20/5/19
 
 
Vítor Campos. “Quando um estudante morre/ Os sinos tocam assim...”

Vítor Campos. “Quando um estudante morre/ Os sinos tocam assim...”

DR Afonso de Melo 12/03/2019 21:31

Em 1967, a Académica entrou para a história do futebol do mundo: um grupo de estudantes luta pelo título com o Benfica, que jogaria mais uma final da Taça dos Campeões

Morreu o Vítor. E com ele um pedaço da Coimbra, do Choupal até à Lapa. Vítor José Domingos Campos, nascido em Torres Vedras no dia 11 de março de 1944. Eu conheci o Vítor. Foi um privilégio conhecer o Vítor. E o Mário, seu irmão. Poucos como eles foram tão, tão Académica, essa equipa-de-todos-nós, diria Ricardo Ornellas.

Em outubro de 1963, Vítor Campos está em Coimbra. Ora, que digo eu? Vítor Campos estará sempre em Coimbra, e Coimbra sempre em Vítor Campos, mesmo que, agora, lá na longínqua planície da eterna saudade. Estreia-se de negro no dia 6, frente ao Varzim. Durante 13 anos consecutivos trará no peito o emblema em losango com a torre e a velha Cabra. Nos seus pés, a bola tinha o conforto de uma capa cuja sombra dava no chão e abria em flor, como cantou o Zeca Afonso. E foi doutor na Coimbra dos doutores que passou na voz da Amália. Doutor em Medicina, do ano de 1971. Doutor na vida pelo seu jeito tranquilo de cavalheiro que sabe que, na verdade, doutor é cada um na sua profissão.

Eu vi jogar o Vítor, uma e outra e outra vez. Fui da Académica porque ser da Académica era, em certa altura, ser do contra, caminhar do lado esquerdo, dizer não quando nos queriam obrigar a dizer sim. E porque a Académica foi, in illo tempore de Trindade Coelho, outra forma de se dizer saudade. “O livro é uma mulher/ Só passa quem souber/ E aprende-se a dizer saudade”.

Na revista “Académica”, Boaventura Sousa Santos, sociólogo, contou uma vez uma história passada em Atouguia da Baleia. O pai do Vala tinha um café e um filho mais novo do que António, que também jogou na Académica e que também já fugiu para esse lugar mágico onde as almas não choram. Era o Rui. Um dia apareceu um senhor no café dos Valas e o Rui tinha apenas dez anos. O senhor disse-lhe: “Tenho de te levar para o Benfica.” E ele, direto: “Não! Quero ser médico. Como o Campos!”

Em 1967 Vítor Campos chegou à seleção nacional em 1967. Fez apenas um jogo, frente à Itália, em Roma (1-1). Engoliu a injustiça dessa presença sem repetição: “Ser atleta da Académica é, para mim, a honraria suprema.”

E que Académica essa. Segunda classificada no campeonato, um ponto à frente do FC Porto, dez sobre o Sporting – empate em Alvalade na última jornada –, senhora de um jogo histórico, no Municipal, frente ao Benfica. Há quem afirme que estiveram bem mais de 40 mil pessoas nas bancadas no dia 12 de março. Trinta e três mil bilhetes vendidos, 800 contos de receita. Ganham os encarnados, o título, se chegara a ser sonhado, desfaz-se como areia por entre os dedos. Mário Wilson, o treinador, encolhia os ombros: “Mas que título? Sempre previ que o Benfica iria ser campeão. Nós estamos aqui para tentar chegar ao segundo lugar.”

Diz o velho ditado: “O Porto trabalha/ Braga reza/ Coimbra estuda/ E Lisboa diverte-se”. Em Coimbra estudava-se. Artur Jorge explicava: “Não tenho tempo para estar a pensar em ser campeão. Tenho um exame de Alemão amanhã mesmo.” E Ernesto: “Vocês dos jornais querem à força que digamos que somos candidatos. Esqueçam. Isso é impossível! Começam agora as frequências e é inevitável cairmos por aí abaixo.”

Cair, não caíram. O ano de 1967 ficou para a história do futebol do mundo. A rapaziada da universidade batia-se ombro a ombro com o Benfica, que voltaria a jogar uma final da Taça dos Campeões. O Vítor está lá. O Vítor estava sempre lá. Esteve nas finais da Taça de Portugal de 1967 e 1969, perdidas para o V. Setúbal (com dois prolongamentos) e para o Benfica (em plena crise académica); jogou nas competições da Europa; caminhou irreverente – era próprio dele! – ao lado de tantos que conto como amigos, desde o Toni (meu irmão bairradino de Mogofores) ao Vasco Gervásio (outro daqueles que se encantaram cedo demais), de Artur Jorge (agora distante) ao Rocha (que tem lugar na minha infância ali no Olival), do Velho Capitão Mário Wilson (um dos que fizeram o favor de me ensinar) ao dr. Luís Eugénio, vizinho dos meus avós à Rua Francisco Metrass. E do Mário, como não podia deixar de ser, irmãos Campos de sangue e capa e batina nos relvados e pelados de um Portugal que já não há.

O Vítor morreu de apenas morrer, essa coisa de não estar vivo, aqui e agora, mas continuar a ser o que é na aldeia branca da nossa memória. “A cabra da velha torre/ Meu amor, chama por mim/ Quando um estudante morre/ Os sinos tocam assim”. Dobrarão até ao fim dos tempos.

 

 

Iniciar Sessão
Esqueceu-se da sua password?

×
×

Subscreva a Newsletter do i

×

Pesquise no i

×