19/9/19
 
 
Carlos Zorrinho 13/03/2019
Carlos Zorrinho
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Em resposta a Macron

Macron não é socialista como eu, mas partilha comigo uma visão globalista, ambiciosa e progressista do papel da Europa no mundo

Emmanuel Macron foi eleito presidente da República Francesa realizando um trajeto que se afastou do sistema tradicional de representação partidária, mas, ao contrário de muitos arrivistas recentes, não cedeu ao discurso populista de atribuir ao projeto europeu a causa de todos os males. Assumiu antes, com coragem e lucidez, que a União Europeia deve ser um veículo determinante para a solução dos problemas que uma globalização desregulada coloca a França e a todos os países da união.

Macron não pertence à minha família política e, ao longo do seu atribulado mandato, tem sido por vezes ambíguo e noutras inábil na forma de governar, tendo atingido uma taxa de popularidade muito baixa, que procura agora combater com o lançamento de um processo de diálogo com os franceses para compreender e tentar dar resposta à insatisfação, traduzida na emergência de movimentos como os coletes amarelos.

Macron não é socialista como eu, mas partilha comigo uma visão globalista, ambiciosa e progressista do papel da Europa no mundo. Por isso, quando recebi por via digital a sua carta aos europeus, apelando a um renascimento da Europa, não a apaguei. Antes pelo contrário, li-a com muita atenção e interesse.

Na sua missiva, o presidente francês dá ênfase a algo que não me canso de repetir. A União Europeia é um sucesso histórico e uma garantia demonstrada de defesa comum da paz e da liberdade. Lembrou também que quem nos defendeu das guerras e das ameaças totalitárias nos últimos 60 anos será certamente quem melhor poderá defender-nos das guerras do futuro e dos riscos de captura da liberdade pela manipulação massiva da informação. Propõe, em consequência, um renascimento do ideal europeu baseado em três pilares; a defesa da liberdade, a proteção do continente e a recuperação do espírito do progresso. A carta de Macron foi endereçada aos 500 milhões de europeus. Não me arrependi de a ter guardado e lido. Aproveito esta coluna para de forma sintética lhe responder.

Concordo com Macron no diagnóstico e nas prioridades. Contudo, lembro--lhe que o sucesso histórico do projeto europeu é fruto duma visão humanista partilhada pelos democratas cristãos e pelos sociais-democratas. É marchando com eles e não contra eles, ainda que democratas cristãos existam cada vez menos na cena política europeia, que podemos conseguir fazer renascer o projeto europeu no coração dos seus cidadãos e na razão das suas instituições.

É marchando com eles e também com as forças emergentes no campo ecologista e nas novas causas da modernidade que podemos construir uma plataforma sólida contra o conservadorismo anémico da direita tradicional europeia e contra o populismo sem ética dos nacionalistas radicais de direita e de esquerda.

Agradeço a carta de Emmanuel. Vou guardá-la na minha pasta da esperança. Despeço-me citando um provérbio português que postula “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Das escolhas e alianças de Macron resultará a força da proposta que faz. Em junho veremos se me sentirei instado a apagar a tua carta ou, pelo contrário, se a usarei como um contributo inspirador para um programa ambicioso e progressista de renascimento europeu.

 

Eurodeputado

 

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