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12 de março de 1941. E os Calçados da calçada calçaram um peregrino que vinha descalço

12 de março de 1941. E os Calçados da calçada calçaram um peregrino que vinha descalço

Afonso de Melo 12/03/2019 20:10

Préstito nobre, de uma irmandade nobre, aconselhado a poupar. Pelo Estado e pela Igreja. Em nome do bom senso. Afinal, viviam-se os anos da Grande Guerra

“Tocam os sinos da torre da igreja/ Há rosmaninho e alecrim pelo chão/ Na nossa aldeia que Deus a proteja!/ Vai passando a procissão”, recitava João Villaret os versos de António Lopes Ribeiro.

Vá lá, sem esforço por aí além, aceitemos que neste tempo de que vos falo os bairros de Lisboa eram aldeias. E que Lisboa sempre foi cidade de procissões, fossem elas dedicadas ao Corpo de Deus, a São Jorge, Passos da Graça, Saúde, Passos do Desterro, Ramos...

Era domingo e o povo saiu todo para a rua. São Vicente recebeu a multidão, entre o divertido e o curioso, entre o fervor da fé e o temor religioso.

“Pelas janelas, as mães e as filhas/ As colchas ricas, formando troféu/ E os lindos rostos, por trás das mantilhas/ Parecem anjos que vieram do Céu!”

Pois, pois. O céu ali tão perto, ao estender da mão.

Conte-se a história. Um peregrino, esfomeado, cansado, descalço, bateu à porta dos jesuítas de Santo Inácio, ali a São Roque. Puseram-no a andar mais depressa do que o teriam feito a um cão vadio e sarnoso. O pobre homem, ainda assim, acreditava na Igreja e seus derivados. Foi então de longada à Calçada de Santo André e ao convento dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho. Ora, estes, mais generosos, não só lhe forneceram calçado, algo que advinha da sua condição, como também uma refeição de encher um abade e um catre no qual esticar as maleitas do corpo. Na manhã seguinte foram ver dele, mas sumira-se sem deixar rasto. Ou melhor, deixar rasto, deixou: sobre a enxerga estava uma imagem do Cristo.

Nestas coisas de conventos há muita ou pouca filantropia, depende de quem os habita, mas há fundamentalmente sentimento de posse. São Roque reclamou a estatueta, a Graça fez o mesmo, meteram-se reclamações pelo meio, requisitou-se a intervenção episcopal, e a Graça levou a melhor. Com uma condição: o Senhor dos Passos, como ficou conhecido, visitaria São Roque uma vez por ano, mas com a condição de não poder lá pernoitar mais do que 24 horas, a exemplo do que sucedera com o peregrino que arranjara toda esta trapalhada.

“Ai, que bonitos que vão os anjinhos!/ Com que cuidado os vestiram em casa!/ Um deles leva a coroa de espinhos/ E o mais pequeno perdeu uma asa!”

Ora, asa perdida, asa voada, a Procissão dos Passos teve início na Quaresma de 1587 e rapidamente ganhou uma popularidade de fazer inveja a muitas outras procissões, com anjinhos ou sem eles. Os passos, esses, eram os lugares obrigatórios de passagem, como está bem de ver. O primeiro passo era o Largo de São Roque, o segundo era o Rossio (onde chegou a existir uma convenientíssima Leitaria Passo), depois Mouraria, Terreirinho e Arco de Santo André. E coisa fina, não tenham dúvidas. Nisto de procissões, mais nobres eram as organizadas por irmandades nobres. Fosse como fosse, não era a nobreza que afastava o populacho do préstito e ainda bem, porque o mundo de gente que ia, por ali fora, pisando folhinhas de rosmaninho e alecrim enquanto seguia a imagem desse estranho Cristo que aparecera sem se saber como no lugar de um peregrino estafado, fazia da Procissão dos Passos a maior de Lisboa, ultrapassando até, segundo o afirmou doutoralmente o grande Alexandre Herculano, a Procissão da Saúde, que tinha um certo panache por meter a presença da tropa, de tal ordem que também lhe chamavam a Procissão dos Artilheiros.

“Olha os bombeiros, tão bem alinhados!/ Que se houver fogo vai tudo num fole/ Trazem ao ombro brilhantes machados/ E os capacetes rebrilham ao sol”.

Ano de 1941: as autoridades eclesiásticas e políticas evocavam a necessidade de se ser austero. Vivia-se a guerra. E sublinhavam: “Assim o entendem a Igreja e o bom senso.” Expressões que nem sempre ficam de acordo na mesma frase.

 

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