ato sexual a dois.

Claire Faulkner, uma das terapeutas citadas pelo “Guardian”, adianta que, como acontece com qualquer outro vício, “as pessoas vão necessitando de doses cada vez mais elevadas. Trata-se sempre de forçar os limites para se atingir o mesmo grau de excitação. O que significa que aquilo a que vão assistindo se torna cada vez mais hardcore e potencialmente assustador. Já tive pacientes que me disseram que chegaram a um ponto em que já nem sentem confortáveis com o tipo de conteúdos que andam a ver”. De resto, como Mary Sharpe sublinha, ao monitorizar a atividade cerebral dos consumidores compulsivos de pornografia, obtém-se o tipo de alterações que se observam nos cérebros dos viciados em narcóticos.

Os dados recolhidos pela Reward Foundation indicam que, hoje, cerca de 80% dos problemas que enfrentam as pessoas que buscam tratamento devido a comportamentos sexuais descontrolados, a pornografia é um fator central. E Mary Sharpe adianta que o consumo excessivo de pornografia nos anos formativos – ou seja, na infância e na adolescência – altera a apetência sexual, e predispõe-nos a desordens sexuais e a problemas de saúde mental. Sharpe refere que muitos terapeutas e farmacêuticos nem se lembram de sugerir aos pacientes que alterem os seus hábitos em relação ao consumo de pornografia, e que, perante problemas de disfunção eréctil receitam Viagra, mas não lidam com a questão subjacente, e que originou o problema.

Para a psicoterapeuta francesa Marie Lise Labonté, autora do livro “Faire l’amour avec amour”, “estes conteúdos [pornográficos] destroem a nossa capacidade natural de fantasiar, matam a imaginação, porque fazes amor com um ecrã mental, com as imagens que tens na cabeça, e não com o teu amante, o que é terrível”. De acordo com especialistas ouvidos pelo “El País”, a pornografia cumpre na perfeição os requisitos das drogas viciantes: “há uma recompensa imediata – masturbação e orgasmo – e pode repetir-se quantas vezes se queira de forma fácil, privada e gratuita”. O artigo que saiu na edição do semanário, que foi para as bancas no passado fim-de-semana, adianta que, segundo os terapeutas, “há homens de 30 e 40 anos que preferem ficar solteiros, não buscam um par, porque a pornografia oferece sexo sem problemas; o homem tem um desejo orientado por uma lógica finalista: o objetivo é ejacular”, e a pornografia providencia o estímulo necessário a atingirem o objetivo, tendo um cardápio imenso à sua disposição e à distância de um clique.

De acordo com o sexólogo e terapeuta Pedro Villegas, é o medo de não serem capazes de dar prazer o que provoca mais ansiedade a estes homens, e a pornografia, mais do que um escape, torna-se uma alternativa, até porque os dispensa do esforço de se tornarem atraentes, de conquistarem com atenções e cuidados o seu par, “arriscando-se a que à mulher, de qualquer modo, não lhe apeteça fazer sexo”. E a propósito da espinhosa questão da satisfação do parceiro, tratando-se de mulheres, ao analisar os orgasmos femininos, um estudo da Durex, feito em 2016 no nosso país, indicou que 2/3 das mulheres dizem nem sempre atingir orgasmos nas relações sexuais, sendo que mais de metade (56%) não fala com o parceiro sobre a frequência ou intensidade dos mesmos.

Virginie Despentes, que antes de se tornar a desabusada autora de manifestos como “Teoria King Kong” (ed. Orfeu Negro, 2016) foi prostituta, declara-se uma proletária do feminismo, e enquadra as dinâmicas de género, violação, pornografia e prostituição “como forças hegemónicas que definem e delimitam a própria forma como homens e mulheres agem”, diz-nos Ana Bessa Carvalho numa recensão ao livro. De resto, e se o “mercado de gajas boas” é o padrão para se ser mulher, Despentes nota que consumir pornografia não nos leva a ter mais sexo, mas a afundarmo-nos em mais pornografia. “Tal como comer McDonalds todos os dias não nos habituará a uma comida que (ainda que aprazível) na essência nem comida é, também a pornografia condiciona o consumidor a satisfazer-se com uma impressão de sexo extremo ao invés do real.”

Prostitutas de silicone Enquanto a pornografia segue a par e passo as evoluções da tecnologia de ponta e há já uma série de filmes disponíveis para aqueles consumidores que buscam elevar a experiência a um nível cada vez mais realista e absorvente, nomeadamente através dos óculos 3D, as bonecas e os robôs sexuais parecem ser a nova tendência, tendo sido amplamente noticiado em março do ano passado o sucesso da abertura, em Barcelona, do primeiro bordel de bonecas sexuais no mundo.

Ao contrário do que se poderia supor, esta nem é mais uma dessas tendências de nicho, e um estudo da Universidade de Duisburg-Essen, na Alemanha, comprova-o, sendo que dos 263 homens heterossexuais consultados mais de 40% admitiram que não tinham dificuldade em imaginar-se a recorrer aos serviços de um robô sexual. E depois do sucesso do bordel espanhol, o Lumi Dolls, que oferecia sessões de uma hora com as suas quatro bonecas – cada pesando 40 kg, sendo feitas de silicone e avaliadas em cerca de 5 mil euros –, foi a vez de, em outubro, abrir em Dortmund, na Alemanha, o Bordoll – nome que combina as palavras bordel e doll (boneca). Ao invés de apenas quatro bonecas, o elenco estendia-se neste a 11, disponíveis para alugar também por 80 euros por hora. Importadas da Ásia, de acordo com o site do bordel as bonecas são de “qualidade extremamente alta”. Terão custado a volta de 2 mil euros cada, pesando perto de 30kg. E para se perceber a atração deste mercado da “prostituição plástica” basta consultar a página online da Bordoll, que passou, desde a inauguração a contar com mais 10 bonecas, sinal de que o negócio está a florescer. No site é possível descortinar os aliciantes deste serviço. As 21 bonecas, todas elas com uma expressão plácida no rosto, são-nos exibidas à semelhança do que acontece nos sites de prostituição regular, com dotes que, ora buscam o realismo, ora se excedem no atrativo de serem, afinal, tudo menos naturais. São “descomplicadas” e estão “sempre dispostas”, ou seja, são “verdadeiras mulheres de sonho”.

Numa entrevista ao “Mail Online”, Evelyn Schwarz, a dona do estabelecimento, de 29 anos, admite que para muitos clientes não se trata de um fetiche mas de uma curiosidade. Segundo ela, o bordel ganhou imensa popularidade, com as bonecas a serem alugadas até 12 vezes por dia, e 70% dos clientes regressa para uma segunda visita. Talvez mais relevante é o facto de, segundo Schwarz, as mulheres de grande parte dos clientes não levarem a mal esta atividade dos maridos, chegando por vezes a “esperar lá fora no carro”. Possivelmente, as bonecas até funcionam como um alívio para ambos os membros do casal, uma vez que, como refere Schwarz, as mulheres “veem isto como um brinquedo”.

Outro exemplo do sucesso desta forma de pornografia materializada é-nos contada por uma reportagem do “El Mundo”, tendo o jornalista Alberto Muñoz visitado o ateliê onde Jade Stanley, uma mulher de 35 anos, mãe de quatro filhos, fabrica bonecas de silicone e é conhecida e respeitada em Halesowen, um bairro em Birmingham (Inglaterra), pelo êxito que alcançou expedindo as bonecas sexuais para os quatro cantos do mundo. Jade, que diz ter tido sempre “faro empresarial”, criou a primeira rede de aluguer de bonecas sexuais porta a porta do mundo, e diz que a ideia lhe veio depois de ter lido a notícia da abertura do bordel em Barcelona.

A sua empresa, Sex Doll Official, aluga as bonecas durante uma semana por 400 euros no território do Reino Unido. Mas Jade também vende as bonecas, que demoram entre seis e oito semanas a serem feitas, e que podem ser inspiradas em estrelas porno bem como em personalidades do Instagram ou outro tipo de celebridades. As mais genéricas ficam-se pelos 2300 euros, mas as bonecas podem custar até 5600 mil euros, dependendo dos cuidados de customização que o cliente exija. Até o momento o país para o qual expede mais bonecas é os EUA, e Jade não quis precisar quantas bonecas vendeu ao todo, mas revelou que está perto de atingir o primeiro milhar.

Entretanto, um recente relatório da Foundation for Responsible Robotics defende que há uma boa probabilidade de os robôs virem a “revolucionar” o futuro do sexo e a ajudar todos aqueles com problemas de intimidade na vida real. Num estudo que mistura investigação e especulação, a instituição analisa as problemáticas que poderão surgir, inclusivamente do ponto de vista ético. Noel Sharkey, professor de inteligência artificial e robótica na Universidade de Sheffield, em Inglaterra, e um dos autores do estudo, refere que a questão poderá tornar-se espinhosa do ponto de vista ético se os robôs forem usados para recriar situações “frígidas”. Como indica Sharkey, tem havido algum debate sobre se os robôs poderão ser usados para satisfazer perversões sexuais que passem por cenários de violação. “Há quem defenda que é melhor que eles violem robôs do que pessoas reais. Por outro lado, há aqueles que acreditam que isto apenas servirá para encorajar ainda mais aqueles que alimentam fantasias de violação”, explica.

Se houve já petições para que robôs sexuais na forma de crianças fossem banidos, não há até ao momento quaisquer limitações no que toca a criar robôs ou bonecas que tenham aparência de mulheres reais ou sequer de celebridades. No ano passado, um criador de bonecas sexuais de Hong Kong fez cabeçalhos depois de ter criado uma versão robótica da actriz Scarlett Johansson sem a sua permissão. O debate está só no início, e é muito cedo para saber como as novas tecnologias acabarão por afetar os hábitos sexuais, mas há sinais de que o sexo possa deixar de ser a cola do mundo, e tornar-se mais um fator de desagregação numa sociedade que cada vez nos empurra mais para o solipsismo.

 

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