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Geração à Rasca. Das ruas para o museu do Parlamento Europeu

Geração à Rasca. Das ruas para o museu do Parlamento Europeu

DR Diogo Vaz Pinto 11/03/2019 22:58

Faz oito anos que uma manifestação convocada pelo Facebook por quatro amigos em situações de desemprego e precariedade conseguiu mobilizar centenas de milhares de pessoas que ocuparam ruas e praças do país, números que não se viam desde o 25 de Abril

Tão poucas ideias ou definições nos restam hoje que façam ainda tremer a rua. Foi noutro século, passaram-se algumas décadas desde que um relatório da Unesco sobre a juventude nos oferecia como palavras-chave termos como contestação, transgressão, contracultura, contrapoder... Na verdade, parece que tudo isso foi há tanto tempo que as memórias da década de 60 do século passado adquirem hoje o prestígio dos mitos. Como António Guerreiro notava há alguns anos, “hoje, já nem é preciso relatórios para conhecermos as palavras que descrevem a situação dos jovens: desemprego, precariedade, pragmatismo, sobrevivência. Da época em que a juventude teve uma grandiosa significação cultural e quis assumir a responsabilidade do devir histórico, com o entusiasmo político de quem se sentia um grupo messiânico, chamado a libertar a humanidade da opressão e da injustiça, passámos para a época em que ser jovem significa ausência de projeto, aceitação dos limites, repetição. Do grande espaço público, a juventude passou para a estrita cena privada. A ideia de juventude desligou-se, aliás, de uma ideia cultural e ficou vinculada apenas a lógicas de consumo, de trabalho, e a modos de ocupação do tempo”.

O protesto que ficou conhecido como “Geração à Rasca” tinha algo da astúcia, dessa sensibilidade que Françoise Sagan exaltou, afirmando que “na nossa época, para um espírito agudo, o ridículo, ‘ser ridicularizado’, é qualquer coisa de sublime”. “Sublime e inquietante, adiantava. E talvez se possa destacar este gosto por se deixar ridicularizar como o golpe de rins de que foram capazes centenas de milhares de jovens portugueses a 12 de março de 2011, depois de um punhado de amigos ter pressentido o cheiro a pólvora no ar, ao notarem a reação emotiva no público dos concertos dos Deolinda no Coliseu do Porto e de Lisboa, perante o primeiro verso da canção “Parva que Sou”: “sou da geração sem remuneração”. E depois bastou uma pequena torção na expressão “geração rasca”, que Vicente Jorge Silva utilizara em 1994, para descrever o protesto de estudantes do ensino secundário. João Labrincha, Paula Gil, António Frazão e Alexandre Carvalho, os jovens que se serviram do Facebook para lançar o repto que viria a levar cerca de 500 mil pessoas a aderirem às manifestações que decorreram em várias cidades do país, conheciam-se dos tempos de estudantes em Coimbra, e a ideia terá partido de uma conversa que tiveram num café de Alfama, em Lisboa, ao falarem da tal canção dos Deolinda.

A manifestação contou com a particularidade de não estar vinculada a partidos políticos ou sindicatos e de ter conseguido reunir o maior número de manifestantes nas ruas desde o 25 de Abril de 1974. Assinala-se amanhã o oitavo aniversário daquele protesto que ostenta hoje o título de ter sido a primeira manifestação de massas na Europa organizada através das redes sociais. Desde então, esse esforço para reivindicar melhores condições de trabalho e o fim da precariedade serviu, pelo menos, para fazer passar a mensagem. Como notou João Labrincha, “colocámos nas bocas do mundo a palavra precariedade”. De resto, as condições que estiveram na sua origem agravaram- -se e o diagnóstico, hoje, dificilmente provoca a mesma indignação. Por outro lado, também a internet 2.0 parece ter deixado de ser uma ferramenta ao serviço da sociedade civil e começou a conformar um terreno algo difuso onde os impulsos se perdem e atrofiam. Como notou Carla Baptista, professora e investigadora na área da história dos média e da relação entre jornalismo e política, num recente artigo na revista “Electra”, hoje, esse espaço perdeu alguma da sua capacidade vinculativa e deu origem a um terreno minado de miragens onde “gestos mínimos, cumplicidades silenciosas, escolhas caprichosas, comentários irados constituem vestígios suficientes de existência e intervenção”. A investigadora reforça ainda que, na sua forma atual, “o mundo digital convoca presenças que são quase ausências e não tem fontes de legitimidade definidas, mas reforçou as pretensões deliberativas”.

Mais curioso é o facto de, oito anos depois, e quando até aqueles jovens concordam que a precariedade laboral e a austeridade estão longe de ser fantasmas do passado, ter chegado a altura de o protesto que conta ainda com o mérito de ter inspirado os “Indignados” em Espanha, e se ter reinventado pelo mundo com o nome “Occupy”, ter visto o seu papel histórico reconhecido pelo Parlamento Europeu, ao ponto de ter aberto a 1 de março, na Casa da História Europeia, a exposição “Restless Youth – Growing up in Europe, 1945 to now”. Nela se assinala, entre outros movimentos de juventude que ajudaram a definir o quadro social europeu, o marco que foi o “Protesto da Geração à Rasca”, com a exibição de um cartaz das manifestações ocorridas em Portugal entre 2011 e 2013. Alguns dos membros fundadores do Movimento 12 de Março viriam depois a prosseguir a sua ação reivindicativa através da associação Academia Cidadã; e no texto que fez chegar às redações, João Labrincha recorda que “a originalidade da iniciativa prendeu-se com o facto de ter sido convocada pelo Facebook, por quatro amigos que se encontravam em situações de desemprego e precariedade e que, sem apoio de partidos nem sindicatos, conseguiram mobilizar várias gerações a protestar nas ruas e praças do país”. Lembra ainda que, depois da manifestação, os organizadores se juntaram a outros coletivos, como os Precários Inflexíveis, e apresentaram a primeira Iniciativa Legislativa de Cidadãos proposta por movimentos sociais, conhecida por Lei Contra a Precariedade. Debatida e alterada na especialidade, acabaria por ser aprovada por unanimidade na Assembleia da República, dando origem à lei 63/2013.

Passados oito anos, Labrincha sublinha que “ainda há um caminho muito grande a fazer para acabar com a precariedade laboral no nosso país”. No entanto, considera que “já foram dados passos importantes, nomeadamente o processo de regularização de trabalhadores do Estado, o maior empregador de precários em Portugal”. E reforça que “as grandes vitórias da Geração à Rasca foram também o despertar para a cidadania de milhares de pessoas, tendo aberto portas a uma série de grandes manifestações durante o período da troika, bem como a criação de coletivos, associações e movimentos cívicos que se inspiraram na horizontalidade hierárquica e no apartidarismo preconizados pela Geração à Rasca”.

Se se reconhece que há ainda tanto por fazer, que a associação que se constituiu enquanto legatária da manifestação de 12 de março se regozije por a Geração à Rasca ter chegado ao museu de história europeia em Bruxelas deve, pelo menos, obrigar-nos a contemplar com ironia esse feito e ponderar o risco de este ser dado como maduro para o processo de culturalização. Seria avisado desconfiar de um eventual “dispositivo mortal de apaziguamento” das tensões sociais que lhe deram origem. Como notou Blanchot: “Que existam acontecimentos interessantes e mesmo importantes e que, no entanto, nada possa ter lugar que nos perturbe, esta é a filosofia de todo o serviço da cultura.” Assim, e se chegámos a esta citação através de uma crónica de António Guerreiro, publicada no “Expresso”, no ano daquela manifestação, lembramos as suas palavras a propósito dessa sombra que se expande hoje a alta velocidade “cobrindo o mundo de museus e mausoléus”: uma sombra “dissolvente de todas as asperezas”, que aniquila as tensões através de “representações plácidas e tranquilizantes, com o brilho do ouropel, sem pecado nem partes malditas, [e que são] induzidas por estas operações estético-culturais de patrimonialização e museificação”.

Contactado pelo i, João Labrincha – que aos 35 anos continua ligado à direção da Academia Cidadã, embora apenas como voluntário, estando hoje integrado nos quadros da organização ambiental GEOTA (Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente) – admite que esse efeito de museificação poderia de facto ser perverso se as lutas iniciadas em 2011 tivessem cessado, se o movimento social que então se criou se houvesse dissipado. Para Labrincha, não só isso não aconteceu como a dinâmica que se alcançou com os vários protestos significou um “despertar”, com a retoma de um ânimo cívico e contestatário que não se via desde o 25 de Abril.

Labrincha disse ainda a este jornal que não encara este reconhecimento da parte do museu do Parlamento Europeu como uma forma de hipocrisia, antes o vê como uma iniciativa corajosa, pois a exposição vem desde 1945 e não se ficou por um período da história recente, mas veio até à atualidade, ao que não foi ainda completamente digerido. Por isso, ao dar destaque ao “Protesto da Geração à Rasca” com a exibição de um cartaz das manifestações ocorridas em Portugal entre 2011 e 2013, para João Labrincha, que foi quem criou o evento na rede social, o que o Parlamento Europeu está a fazer é acolher os movimentos de pressão política que prosseguem a sua ação e procuram ser ouvidos pelos seus representantes democráticos, não apenas nos Estados-membros mas junto das próprias instituições europeias.

 

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